Mundo de ficçãoIniciar sessãoValentina
O carro seguia pela estrada como um caixão em movimento.
Vidros escuros. Silêncio pesado. O motor ronronando baixo, constante, como um aviso de que nada ali era improvisado. Eu estava no banco de trás, mãos apoiadas no colo, coluna ereta, o olhar perdido no reflexo do vidro que me devolvia uma versão pálida de mim mesma. Uma garota de vinte e dois anos, olhos secos, alma em ruínas. Não chorei. Não porque não doía... doía em cada osso, em cada memória, mas porque havia um tipo de dor que não encontra saída pelos olhos. Ela se acumula no peito, vira pedra, vira lâmina. E eu ainda precisava dela inteira para sobreviver. O homem que dirigia não falou nada desde que saímos. Nem música. Nem rádio. Nada além da estrada escura cortando a noite. Ele era grande, ombros largos, postura rígida. Um profissional. Não um capanga qualquer. Alguém treinado para executar ordens sem curiosidade. — Quanto tempo falta? — perguntei, depois de longos minutos. Ele me olhou pelo retrovisor. Só isso. — Não muito. Monossilábico. Frio. Como tudo naquela noite. Encostei a cabeça no banco, sentindo o couro gelado contra a pele. Minha mente insistia em voltar para Giovanni. Para o sorriso. Para as flores espalhadas no chão como sangue. Eu poderia ter gritado mais? Corrido melhor? Confiado menos? Perguntas inúteis. O que estava feito, estava feito. — Ele… — comecei, e minha própria voz me pareceu estranha, distante. — Ele sabe que eu tentei fugir? O homem demorou um segundo antes de responder. — Ele espera isso. Engoli seco. Ele. Aquela palavra tinha peso. Não precisava de sobrenome. Não precisava de título. Naquele carro, naquele silêncio, “ele” era suficiente para ocupar todo o espaço. — E o que acontece com quem tenta fugir? — perguntei, mantendo o tom firme, mesmo com o coração disparado. O homem respirou fundo. Parecia escolher as palavras. — Depende do humor dele. Aquilo devia me assustar mais do que assustou. Mas a verdade era que, em algum ponto da estrada, algo dentro de mim tinha se desligado. Um fio fino, invisível, que ligava esperança à realidade. Eu já tinha entregue os pontos. Não no sentido de desistir de viver, mas no sentido de aceitar que aquele encontro era inevitável. Que não adiantava implorar, chorar, barganhar. Pessoas como ele não compravam coisas para depois negociar com elas. Cruzei as pernas com cuidado, ajeitei a postura. Se eu ia ser levada como objeto, não seria um objeto quebrado. — Qual é o nome dele? — perguntei, mesmo já sabendo a resposta. O homem hesitou. De novo aquele segundo perigoso. — Dante Vitale. O nome caiu no banco entre nós como uma sentença formal. Dante Vitale. Don da máfia italiana. Temido por políticos. Respeitado por criminosos. Conhecido por matar com as próprias mãos quando necessário. E agora… dono do meu destino. A estrada começou a subir. Curvas fechadas. Muros altos surgindo dos dois lados, como se a própria cidade tivesse sido deixada para trás. Câmeras. Portões. Guardas armados. O carro diminuiu a velocidade. Meu coração acompanhou. Passamos pelo primeiro portão. Depois pelo segundo. O último se abriu em silêncio absoluto, como uma boca que engole sem fazer barulho. A mansão surgiu à frente. Enorme. Escura. Silenciosa demais para ser um lar. Mais parecia uma prisão de luxo, erguida para lembrar a todos que entravam ali que nada escapava. As luzes eram poucas, estratégicas. O mármore refletia tudo inclusive o que eu não queria ver em mim mesma. O carro parou. — Chegamos. — o homem disse. Desci sem ajuda. O ar ali parecia mais denso, como se pesasse nos pulmões. Dois guardas se aproximaram. Nenhum tocou em mim. Não precisavam. O lugar inteiro já me mantinha sob controle. Caminhei entre eles, passos ecoando no chão polido. Cada som parecia carregar um julgamento. Eu sentia olhares, mesmo sem vê-los. Pessoas escondidas nas sombras. Observando. Medindo. Eu estava sendo levada como um objeto. Mas mesmo com medo, levantei o queixo. Se era isso que restava de mim, então pelo menos… eu cairia de pé. Entramos no saguão principal. Foi então que o vi. De costas, no centro do espaço. Alto. Imponente. Os ombros largos cobertos por um paletó negro impecável. A postura de quem não espera é esperado. A luz do lustre refletia no relógio prateado em seu pulso e nos cabelos perfeitamente penteados. Ele não se virou de imediato. Falava com alguém em voz baixa, calma demais para um lugar daqueles. Cada gesto era econômico, preciso. Um homem acostumado a ser obedecido sem precisar levantar o tom. Eu parei a alguns metros de distância. O silêncio se esticou. Então ele se virou. Meu coração congelou. Cabelos escuros. Barba marcada. Um rosto esculpido por linhas firmes e uma expressão que não entregava nada. Os olhos… cinzentos. Frios. Atravessavam tudo o que eu era como se estivessem avaliando matéria-prima. Dante Vitale tinha o tipo de beleza que não devia existir em homens perigosos. Mas ali estava ele. Lindo. E mortal. Ele me analisou de cima a baixo. Não com pressa. Não com desejo explícito. Como quem avalia um investimento. Um ativo recém-adquirido. — É isso? — perguntou, sem emoção. A voz grave, controlada. — Foi isso que me mandaram? A pergunta ecoou no saguão como um golpe seco. E foi ali, sob aquele olhar que não prometia nada além de domínio, que eu entendi: Minha vida, como eu conhecia, tinha acabado. E tudo o que viesse depois… dependeria dele.






