Capítulo 2 — Onde Tudo Quebra

“Algumas casas não são construídas para abrigar pessoas, mas para esconder tudo o que foi perdido dentro delas.”

Amélia Clark

Acordei com a certeza desconfortável de que estava em um lugar onde não deveria estar e com alguém que eu não lembrava de ter escolhido.

O celular vibrava insistente ao lado da cama e, antes mesmo de abrir os olhos, soube que estava em um lugar que não reconhecia. O colchão era macio demais, o ar gelado, e o cheiro de bebida me deixou com náusea, mas outro ruído me fez arregalar os olhos. A respiração tensa de alguém muito perto.

— Não. Agora não. — A voz masculina saiu baixa, controlada, mas carregada de urgência. — Você tem certeza de que ele saiu sozinho

Abri os olhos devagar e vi o homem sentado na beira da cama, de costas para mim, o telefone pressionado contra a orelha, os ombros rígidos. Costas bonitas e fortes. 

— Desde quando ninguém o viu — continuou. — Não, não desligue.

Sentei com cuidado, puxando o lençol até o peito num reflexo tardio, e foi nesse movimento que a memória da noite anterior voltou em flashes desconexos, o bar, as doses, a gargalhada vazia, o rosto dele, depois o escuro absoluto. Meu coração disparou.

Ele encerrou a ligação de forma brusca e se virou para mim, os olhos frios demais para aquela situação, mas tomados por um desespero contido que não combinava com a postura impecável.

— Fique calma — disse. — Não aconteceu nada.

Demorei alguns segundos para conseguir falar.

— Nós fizemos alguma coisa — perguntei, a voz falhando apesar do esforço para mantê-la firme.

Ele me observou por um instante longo, como se estivesse escolhendo as palavras mais eficientes, não as mais gentis.

— Não. Eu não sou um estuprador.

O impacto da frase me fez prender a respiração.

— Eu não quis dizer isso — respondi rápido. — Eu só acordei aqui e não lembrava…

— Pelo jeito — interrompeu, passando a mão pelo rosto — eu sou apenas um babaca que deixou o filho sozinho para cuidar de alguém que não vale nada. E tudo bem, já fiz escolhas ruins antes. Levante-se e se vista. 

Aquilo doeu, mas não rebati.

— Seu filho — repeti. — O que aconteceu

— Fugiu de casa — respondeu sem rodeios. 

O silêncio que se seguiu foi pesado.

Ele se levantou e começou a andar pelo quarto, explicando que a camareira havia retirado minha blusa a pedido dele porque estava suja de vômito, e que não havia nenhum outro motivo por trás disso. A forma como dizia era meticulosa, quase profissional, como se estivesse encerrando um assunto que não merecia mais espaço.

— Vou chamar um táxi — concluiu. — Você precisa ir.

Vesti minhas roupas em silêncio, sentindo o peso do constrangimento se misturar a algo mais profundo, um vazio que não tinha nome. Quando saí do quarto, não olhei para trás. Recusei o táxi assim que cheguei à rua, porque precisava andar, respirar, sentir que ainda estava inteira.

Caminhei algumas quadras sem direção até ouvir um choro baixo, contido, vindo de um canto entre dois prédios. Parei por instinto e me aproximei devagar.

Um menino estava encolhido com os joelhos puxados contra o peito, o rosto molhado de lágrimas. Ajoelhei-me a uma certa distância e falei com cuidado.

— Está tudo bem. Eu não vou te machucar.

Ele ergueu o rosto devagar, os olhos assustados demais para alguém tão pequeno.

— Você está perdido — perguntei.

Ele assentiu.

— Qual é o seu nome

Demorou, mas respondeu num fio de voz.

— Noah.

Meu peito se apertou.

— Você sabe onde mora

Depois de alguns minutos, entre pausas e silêncios, ele conseguiu me dizer o endereço. Reconheci o nome da rua.

Segurei sua mão com cuidado e caminhamos juntos.

A casa era grande demais, imponente demais, e antes mesmo que eu tocasse a campainha, a porta se abriu. Uma senhora elegante surgiu, visivelmente abalada, e tentou abraçar o menino, mas ele se escondeu atrás de mim, agarrando-se à minha perna.

— Está tudo bem — falei. — Ele só ficou assustado.

Ela assentiu, emocionada, e avisou que ligaria para o senhor Harrington. Foi uma chama breve e só ouvi a voz da senhora. 

— Encontraram nosso menino. Uma jovem o trouxe de volta.

Meu estômago revirou. A palavra jovem me fez lembrar da morte. Eu nunca teria a idade daquela senhora. Eu estava condenada a morrer jovem. 

Pouco tempo depois, ouvi o som de um carro chegando com pressa e passos firmes atravessando a entrada. Ele entrou e, ao me ver ali, parou.

Os olhos de Ethan Harrington me encontraram como se eu fosse uma falha impossível de ignorar.

— Noah — disse ele, estendendo a mão.

Eu também não sabia como reagir ou o que fazer. Fiquei paralisada com aquela piada do destino. 

O homem com quem eu havia acordado em um motel era o pai da criança que eu ajudei. Refleti sobre o azar com que algumas pessoas nascem.. Eu estava entre elas, com certeza. 

Quis ir embora, mas Noah não correu para o pai, ele se agarrou a mim. 

Ethan tentou segurá-lo e o menino em vez de entender o toque como carinho começou a gritar e acusar. 

— Você fez minha mãe embora! Você não ama ninguém! Eu quero a minha mãe! 

A situação ficou insustentável e quando a senhora que havia me atendido se aproximou tentando levar Ethan para o quarto eu ajudei. Segurei aquele menino nos braços e segui com a mulher para o quarto que ela indicou. 

Ele se agarrava a mim por algum motivo que eu não era capaz de compreender e na inocência de criança começou a acusar o pai em meio aos soluços. 

— Ele fez a minha mãe ir embora. Eu o ouvia brigando com ela. 

Respondi com a voz carregada do que estava sentindo. A proximidade de morte amolece convicções e faz a raiva se tornar um sentimento obsoleto. 

— Adultos são crianças grandes, Noah. Nós erramos tentando acertar. Seu pai pode parecer frio, mas ele te ama mais do que pode imaginar. 

— Não ama, não! — disse, com a voz carregada de decepção. — Você não o conhece.

— Realmente não conheço o seu pai, mas sei que quando a gente ama o maior medo não é o de perder é o de ferir quem a gente ama. E o seu pai tentou te abraçar quando chegou. 

Conversamos muito e quando Noah finalmente dormiu eu me despedi com um beijo em sua cabecinha suada. Algo dentro de mim gritava que eu não podia desperdiçar despedidas. 

Levantei-me devagar e quando sai lá estava Ethan me olhando. 

— Obrigado pelo que disse ao meu filho — Não havia emoção naquela voz, só educação — Venha ao meu escritório. Preciso falar com você. 

Tentei recusar, mas ele foi contundente enquanto indicava o caminho.

— Agora!

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