Capítulo 1 — Só Respire

Amélia Clark

A morte realmente é silenciosa e eu descobri isso em um consultório e não no meu enterro.

Eu sempre achei que a vida tivesse um som.

Em alguns dias, era o caos das buzinas, passos apressados, risadas de desconhecidos atravessando ruas como se tivessem pressa de existir. Um ruído vivo, quente, irritante e, ainda assim, reconfortante.

Em outros, era quase uma música: uma chaleira velha apitando no fogão, o vento batendo nas janelas do meu pequeno apartamento em Nova York, o som familiar das páginas de um livro sendo viradas devagar, como se o tempo pudesse ser convencido a esperar.

Mas naquele consultório branco, frio e limpo demais, a vida não tinha som nenhum. Era como se o silêncio tivesse dentes e estivesse mastigando tudo.

O relógio na parede marcava o tempo com precisão cruel, mas eu não o escutava. A caneta do médico batia ritmadamente contra o bloco de notas, mas parecia distante, como se aquilo estivesse acontecendo em outra realidade.

Ele falava enquanto sua boca se movia devagar, como se estivesse dando uma notícia comum, parte da rotina dele.

— Senhorita Clark. Os exames apenas confirmaram o que eu suspeitava. Você tem um tipo raro de tumor no cérebro. Um glioblastoma em estágio dois. É um tumor que responde bem ao tratamento, mas as intervenções precisam ser imediatas.

— I-imediatas? — perguntei. — Do que o senhor está falando, mais precisamente?

O médico fechou a pasta com calma, apoiou as mãos sobre a mesa e me encarou com uma frieza que fez minha pele arrepiar.

— Significa, senhorita Clark, que se não iniciarmos a quimioterapia, a radioterapia e, em seguida, a remoção do tumor, você não tem mais do que noventa dias de vida. 

Chances.

De forma fria e cruel, isso significava que meu futuro era uma aposta mal calculada. Mas outra palavra martelava na minha mente, uma que meu cérebro ainda não conseguia absorver por completo.

Tumor.

Eu tinha um tumor no cérebro. Algo crescendo dentro de mim, algo que precisava ser removido com urgência ou me mataria.

Piscar parecia exigir esforço demais. Minhas mãos repousavam sobre os joelhos e meu corpo permanecia imóvel, como se qualquer movimento fosse suficiente para me fazer desabar. Meu coração, esse já não obedecia, pulsava descompassado, tentando acompanhar o caos que tomava conta da minha mente.

O médico inclinou-se um pouco e, pela primeira vez, vi algo diferente em seu rosto: um traço de gentileza.

— Amélia… você entende o diagnóstico?

Eu quis rir. Não um riso normal, mas aquele riso nervoso, quase histérico, que surge quando a mente tenta evitar o colapso. Também quis gritar, quebrar a mesa, derrubar os livros, dizer que aquilo era um engano, que eu só tinha desmaiado. Mas nada disso aconteceu.

Minha voz saiu frágil, quase infantil.

— Não… isso… isso não pode estar acontecendo comigo, doutor.

Ele respirou fundo, como quem já viveu aquela cena muitas vezes.

— Eu sei que é difícil. Sei que está assustada. Mas a medicina avançou muito e temos recursos eficazes. Precisamos apenas começar o quanto antes, para que as chances de cura sejam reais.

Lá estava a palavra outra vez.

Chance.

Como se sobreviver fosse um cálculo emocional baseado em sorte, não em justiça.

Continuei ouvindo, mas não absorvia nada. Ele falava sobre custos, especialistas, datas, encaminhamentos, assinaturas. Depois abriu novamente a pasta e me entregou alguns papéis, explicando o que eu deveria fazer primeiro.

Eu encarava aqueles documentos sem conseguir imaginar qual seria meu próximo passo, até que ele disse:

— Vi que está sem plano de saúde. O tratamento será caro. Talvez seja importante pedir ajuda a um amigo ou parente. Você vai precisar de apoio, não poderá passar por isso sozinha.

Sozinha.

Foi a única palavra que realmente compreendi.

Porque não havia ninguém. Meus pais morreram quando eu era muito jovem. Não tive irmãos. Não tinha amigos próximos, nem um namorado para segurar minha mão e mentir dizendo que tudo ficaria bem.

Só eu e esse maldito tumor. Eu e as contas atrasadas, o aluguel caro, o salário insuficiente e um corpo que agora era um campo minado, pronto para explodir.

— Vou providenciar tudo, doutor — foi a única coisa que consegui dizer antes de sair do consultório.

Do lado de fora, a brisa fria tocou meu rosto e, por um instante, pensei que tudo pudesse ter sido apenas um pesadelo. Caminhei pelas ruas sem pressa, entrei no metrô e só percebi que havia pegado a linha errada quando as portas se fecharam e eu seguia para o lado oposto da cidade.

Observava tudo pela janela enquanto a vida seguia normalmente. Pessoas riam, conversavam, existiam. Eu me sentia apenas um borrão atravessando aquele cenário, como um fantasma.

Quando finalmente cheguei ao meu prédio, num bairro modesto de Nova York, senti as pernas vacilarem. Ainda assim, subi as escadas, abri a porta do apartamento e a fechei atrás de mim.

Caminhei até a mesa da sala, larguei os papéis e fui até a cozinha. Abri a torneira, enchi um copo d’água e bebi sem sede, como se precisasse obrigar meu cérebro a pensar em qualquer coisa que não fosse o diagnóstico.

Foi no silêncio que a ficha caiu.

O copo escorregou das minhas mãos e se espatifou no chão. O som do vidro quebrando foi brutal, real demais, e meu corpo cedeu junto. Sentei entre os estilhaços, puxei as pernas contra o peito e, finalmente, me permiti chorar.

— Não… não… por favor, não…

As palavras saíam como uma oração desesperada.

Chorei até não restar lágrimas, até o corpo doer, até o chão parecer o único lugar possível.

Quando o silêncio voltou e minha respiração começou a desacelerar, uma frase surgiu na minha mente, firme como uma chama acesa.

Eu quero viver.

Não sabia como, nem por quanto tempo, mas queria. Queria estudar, ter uma profissão, me apaixonar, construir uma família. Eu queria existir.

Os papeis mostravam um preço além do que eu já tinha visto. Eu não podia pagar. 

As paredes pareciam se fechar em torno de mim. Corri para a rua, mas estava fugindo de mim e não da minha casa. Parei no primeiro bar e fiz algo que nunca tinha feito. 

— Me dê uma garrafa da sua bebida mais forte — Falei ao atendente sem o encarar. 

Eu já estava na quinta dose, no limiar da consciência que se apagava aos poucos enquanto a palavra tumor ainda girava. Foi quando deitei a cabeça sobre o balcão de madeira e vi um homem se sentar ao meu lado. 

Não qualquer homem. Ele era alguém quebrado, os olhos faiscavam raiva, mas o que me chamou a atenção foi o pedido. 

— Me dê uma garrafa da sua bebida mais forte. 

Dei risada, gargalhei. 

— Você também está sem plano de saúde? 

Os olhos me fitaram com desprezo, mas então escorregaram para as minhas pernas. 

O álcool é realmente coragem líquida, porque cruzei as pernas e o encarei fingindo confiança. E então a resposta. 

— Preciso de uma babá — A resposta surgiu com os lábios dele já colados ao vidro da dose que ele virou. 

— Pois achou! 

Aquela frase foi a última que me lembro antes de acordar ao lado daquele homem no motel do bairro.

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