Capítulo 3
Patrícia arregalou os olhos.

Com dificuldade, tentou erguer o corpo e agarrou a roupa de Ricardo com os dedos gelados.

— Letícia só queria me defender. Por favor, poupe a vida dela...

Ricardo baixou os olhos.

Patrícia estava pálida, com sangue no canto da boca e fios de cabelo grudados na testa pelo suor frio.

Parecia abatida e vulnerável.

Ela nunca tinha pedido nada a ele.

Nem mesmo quando recebeu um golpe de espada em seu lugar e quase morreu.

Ao acordar, dissera apenas, com tranquilidade:

—Que bom que você está bem.

Era a primeira vez que Patrícia olhava para ele daquela maneira, com uma súplica nos olhos.

Ricardo sentiu a determinação enfraquecer.

Franziu a testa e estava prestes a poupar Letícia quando Helena agarrou sua manga.

— Se deixar Letícia sair impune hoje, quem vai me respeitar depois? Até uma criada pode fazer uma acusação dessas contra mim! É melhor eu morrer!

Helena se lançou na direção de uma coluna, mas Ricardo puxou ela de volta para seus braços.

— Pare com isso!

Enquanto Helena chorava desesperadamente contra seu peito, Ricardo olhou para Patrícia, quase sem forças no chão.

Fechou os olhos por um instante e, por fim, endureceu o coração.

— Levem Letícia para ser executada.

A ordem foi firme, sem admitir contestação.

Uma pontada atravessou o peito de Patrícia.

— Não... por favor...

Ela tentou se arrastar até Letícia, mas Ricardo segurou Patrícia com força.

Ele advertiu, irritado:

— É só uma criada! Depois eu arranjo outra melhor para você!

— Eu não quero outra! Quero Letícia... Por favor, não faça isso! Eu imploro!

Ajoelhada no chão, Patrícia suplicou repetidas vezes.

Ricardo permaneceu inflexível, decidido a proteger Helena.

Então, um grito terrível veio do pátio.

Patrícia estremeceu e sentiu gosto de sangue na garganta.

A raiva e a dor insuportável consumiram suas últimas forças.

Ela vomitou sangue e desmaiou.

Quando acordou, estava em sua cama no Palácio Lua Prateada.

Francisco aguardava ao lado.

Ao perceber que ela tinha despertado, soltou o ar, aliviado.

— Finalmente a senhora acordou.

Patrícia não respondeu.

Ele continuou, cauteloso:

— Sua Majestade mandou trazer o remédio e transmitir um recado. Ele espera que a senhora não cause mais problemas e, principalmente, que não tente machucar a imperatriz Helena. Por enquanto, deve ficar aqui para se recuperar. Letícia já foi enterrada. Sua Majestade enviou dinheiro à família dela como compensação e logo vai providenciar outra criada para você.

Um frio percorreu o corpo de Patrícia.

Ela continuou deitada, com o olhar vazio preso aos bordados acima da cama, sem dizer uma palavra.

Francisco esperou um pouco.

Como não houve reação, deixou o copo com o remédio líquido na mesa de cabeceira e saiu.

O quarto voltou ao silêncio.

Patrícia fechou os olhos, e as lágrimas escorreram pelos cantos do rosto.

Nos dias seguintes, viveu como uma boneca sem vida.

Tomava os remédios, deixava que trocassem os curativos, comia e dormia nos horários certos.

Sob os cuidados do médico, os ferimentos nas costas começaram a formar cascas.

A morte de Letícia, porém, continuava pesando em seu peito.

Patrícia se recuperava em silêncio, esperando o dia em que a pílula faria efeito.

Até que Francisco apareceu de repente.

— Sua Majestade quer que você vá ao Palácio Imperial Vitória.

Patrícia se levantou e foi com ele.

No caminho, Francisco contou em voz baixa o que tinha acontecido nos últimos dias:

— Alguém levou a história para fora do palácio. Estão dizendo que a a imperatriz Helena abusa do poder, manda matar pessoas comuns por qualquer motivo e não merece ser imperatriz. Alguns ministros exigiram que Sua Majestade responsabilizasse ela e tirasse seu título de imperatriz. Ao saber disso, ela se desesperou e tentou se enforcar. O médico passou a noite inteira tentando salvar sua vida.

Ele prosseguiu:

— Sua Majestade ficou furioso. Mandou reunir todos no Palácio Imperial Vitória. Disse que vai descobrir quem espalhou a história e executar essa pessoa.

Patrícia ouviu tudo sem sentir nada.

Quando chegaram, encontraram o salão lotado de criados e funcionários, todos de cabeça baixa, sem ousar fazer barulho.

Ricardo estava sentado, com Helena aconchegada em seus braços. O rosto dela estava coberto de lágrimas.

— Ricardo, eu não fiz nada... Nada daquilo foi culpa minha...

Ele respondeu suavemente:

— Eu sei. Vou esclarecer tudo e provar sua inocência.

Ricardo ergueu os olhos e viu Patrícia entrar.

Quando os olhares dos dois se cruzaram, ele interrompeu por um instante o gesto de enxugar as lágrimas de Helena.

Patrícia baixou os olhos, cumprimentou Ricardo e se colocou de lado.

Sabia o que ele estava pensando.

Durante os anos em que foram casados, ela tinha sofrido incontáveis ferimentos.

Envenenamentos, golpes de lâminas, quedas na água... Sempre doía muito, mas raramente chorava diante dele.

Ricardo tinha dito que não gostava de mulheres chorosas.

Lágrimas não o comoviam.

Só enxugaria as lágrimas da mulher que amasse.

Por isso, por mais que doesse, Patrícia suportava tudo calada, escondendo a dor e a fragilidade.

Até o dia em que um assassino tentou atingir Ricardo e ela recebeu o golpe em seu lugar.

O ferimento era gravíssimo.

Quando retiraram a lâmina, a dor fez sua visão escurecer, e o suor frio encharcou suas roupas.

Patrícia não conseguiu se conter. As lágrimas escorreram em silêncio.

Ricardo permaneceu ao lado da cama por três dias e três noites.

Ao ver Patrícia chorar, não a repreendeu. Estendeu a mão e enxugou suas lágrimas com a ponta dos dedos.

Ele perguntou, com a voz baixa e rouca:

— Dói tanto assim?

Patrícia ficou surpresa.

Ricardo também pareceu surpreso, talvez por lembrar do que tinha dito.

Mesmo assim, não afastou a mão.

Enxugou o rosto dela outra vez, num gesto desajeitado, mas com uma ternura que Patrícia nunca tinha sentido antes.

Depois daquele dia, algo pareceu mudar entre os dois.

Ricardo começou a tratar Patrícia melhor.

Lembrava dos doces de que ela gostava e fazia visitas quando ela adoecia.

Aquela mudança de atitude deixou Patrícia em alerta na mesma hora.

Ela queria explicar que não tinha levado aquela facada por amor.

Se Ricardo morresse, ela nunca conseguiria recuperar a liberdade e voltar para Lago Sereno, onde Arthur estava.

Por sorte, depois que Ricardo se tornou imperador, Helena foi procurar ele aos prantos.

E ele decidiu se casar com Helena.

Tudo voltou a ser como antes, como se a gentileza dos últimos tempos tivesse sido apenas uma impressão.

Patrícia permaneceu entre as outras pessoas, esperando em silêncio.

Quando amanheceu, alguém entregou as provas a Ricardo.

— Majestade, descobrimos. A pessoa que espalhou a história... foi a Sra. Patrícia.

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