4 - Isabella

Desci as escadas com um vestido tubinho marrom que ia até o joelho, o que ele tanto gostava e um salto baixo da mesma cor. Carlos (ou meu pai) já estava na garagem, com o motor ligado, esperando. 

Entrei sem dizer nada e o carro saiu da entrada de casa fazendo o barulhinho no cascalho.  Eu amava esse barulho, já que significava duas coisas: ou eu estava saindo de casa, ou teria um dia tranquilo em casa.

Tentei não pensar muito no celular dentro da minha bolsa. No perfil. Nas DMs. No leilão que continuava crescendo. Pensar demais deixa as pessoas ansiosas. E ansiedade leva a erros. E eu não podia cometer erros.

O carro parou no sinal vermelho. E meu companheiro de viagem resolveu lembrar da minha presença e guardou o telefone no bolso interno do paletó. A mão dele agarrou meu braço com força, os dedos apertando acima do cotovelo. Meu corpo ficou imóvel. Não por medo. Por instinto.

— Antes de entrarmos na empresa — disse ele, voz baixa e cortante — vamos relembrar as regras. Todas elas.

Assenti, olhos baixos. O gesto correto. O suficiente para satisfazer o pequeno teatro de autoridade que ele gostava de encenar.

— Não fale com ninguém além do segurança que vai te acompanhar e de mim. Ninguém. Se alguém tentar conversar, você ignora. Entendeu?

— Sim, senhor.

— Faça os trabalhos que eu repassar. Sem reclamar, sem perguntar por quê. Entregue no prazo. Se errar, corrija na hora. Sem desculpas.

— Sim, senhor.

— Não coma nada que os outros te derem. Só o que eu autorizar. Entendeu?

— Sim, senhor.

— Se precisar sair da sala para ir ao banheiro, água, qualquer coisa, avise. O segurança te acompanha. Você não anda sozinha pelos corredores.

— Sim, senhor.

— Nunca me chame de pai ou Carlos. Sempre senhor Fernandes. Se esquecer, vai se arrepender.

— Sim, senhor Fernandes.

Ele apertou mais forte meu braço. A dor subiu até o ombro. Não reagi. Ele me queria como uma boneca, teria sua boneca. Dor também era útil, às vezes. Ajudava a lembrar exatamente com quem eu estava lidando.

— Se quebrar qualquer uma dessas regras, você sabe o que acontece. Sua mãe também quebrava regras. Sabe o que aconteceu com ela.

A lembrança do sonho apareceu na minha mente por um segundo. Apesar de não reconhecer ela como a minha mãe. Ela era a sua boneca perfeita e a usava para me ameaçar por sumir com ela quando era criança. 

Eu não respondi. Ele soltou meu braço. O sinal abriu e o carro voltou a acelerar como se nada ali tivesse acontecido. 

Quando chegamos à Fer Cosmetics olhei para o prédio de vidro espelhado, a empresa ainda estava crescendo, tínhamos só alguns andares. Mas Carlos se comportava como se comandasse um império. 

“E nada daquilo seria meu. Seria daquele que se casasse comigo.” Como ele sempre ficava satisfeito em reforçar. 

O segurança da portaria abriu passagem assim que o viu. Alto, uniforme preto, rosto neutro. Carlos apontou para mim como quem entrega um objeto. Subimos de elevador e fomos para uma sala de reuniões ampla, mesa de mogno no centro, paredes de vidro fumê. Ele indicou uma cadeira lateral.

Ele jamais me levaria até a sua sala, não era digna, era mulher. 

— Aqui. O laptop está pronto. Trabalhos na pasta “Isabella”. Faça. Sem distração.

Sentei sem falar nada. Bonecas não falam. 

Abri o laptop. Estava cheio de planilhas, relatórios de vendas e propostas de novas coleções.

“Seria eu quem faria o trabalho dele hoje.” 

Pensei enquanto fechava os olhos para revirar sem que ele visse. Carlos sentou na cabeceira da mesa e entrou em outra ligação. 

Comecei a trabalhar um tanto distraída. De vez em quando, meus olhos iam para a bolsa no chão. O celular estava lá dentro no silencioso. Mas eu sabia que continuava recebendo mensagens. Sabia que o leilão estava se movendo mesmo enquanto eu estava sentada ali, aparentemente obediente.

Carlos acreditava que controlava tudo. Eu tinha que dar esse gostinho a ele. Depois de algum tempo um tanto impaciente, levantei.

— Preciso ir ao banheiro, senhor Fernandes.

Ele não olhou para mim.

— Vai. Mas que o segurança acompanhe.

O homem me seguiu pelo corredor. A bolsa no meu ombro parecia pesar mais do que devia. O banheiro feminino estava vazio, e agradeci por isso. 

Assim que peguei o celular a tela acendeu com uma explosão de notificações. 

112 novas mensagens. 

O homem que tinha oferecido 20 milhões tinha aumentado a oferta.

“22 milhões agora e você cancela esse leilão.”

Vinte e dois milhões. Respirei devagar um pouco engasgada. A minha mão tremia. Era desproporcional. Muito mais do que pensava. 

“Mantenha a calma. O leilão mal começou. Mas acho que posso aliviar um pouco para você hoje.”

Coloquei o RG sobre a pia e tirei uma foto. Minha mão cobria parte dele, deixando partes de informações incompletas. O insuficiente para provar que era real. 

Tirei uma segunda foto no espelho do banheiro. Nada provocativo, apenas com o rosto escondido atrás do celular. Guardei o celular na bolsa e fingi estar lavando as mãos. Quando saí, o segurança ainda estava esperando. 

Assim que me sentei, Carlos falou sem levantar os olhos:

— Demorou demais. Se fizer de novo, vai ficar sem almoço.

Baixei a cabeça e voltei ao laptop. Por um momento, me permiti pensar que eu gostaria de ter um trabalho. Criar os cosméticos deveria ser divertido. Mas logo em seguida descartei o pensamento.

Não era o tipo de futuro que eu estava planejando. Seria a esposa troféu de quem me comprasse. Carlos saiu da sala em algum momento sem avisar. Esperei um pouco. E quando me dei conta de que ele não voltaria pedi um delivery.

Ousei um pouco mais e pedi comida japonesa. Eu queria comer um desses havia semanas. A vantagem é que seria uma comida rápida.

Fui ao banheiro sempre com aquela sombra atrás. Aproveitei para mandar uma foto bônus para o maior licitante e lavar a boca. Quando voltei, Carlos estava em pé de frente para o computador vendo o que havia feito. 

— Bom trabalho até agora, querida. Mas lembre: sua mãe também era organizada. 

Olhei para a tela do laptop para evitar expressar qualquer coisa. Era sempre um tom de ameaça. Algumas pessoas merecem ódio. E ele era uma delas.

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