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5 - Tudo Está Nas Suas Mãos

— Então por que fez isso comigo? — perguntou, a voz rachada. — Por que se casou comigo usando o nome dele? Por que me enganou desse jeito? Eu tinha o direito de saber quem você era!

Leonardo passou a mão pelos cabelos escuros, como se quisesse arrancar a própria pele.

— Eu… — foi tudo que conseguiu dizer.

Suzana, impassível, continuou por ele:

— Porque era a única forma de garantir que Vinícius não o destruísse por completo.

E você, Clara… — ela inclinou levemente a cabeça — …se tornou parte dessa proteção.

Clara arregalou os olhos.

— Eu? O que eu tenho a ver com essa guerra?

Suzana respondeu sem hesitar:

— Tudo.

O silêncio caiu sobre o escritório como uma pedra lançada dentro de um poço profundo.

Clara sentiu o chão recuar milímetros sob seus pés.

— Não… não… vocês estão escondendo alguma coisa — ela balbuciou, a respiração curta. — Isso não está certo. Nada disso está certo.

Suzana deu mais um passo em direção a ela.

— Clara.

Leonardo precisava de um casamento para reivindicar parte da herança que Vinícius tentou tomar à força.

E você… você era a única pessoa em quem ele confiava o suficiente para isso não virar um escândalo.

Clara sentiu o estômago revirar violentamente.

— Ele confiava…? — repetiu, incrédula. — Eu não conhecia vocês! Eu nem sabia da existência dessa família!

Suzana não piscou.

— Nem por isso deixou de ser útil.

Clara levou a mão à boca, sufocada.

Leonardo deu um passo à frente, a voz falhando:

— Clara, eu nunca quis te usar. Nunca. Eu… — ele respirou fundo, tentando se recompor — …eu queria te contar tudo antes. Eu devia ter contado. Mas aconteceu tudo tão rápido… o acidente, a chance de você descobrir… e agora, com Vinícius voltando…

Clara empalideceu.

— Voltando… — repetiu num fio de voz. — Então ele… ele está vivo.

Dessa vez, Suzana hesitou.

Um segundo.

Somente um.

Mas Clara percebeu.

— Está — Suzana confirmou afinal. — E isso complica tudo, porque só te chamamos aqui e apresentamos à família porque pensávamos que Vinícius tinha morrido. Ele estava desaparecido há dois dias. Não sei como é possível que ele ainda esteja vivo.

Clara levou a mão ao peito, ofegante.

— O que vocês querem que eu faça agora? — perguntou, a voz falhando. — Ele vai voltar! Ele vai olhar pra mim e… e vai perceber que não me conhece! Como vocês esperam que eu encare isso?

Suzana não se abalou.

— Clara… — disse com calma calculada — primeiro você precisa respirar.

Ninguém está pedindo para você fazer nada agora.

— Não? — Clara arfou. — Então por que estou aqui? O que vocês querem de mim?

Suzana trocou um olhar rápido com Leonardo antes de continuar:

— Recebemos informações do hospital onde Vinícius está internado. Ele bateu a cabeça com força durante a queda. Os médicos disseram que ele… — fez uma pausa leve, estudada — …não voltou totalmente coerente.

Clara arregalou os olhos.

— O que isso significa?

Suzana respirou fundo, como quem escolhe palavras com extremo cuidado.

— Significa que Vinícius pode não se lembrar de tudo imediatamente.

Ainda está confuso. Desorientado.

Clara sentiu o estômago afundar.

— Vocês… estão dizendo que ele perdeu a memória?

Suzana ergueu as mãos, como se minimizasse:

— Não exatamente, você ouviu o que Henrique falou, que ele bateu a cabeça e teve um pequeno traumatismo. Essas situações de trauma podem provocar lapsos, esquecimentos e confusão.

Ele pode não reconhecer pessoas. Pode demorar a… se situar.

Clara sentiu um frio subir pelas costas.

— E o que isso tem a ver comigo? — perguntou, embora já temesse a resposta.

Suzana segurou o olhar dela, firme, incisiva.

— Significa que, quando ele voltar, não vai estranhar que você esteja por perto.

E tampouco vai lembrar imediatamente que jamais se casou com você.

E isso nos dá um tempo para resolvermos a situação.

Clara ficou imóvel.

A frase caiu sobre ela como gelo quebrando.

Leonardo fechou os olhos, visivelmente destruído.

Suzana, por outro lado, parecia satisfeita com a lógica de sua própria construção.

— Clara, essa confusão na memória dele… — ela continuou, suave como veneno — …pode ser a nossa vantagem.

Quando Vinícius chegar, você apenas precisa manter a calma. Ele estará fragilizado, confuso. Não vai questionar de imediato.

E ele vai querer saber como tudo aconteceu. Você pode contar exatamente como as coisas ocorreram entre você e Leonardo. É verdadeiro, é poderoso… ninguém vai desconfiar. Nem mesmo Vinícius.

Clara recuou dois passos, horrorizada.

— Vocês querem que eu minta para um homem machucado?

Que eu me aproveite disso?

Isso é… isso é monstruoso!

Suzana ergueu um sorriso frio.

— Não estamos pedindo nada.

Estamos dizendo que é a única forma de manter você… e todos nós… em segurança.

Incluindo sua família. Ele é perigoso e vingativo. Tudo está nas suas mãos.

Clara levou a mão à boca, tremendo.

Ela deu vários passos para trás, como se sua única âncora tivesse se partido.

— Não… não posso ouvir mais isso… eu preciso sair daqui — murmurou. — Preciso pensar… respirar…

Leonardo tentou alcançá-la.

— Clara, espera. Por favor. Me deixa—

— NÃO! — ela recuou violentamente. — Não chega perto de mim!

Leonardo parou, como se tivesse levado um golpe.

Clara abriu a porta, a mão tremendo de puro pânico.

Antes que saísse, Suzana acrescentou, com uma calma que gelava até o osso:

— Pense o quanto precisar, Clara.

Mas lembre-se: quando Vinícius voltar… ele vai querer entender tudo isso e você precisa está pronta.

Clara saiu do escritório como quem foge de um precipício que se abriu sob seus pés.

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