vou te proteger de tudo pequena

Alexia Clark

— Então, senhor Biscoito, para pagar o aluguel terá que trabalhar na sorveteria da dona Girafa.

Seguro o urso panda de pelúcia

e faço uma voz grossa e engraçada.

— Ah, não! E agora? Ela me odeia porque roubei o coração dela. E os sorvetes.

Isa ri e coloca o leão de pelúcia na cama.

— Enjoei da brincadeira, Alex. Vamos brincar de pega-pega?

Sorrio e beijo suas bochechas.

A minha filha tem a mesma idade que ela!

Eu já amo essa menina.

— Claro, princesinha, vamos.

Digo, me levantando. Saímos do quarto super rosa dela. Parece o quarto da Barbie! Isa obviamente é apaixonada pela cor rosa.

— Isa, não corre.

Digo.

Ela termina de descer as escadas.

Vou atrás dela.

Isa esbarra em um móvel e o vaso que estava em cima dele cai no chão e se parte em vários pedaços.

— Foi sem querer...

Nesse momento, Ivete surge na sala com inúmeras sacolas.

— Eu não acredito que você destruiu o vaso que ganhei da minha bisavó, sua...

Diz, apontando o dedo para Isadora, que fica paralisada de medo.

Que estranho... O que essa mulher já fez para a minha princesinha para ela ficar tão assustada desse jeito?

Me coloco na frente da menina.

— Sua o quê? Ela é só uma criança, dona Ivete.

Ivete me olha como se eu não fosse digna de existir.

— Qual é o seu nome mesmo, coisinha?

A encaro sem medo.

— Alexia Clark.

— Alexia, eu sou praticamente a mãe dessa menina. Tenho todo o direito do mundo de educá-la.

— Educar não é gritar e machucar, senhora Ivete.

— Estudou pedagogia? Psicologia infantil?

Nego com a cabeça.

— O que fez da vida antes de ser babá?

— Trabalhei como garçonete e faxineira.

A infeliz solta uma gargalhada escandalosa.

— Isso é uma piada muito boa! Uma garçonete comum me ensinando como educar uma criança. Alexia, você é uma mulher pobre e burra. Logo logo meu marido irá te colocar para fora dessa casa.

— Você é muito má, bruxa.

Diz Isa, dando língua para a madrasta.

— Já falei para não me chamar assim, Isadora. Me respeite... Quer saber? Cansei. Vou para o shopping gastar o cartão sem limites do meu marido.

Fala e sai rebolando como se estivesse em uma passarela.

— Mamãe, ainda bem que você chegou. Agora o papai vai expulsar essa mulher má daqui.

Me abaixo para ficar na altura dela.

— Princesinha, Ivete fez algo para você?

Ela fica calada.

— Ela finge que gosta de mim só quando meu pai tá perto. Tenho medo dela. Por favor, mamãe, não me deixe.

Seguro o seu rostinho e beijo a ponta do seu nariz.

Isadora poderia ser minha filha...

— Isa, eu sou a sua babá e não sua mãe, mas prometo que vou te proteger de tudo, pequena.

A envolvo em meus braços e faço carinho em seu rosto.

Começo a cantar uma música infantil engraçada

e ela sorri.

Junto nossos narizes em um beijo esquimó.

— Eu te amo, mamãe.

Sinto o meu coração quentinho

e lágrimas rolam pelo meu rosto.

É tão bom ser chamada de mamãe.

Daniel Thompson

Entro na mansão e congelo no lugar ao ver uma cena fofa da minha filha com a nova babá.

Isadora chamou Alexia de mamãe.

Elas realmente parecem mãe e filha.

Será que...

Pare de pensar besteira, Daniel. A mãe de Isa morreu no parto.

Bom, pelo menos foi isso que meu avô me disse.

— Senhor Thompson, colo vai.

Fala, colocando minha filha no chão.

Ela é tão linda.

— Estou bem. E você, meu raio de sol?

Isa corre para meus braços.

— Estou bem, papai. Eu quebrei um vaso e a Ivete brigou comigo.

— Não se preocupe com isso. Tá ansiosa para voltar a estudar?

As férias escolares chegam ao fim amanhã.

— Sim! Papai, a Alexia pode ir na festa que vai ter na escola semana que vem?

Todo ano acontece uma festa na escola no início do ano.

— Claro, querida.

— Espera, eu nem tenho roupa para ir... E vou me sentir deslocada.

Coloco minha filha no chão,

me aproximo dela e toco seu queixo.

— Você fica bonita de qualquer forma, senhorita Alexia.

Digo, soltando o cabelo dela que estava preso em um coque.

— Mas fica ainda mais com o cabelo solto.

Ela sorri sem graça.

— Eu vou tomar um banho. Quando eu terminar, vou ficar com a Isa. Pode fazer o que quiser, sair com o namorado...

Por que diabos eu estou querendo saber se ela tem namorado?

— Eu não tenho namorado, senhor Thompson.

— Me chame apenas de Daniel.

— Vou dar uma volta pelo condomínio, senhor... Digo, Daniel.

Sorrio e subo as escadas.

Alexia

Após Daniel sair do banho, ele e Isadora ficam brincando de casinha e boneca.

Olho a cena toda boba.

Nunca iria imaginar que o príncipe da arquitetura iria brincar de boneca com a filha.

Me afasto e vou para o meu quarto, tomo um banho e lembro do toque de Daniel. Só sorrio.

Aí, meu Deus, não posso ficar fantasiando com meu chefe. Ele é casado.

Ao terminar, me enxugo com a toalha e visto um vestido vermelho floral e calço minhas sapatilhas velhas.

Quando vou prender meu cabelo, lembro do que ele falou.

— Mas fica ainda mais de cabelo solto. Muito bonita.

Fecho os olhos e imagino ele falar isso no meu ouvido.

— Para com isso, Alexia. Ele é seu chefe.

Digo e faço um penteado delicado que deixa meu cabelo meio solto e meio amarrado.

Passo um gloss para deixar minha boca com vida e, por fim, aplico o resto de perfume que ainda tenho.

Saio do quarto e sigo para fora.

Os moradores do condomínio me olham como se eu fosse um alienígena.

Entro em uma confeitaria e me sento em uma mesa.

E nenhum desgraçado vem me atender.

Ainda tenho alguns trocados no banco. Acho que dá.

— Esse lugar não é pra você.

Ivete surge não sei de onde e derrama água em mim.

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