Capítulo 4: O Acordo

Valentina

— É isso? — ele perguntou, sem emoção. — Foi isso que me mandaram?

Eu não respondi.

O silêncio era a única coisa que eu ainda controlava.

Dante Vitale deu um passo à frente. Depois outro. Devagar. Como um predador que não precisa correr porque sabe que a presa não tem para onde ir. O som dos sapatos dele contra o mármore ecoava baixo, calculado, cada passo marcando território.

O olhar percorreu meu rosto, demorou um segundo a mais nos meus olhos, depois desceu pelo meu corpo como se estivesse lendo um relatório silencioso. Não havia pressa. Não havia pressa nenhuma.

— Seu nome.

— Valentina. — respondi, firme, mesmo com a garganta seca. — Valentina Rojas.

Ele inclinou levemente a cabeça, como quem registra uma informação para uso futuro.

— Quantos anos?

— Vinte e dois.

— Virgem? — perguntou, sem rodeios, com um tom que misturava desdém e certeza.

Engoli seco.

Eu sabia por que ele queria saber. Sabia antes mesmo de entrar naquele lugar.

— Sim.

Dante assentiu uma única vez. Um gesto frio. Definitivo.

— Boa.

A palavra me feriu mais do que um insulto.

— Boa pra quê? — disparei, antes que pudesse me impedir.

Ele sorriu. Não foi um sorriso bonito. Foi um sorriso letal.

— Você sabe exatamente pra quê.

— Sei, sim. — rebati, sentindo o veneno escorrer pelas palavras. — Que um pervertido como você gosta de comprar virgens.

O sorriso dele não desapareceu. Apenas mudou de forma.

— Acha que te comprei pela sua pureza? — devolveu, frio.

Pisquei, confusa apesar de mim mesma.

— Não foi por isso?

— Sua pureza não me interessa. — disse ele, sem hesitar. — Mas não posso negar… foi um bônus.

Meu estômago revirou.

— Então por quê?

Os olhos cinzentos me encararam com atenção redobrada, como se aquela fosse a primeira pergunta que realmente valesse a pena responder.

— Eu quero um herdeiro. — afirmou. — E você vai me dar um.

Minha respiração falhou.

— Um… herdeiro? — repeti, sentindo o chão sumir sob meus pés. — Eu não concordei com isso.

— Acredito que você não esteja em posição de decidir, senhorita Rojas.

— Por que precisa sequestrar alguém pra isso? — rebati, cruzando os braços para esconder o tremor. — Já ouviu falar em adoção? Ou inseminação artificial?

Ele deu uma risada baixa. Sem humor.

— Primeiro: eu não sequestrei. Eu paguei. — respondeu, e meu corpo reagiu no mesmo instante, lembrando de Giovanni. — E muito bem pela senhorita.

— Segundo: sabe quem eu sou? Não corro riscos. Não coloco meu nome em clínicas. Quero um herdeiro legítimo. Sangue do meu sangue.

— Eu não aceito. — falei, cada palavra sustentada por pura teimosia. — Eu não vou ter um filho seu.

— Já disse. — Dante deu mais um passo, invadindo meu espaço. — Não está nas suas mãos essa decisão.

Cruzei os braços com mais força. Meu corpo tremia por dentro, mas eu me recusava a abaixar a cabeça.

— E o que me impede de fugir?

Ele chegou perto o bastante para que eu sentisse o perfume caro que usava. Amadeirado. Envolvente. Cruel. Meu corpo reagiu antes da razão, e eu odiei cada segundo disso.

Dante abaixou a cabeça e murmurou, a voz quase um roçar na minha pele:

— Nada impede.

Ele ergueu meu queixo com firmeza.

— Mas você vai descobrir… que ninguém foge de mim. Nem o passado. — seus olhos se cravaram nos meus. — Nem o futuro.

Ele me soltou e se virou para um dos homens.

— Levem-na para o quarto da ala leste.

— Qual deles, senhor?

Dante olhou por cima do ombro. O olhar era puro aço.

— O mais próximo do meu.

Não disse mais nada.

O guarda segurou meu braço e me conduziu em silêncio por corredores longos demais, frios demais. Parou diante de uma porta, abriu com força e me empurrou para dentro.

A porta se fechou atrás de mim com um tranco seco.

O som do trinco ecoou alto. Definitivo.

O quarto era grande. Luxuoso. Gelado. Uma cama de casal enorme. Lençóis brancos impecáveis. Uma bandeja com comida que eu não pedi. Nenhuma janela.

Só uma porta.

E um silêncio que gritava.

Sentei na beira da cama, tentando processar tudo. Minha vida tinha mudado por causa de um bilhete.

“Ela é virgem. É perfeita para o acordo.”

Fechei os olhos.

Eu ia sobreviver. Mesmo que, no final, não restasse nada de mim além de uma cicatriz.

A porta se abriu.

Levantei num reflexo.

Uma mulher entrou com uma caixa nas mãos.

— Sou Teresa. — disse, sem emoção. — Você vai se lavar e vestir isso. O senhor Vitale quer vê-la depois do jantar.

— E se eu não quiser?

Ela não respondeu. Apenas colocou a caixa sobre a poltrona. Antes de sair, murmurou:

— Ele quer um herdeiro. E você foi comprada pra isso. Pelo seu bem… só obedeça.

Quando fiquei sozinha, a humilhação gritou dentro de mim.

Um objeto.

Uma barriga.

Um nada.

Entrei no banho. A água quente caiu sobre meu corpo, mas não limpou nada. Nem a traição. Nem a venda. Nem o nojo de mim mesma por ainda estar respirando.

Vesti o vestido preto. Justo demais. Provocante demais. Escolhido para marcar posse.

No espelho, vi uma mulher que eu mal reconhecia.

Mas ainda havia fogo no olhar.

A porta se abriu sem aviso.

Dante entrou.

Sem paletó. Camisa preta aberta nos primeiros botões. Tatuagens insinuando perigo. Dominante. Inaceitavelmente bonito.

— Bonita. — disse, como um dado. — Mas não comprei você pela beleza.

Não comprei você.

As palavras ecoaram como sentença.

Ele se aproximou. Observou. Estudou.

— Não vai demorar, Valentina. — falou. — Você vai entender seu lugar aqui.

— E qual é esse lugar? — desafiei.

Dante sorriu. Chegou perto demais. Quente demais.

— Em cima da minha cama. Comigo dentro de você. — se afastou antes de concluir. — Só até deixar aí dentro o herdeiro que eu comprei.

E então ele saiu.

Me deixando tremendo.

De raiva.

De medo.

E de algo mais… que eu me recusava a nomear.

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