A porta proibida

Eu tinha sete anos quando comecei a perceber que meu pai guardava segredos.

Na época, eu não sabia exatamente o que era um segredo.

Só sabia que existiam assuntos sobre os quais ninguém podia fazer perguntas.

E que alguns lugares da mansão pareciam proibidos.

Naquela manhã, acordei animada.

Era sábado.

Meu pai estava em casa.

E isso significava que eu poderia passar o dia inteiro atrás dele.

— Laura, pare de correr! — ele disse quando me viu atravessar a sala.

— Não estou correndo!

— Está sim.

— Não estou!

— Está.

Eu gargalhei.

Meu pai me puxou para perto e bagunçou meus cabelos.

— Você é impossível.

— Você me ama mesmo assim.

— Infelizmente.

— Papai!

Ele riu.

Eu adorava quando ele ria.

Porque, quando ele estava em casa, tudo parecia melhor.

Até Paola parecia menos assustadora.

Depois do café da manhã, Bernardo recebeu uma ligação.

Seu semblante mudou imediatamente.

Aquele sorriso desapareceu.

— Preciso resolver uma coisa.

— Agora? — perguntei.

— Agora.

— Mas você prometeu passar o dia comigo.

Ele se abaixou na minha frente.

— E vou.

— Promessa?

— Promessa.

Beijou minha testa.

Depois desapareceu por um dos corredores da mansão.

Observei ele ir embora.

E fiquei emburrada.

Eu odiava quando aqueles assuntos misteriosos roubavam meu pai de mim.

Algumas horas depois, decidi procurá-lo.

A mansão era enorme.

Tão grande que às vezes eu me perdia.

Passei pela biblioteca.

Pela sala de música.

Pelo jardim interno.

Mas não encontrei ninguém.

Até que cheguei a uma parte da casa onde raramente entrava.

O corredor era silencioso.

As portas permaneciam sempre fechadas.

Por algum motivo, os empregados evitavam aquele lugar.

Foi então que percebi algo estranho.

Uma das portas estava entreaberta.

E vozes vinham lá de dentro.

Curiosa, me aproximei.

Apenas um pouquinho.

O suficiente para olhar.

Meu pai estava sentado na cabeceira de uma mesa enorme.

Ao redor dele havia vários homens.

Todos usando ternos escuros.

Alguns tinham expressões sérias.

Outros pareciam nervosos.

Sobre a mesa estavam espalhados papéis, mapas e pastas.

Eu não entendia nada daquilo.

Mas parecia importante.

— A carga chega na sexta-feira — disse um homem.

— Os rivais estão se movimentando — respondeu outro.

— Reforce a segurança.

Meu pai falava com firmeza.

Uma firmeza que eu raramente via.

Era estranho.

Parecia outra pessoa.

— E quanto ao território do sul? — perguntou um dos homens.

— Continua sob nosso controle — respondeu Bernardo.

Controle de quê?

Território de quê?

Eu não entendia nada.

Mas estava fascinada.

Foi então que alguém me viu.

— Chefe...

Todos olharam para a porta.

Inclusive meu pai.

— Laura?

Prendi a respiração.

Ops.

O silêncio tomou conta da sala.

Meu pai se levantou imediatamente.

— O que você está fazendo aqui?

Abri a porta devagar.

— Eu estava procurando você.

Os homens trocaram olhares.

Meu pai suspirou.

— Venha cá.

Entrei.

— Desculpa.

— Quantas vezes eu disse para não vir até esta parte da casa?

— Muitas.

— E por que veio?

— Porque você sumiu.

Alguns homens sorriram.

Meu pai tentou parecer bravo.

Mas não conseguiu.

— Você é uma encrenca.

— Eu sei.

Ele me pegou no colo.

— Vamos sair daqui.

— Mas o que vocês estavam fazendo?

— Trabalhando.

— Trabalhando com o quê?

— Coisas de adulto.

— Que coisas?

— Chatas.

— Pareciam interessantes.

Alguns homens riram.

Meu pai balançou a cabeça.

— Não incentive.

Quando saímos da sala, olhei para trás.

Os homens continuavam observando.

Todos pareciam respeitar muito meu pai.

Talvez até mais do que isso.

Pareciam ter medo dele.

Mas aquilo não fazia sentido.

Meu pai era gentil.

Carinhoso.

Engraçado.

Como alguém poderia ter medo dele?

No final da tarde, estávamos sentados no jardim.

Eu desenhava.

Ele lia alguns documentos.

Até que fiz a pergunta que estava me incomodando.

— Papai?

— Hum?

— O que você faz?

Ele levantou os olhos.

— Como assim?

— Seu trabalho.

— Por que quer saber?

— Porque ninguém explica.

Bernardo fechou a pasta.

— Eu administro negócios.

— Que negócios?

— Muitos.

— Isso não responde.

Ele riu.

— Você ficou esperta.

— Sofia diz que faço perguntas demais.

— Sofia é uma menina inteligente.

— Então responde.

Meu pai pensou por alguns segundos.

— Digamos que muitas pessoas trabalham para mim.

— Quantas?

— Bastantes.

— Cem?

— Mais.

Meus olhos se arregalaram.

— Duzentas?

— Mais.

— Mil?

— Talvez.

Eu fiquei impressionada.

— Então você é tipo um rei?

Bernardo gargalhou.

— Não exatamente.

— Parece.

Ele beijou minha cabeça.

— Um dia você vai entender.

Naquela noite, fui dormir cedo.

Mas havia outra pessoa acordada na mansão.

Paola.

Ela atravessou silenciosamente um corredor.

Olhou para os lados.

E entrou em um escritório vazio.

Poucos segundos depois, outro homem entrou.

Ricardo.

Ele fechou a porta atrás de si.

— Você demorou.

— Bernardo ficou em casa o dia inteiro.

— Isso nunca facilita as coisas.

Paola cruzou os braços.

— Laura entrou na sala de reuniões hoje.

Ricardo arqueou uma sobrancelha.

— E daí?

— E daí que ela não deveria estar lá.

— Ela é uma criança.

— Crianças crescem.

Ricardo caminhou até ela.

— Está nervosa.

— Estou sendo cuidadosa.

— Você sempre foi paranoica.

Paola lançou um olhar irritado.

— Você não entende.

— Entendo mais do que imagina.

Ela respirou fundo.

— Bernardo está ficando descuidado.

— Não.

— Está sim.

— Ele confia em você.

— Exatamente por isso é perigoso.

Ricardo sorriu.

Um sorriso frio.

Calculista.

— Então continue fazendo o que faz melhor.

— E o que é?

— Fingir.

O silêncio pairou entre os dois.

Então Ricardo segurou a mão dela.

— Não se preocupe.

— Como pode ter tanta certeza?

Ele aproximou o rosto do dela.

— Porque Bernardo nunca descobrirá nada.

Paola permaneceu em silêncio.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.

Um sorriso que não tinha nada de bondoso.

Nada de amoroso.

Nada de sincero.

Um sorriso perigoso.

E enquanto eu dormia tranquilamente no meu quarto, sem imaginar os segredos escondidos dentro da minha própria casa, duas pessoas já planejavam um futuro que destruiria a minha família.

Eu apenas ainda não sabia disso.

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