Não acredita em mim.
Dois anos se passaram.
Eu já tinha nove anos.
E, durante aqueles dois anos, aprendi uma lição muito dolorosa:
Existiam coisas que só eu enxergava.
Ou pelo menos era o que parecia.
Porque ninguém parecia perceber a verdadeira Paola.
Nem os empregados.
Nem os convidados.
Nem meu pai.
Principalmente meu pai.
Para ele, Paola continuava sendo a mulher perfeita.
A esposa dedicada.
A madrasta amorosa.
A companheira que havia devolvido a felicidade à sua vida.
E eu odiava admitir isso, mas às vezes começava a pensar que talvez o problema fosse eu.
Talvez eu estivesse imaginando coisas.
Talvez eu fosse sensível demais.
Talvez...
Mas então aconteciam momentos que me lembravam que eu não estava louca.
Como naquela tarde.
Era um domingo.
Meu pai havia saído logo depois do almoço para resolver assuntos de trabalho.
Mais uma vez.
Eu estava fazendo minha lição de casa quando percebi que tinha esquecido um livro na biblioteca.
Desci as escadas correndo.
A mansão parecia silenciosa.
Até demais.
Passei pelo corredor principal.
E ouvi vozes.
Uma voz masculina.
E uma feminina.
Franzi a testa.
Meu pai não estava em casa.
Então quem era?
Curiosa, me aproximei.
As vozes vinham de uma sala que raramente era usada.
A porta estava apenas entreaberta.
Olhei pela fresta.
E vi Ricardo.
Ao lado dele estava Paola.
Os dois estavam muito próximos.
Próximos demais.
Na época eu ainda era criança.
Não entendia muito sobre relacionamentos.
Mas entendia que aquilo era estranho.
Muito estranho.
— Bernardo não desconfia de nada — disse Ricardo.
— Claro que não — respondeu Paola.
— Ele confia cegamente em você.
Paola sorriu.
— E continuará confiando.
Ricardo segurou a cintura dela.
Meu coração acelerou.
Aquilo não parecia certo.
Definitivamente não parecia.
Então meu pé bateu contra um vaso.
O barulho ecoou pelo corredor.
Os dois se afastaram imediatamente.
— Quem está aí? — gritou Paola.
Assustada, saí correndo.
Subi as escadas.
Atravessei o corredor.
E me tranquei no quarto.
Meu coração parecia querer sair pela boca.
Naquela noite, meu pai voltou para casa.
Eu estava esperando por ele.
Sentada no sofá.
Ansiosa.
Nervosa.
Confusa.
Quando ele entrou, corri até seus braços.
— Papai!
— Princesa!
Ele me abraçou.
— Como foi seu dia?
Olhei para Paola.
Ela estava parada atrás dele.
Me observando.
Seu olhar era frio.
Ameaçador.
Mas meu pai não percebia.
Nunca percebia.
— Papai...
— Sim?
— Eu preciso conversar com você.
— Agora?
— Sozinho.
Ele pareceu surpreso.
— Claro.
Paola sorriu.
— Vou deixar vocês à vontade.
Ela se afastou.
Mas antes de sair, lançou um olhar para mim.
Um olhar que fez meu estômago revirar.
Meu pai sentou ao meu lado.
— O que aconteceu?
Respirei fundo.
— Eu vi uma coisa estranha hoje.
— Estranha como?
— Eu vi a Paola com o Ricardo.
— E?
— Eles estavam escondidos.
Meu pai permaneceu em silêncio.
— Eles estavam muito perto um do outro.
O sorriso dele desapareceu.
Mas não por raiva.
Por preocupação.
— Laura...
— Estou falando sério.
— Ricardo é amigo da família.
— Eu sei.
— E Paola também.
— Mas...
— Filha.
Sua voz ficou mais firme.
— O que exatamente você viu?
Eu tentei explicar.
Mas, quanto mais falava, mais absurda minha história parecia.
Porque eu não tinha provas.
Não tinha nada.
Apenas uma sensação.
Uma desconfiança.
Meu pai suspirou.
— Você está confundindo as coisas.
Meu coração afundou.
— Não estou.
— Está sim.
— Papai...
— Chega.
Foi a primeira vez que ele me interrompeu daquele jeito.
— Paola ama você.
— Não ama.
— Ama sim.
— Ela é diferente quando você não está.
Ele fechou os olhos por um instante.
Como alguém cansado.
— Nós já tivemos essa conversa antes.
As lágrimas começaram a surgir.
— Porque você nunca me escuta.
— Laura...
— Você nunca acredita em mim.
Ele me abraçou.
Mas, naquele momento, o abraço não ajudou.
— Eu amo você.
— Então acredita em mim.
Meu pai ficou em silêncio.
E aquele silêncio respondeu tudo.
Mais tarde, já no meu quarto, ouvi alguém bater na porta.
Sabia quem era antes mesmo de abrir.
Paola.
Ela entrou lentamente.
Fechando a porta atrás de si.
Seu sorriso havia desaparecido.
— Então você tentou me acusar novamente.
Baixei os olhos.
— Eu só contei o que vi.
— O que você acha que viu.
— Vocês estavam escondidos.
Ela cruzou os braços.
— Seu pai acredita em mim.
As palavras atingiram exatamente onde ela queria.
Porque eram verdade.
— Você não deveria mentir.
Paola deu uma risada.
Uma risada sem humor.
— Mentir?
Ela caminhou até mim.
— Você não tem ideia do que é uma mentira.
Meu coração acelerou.
— Eu não gosto de você.
Ela sorriu.
— Eu sei.
— E você não gosta de mim.
— Isso é diferente.
Ela se inclinou.
Ficando muito próxima.
— Escute com atenção.
Pela primeira vez senti medo de verdade.
— Enquanto Bernardo estiver vivo, você continuará sendo a princesinha dele.
Minha garganta secou.
— Mas nunca tente ficar entre mim e meu marido.
— Ele é meu pai.
— Exatamente.
Ela endireitou o corpo.
— E ele sempre escolherá a mim.
As lágrimas escorreram pelo meu rosto.
Paola observou sem qualquer compaixão.
— Você precisa aprender qual é o seu lugar nesta casa.
Depois disso, saiu.
Como se nada tivesse acontecido.
No dia seguinte, fui para a escola.
E, como sempre, Sofia percebeu imediatamente que algo estava errado.
— O que aconteceu?
Sentamos no pátio.
Longe dos outros alunos.
— Ninguém acredita em mim.
— Seu pai de novo?
Assenti.
— Eu vi uma coisa estranha.
Contei tudo.
Cada detalhe.
Sofia ouviu em silêncio.
Quando terminei, ela parecia pensativa.
— Eu acho que você está certa.
— Sério?
— Sim.
— Então por que ninguém mais vê isso?
Sofia deu de ombros.
— Porque algumas pessoas acreditam tanto em uma mentira que deixam de enxergar a verdade.
Fiquei olhando para ela.
Talvez aquela fosse a resposta.
Talvez meu pai amasse tanto Paola que simplesmente não conseguia enxergar quem ela realmente era.
Mas uma coisa eu sabia.
Eu não estava imaginando.
Eu não estava inventando.
Eu não estava louca.
Paola escondia alguma coisa.
E Ricardo também.
Naquele momento, eu ainda não fazia ideia do tamanho daquele segredo.
Nem que ele acabaria destruindo a minha família.
Nem que, anos depois, custaria a vida do homem que eu mais amava no mundo.
Meu pai.