Mundo de ficçãoIniciar sessãoQuerendo sair daquele antro o mais rápido possível, tirei as roupas de trabalho e enfiei uma calça jeans escura, uma blusa de manga simples e meus velhos tênis — sem meia, como sempre. Pronta, rabisquei uma bilhete para Vagner agradecendo a ajuda e recusando o táxi.
Saí apressada pelo fundo, pela saída dos funcionários, e respirei aliviada ao alcançar a rua. A parte de trás da boate era mais sombria; precisei dar a volta para pegar a rua do ponto de ônibus. Ao meu redor, alguns carros estacionados e mulheres fazendo ponto. Se quisesse chegar em casa hoje, teria que atravessar tudo aquilo. Soltei o cabelo, encostei o corpo no muro e caminhei rápido, fingindo não ouvir os convites das garotas para “entrar pro time”. Quando cheguei do outro lado — onde as luzes eram melhores e havia mais movimento — olhei para a entrada lotada da boate: homens bem vestidos e mulheres impecáveis formando fila. Sacudi a cabeça. Perder o emprego doía, mas eu sabia que sair dali fora o melhor. Mamãe sempre reclamava: apertava o peito quando eu sumia à noite e só respirava aliviada quando eu voltava. Engoli em seco. O prazo para abandonarmos os barracos havia sido reduzido — agora tínhamos só uma semana antes da demolição. O desespero, que já era grande, dobrou. Com o dinheiro das gorjetas daríamos jeito no aluguel. Sem isso, não havia muito o que fazer além de seguir em frente. Avancei para atravessar a rua e trombei com um corpo firme. Levantei os olhos e congelei. — Cavalo Selvagem? — exclamei. Ele usava uma polo branca que fazia seus olhos parecerem mais azuis e jeans escuro que marcava as pernas. Mateus me encarou com o cenho arqueado, pesado. — Só podia ser ela, a garota insuportável — disse, com desprezo. — O que você está fazendo aqui? — respondi, na defensiva. — Minha vida não é da sua conta — atirei. — Agora que já terminou de relinchar, sai da minha frente. — E se eu não quiser? — desafiei, cruzando os braços. Ele sorriu, mas o sorriso não alcançou os olhos. — Como se seu tamanho minúsculo pudesse me atingir. — Ele apontou para mim. — Vem comigo. Temos conversa pendente. — Me obrigue. — Cruzei os braços com mais força. — Com todo prazer. — Ele se agachou, enlaçou minhas pernas com os braços fortes e me ergueu como quem carrega um saco de batatas. Esmurrei suas costas e chutei, mas ele me apertou como uma sucuri, impedindo qualquer movimento. — Me solte, seu cavalo! — gritei, atraindo olhares de transeuntes que, como sempre, fingiram indiferença. — É assim que tratamos crianças atrevidas! — ele riu. Quando senti sua mão grande estapear meu traseiro, berrei de raiva. — Se continuar desse jeito, dou outro corretivo. Fica calma, quero só terminar a nossa conversa. Caminhou em passos largos até o carro, ainda me sacudindo, e me atirou no banco do passageiro como se eu fosse um peso sem alma. Fechou a porta, entrou no lado do motorista e arrancou. — Aonde pensa que vai me levar? — perguntei, bufando de raiva, mas ele nem olhou. Em menos de dez minutos já estávamos passando pela portaria de um prédio blindado, com cancelas como as de shopping. Ele entrou no estacionamento e estacionou numa vaga marcada como pertencente à cobertura. Desligou o carro, abriu a porta e, sem cerimônias, puxou meu braço para me fazer descer. — Você não pode fazer isso! — estapeei-o com a mão livre; ele apenas segurou meu pulso com mais força. Com a mão ainda presa no meu pulso, ele me arrasta pelo piso liso. Tento frear, inclinando o corpo para trás, mas é inútil. Quando paramos diante do elevador, ele toca no painel e as portas se abrem tão rápido que parece que já o esperavam. Ele me puxa para dentro, aperta alguns botões, e logo estamos subindo. Quando as portas se abrem, ele sai novamente me puxando. Consigo apenas observar de relance um corredor branco, paredes tomadas por quadros interessantes — mas não tenho tempo de olhar melhor. Já estamos passando por uma porta larga, escura e pesada. — Bem-vinda à minha casa — ele anuncia, trancando a porta atrás de nós. — Ótimo. Trouxe-me para o seu curral. Foi exagero. Total exagero. Se aquilo era um “curral”, então eu era a própria princesa da Dinamarca. O lugar era enorme, iluminado, impecável. Um sofá marrom que parecia comportar vinte pessoas, piso de madeira brilhando, paredes perfeitamente pintadas, uma mesa enorme com cadeiras confortáveis, e uma cozinha aberta cheia de eletrodomésticos modernos e brilhantes. — Vamos jantar — ele diz simplesmente, como se tivesse me sequestrado só para isso. — Não estou com fome — minto. Meu estômago ronca alto em protesto. — Só quero ir embora. — Você não vai sair daqui. E vai comer sim. — Os olhos dele percorrem meu corpo. — Você está tão magra que parece que vai voar com o vento. — E, antes que eu responda, completa: — E comendo, você calará essa boca tempo suficiente para me ouvir. Ele segura meu cotovelo e me conduz até o balcão da cozinha. — Sente-se — ordena, apontando para um dos bancos altos. Obedeço, ainda alerta. Ele abre a geladeira, pega uma caixa de pizza e uma garrafa de vinho, e começa a procurar pratos e talheres com a convicção de quem não cozinha nunca. Depois de abrir três portas e uma gaveta, finalmente encontra o que quer. O micro-ondas apita e, quando ele abre a caixa, o cheiro de queijo derretido praticamente me faz salivar. Não lembro a última vez que comi pizza. Ele coloca um pedaço no meu prato, dois no dele, serve o vinho e desliza minha taça até mim. Sentamos em silêncio. Ele devora os pedaços como se estivesse faminto. Eu, cansada demais para discutir, cedo. A primeira mordida quase me faz fechar os olhos. Céus. Era tão bom. Quando ele termina, vira a taça de vinho de uma vez e, enfim, me encara. Engulo o pedaço que estava mastigando e pego minha taça, bebendo também. — Vou direto ao ponto. — A voz dele ressoa na cozinha silenciosa. — Uma semana atrás, fiz uma proposta que você recusou. Mas agora não tenho mais tempo. E como o destino foi gentil o suficiente para colocar você no meu caminho novamente, estou reiterando meu pedido. — O que? — pergunto, mesmo já sabendo. — Ainda preciso de uma noiva — ele diz, firme. — Melhor ainda: de uma esposa. Preciso apresentá-la à minha família e à sociedade. Se aceitar, faremos um contrato. Você terá vantagens. Será um acordo. Nada sentimental. Apenas negócios. — Você está maluco — digo, balançando a cabeça. — Eu te detesto, e você claramente me detesta. Não conseguiríamos ficar cinco minutos juntos sem brigar. — Podemos trabalhar nisso. — Ele cerra os dentes, mas mantém a voz controlada. — É um excelente negócio. Você terá todas as despesas pagas, mesada, cartão de crédito, um carro. E, quando o contrato terminar, darei uma pensão alta o suficiente para que nunca mais precise trabalhar. Eu abaixo a cabeça. Sim ou não? Princípios… Mamãe… Meu orgulho… Meu medo. Mas também: A nossa casa sendo demolida. Minha mãe chorando. A incerteza do amanhã. A falta de um teto. O desespero. Era a chance de mudar tudo. Um acordo. Um casamento falso. Um sacrifício por algo maior. Eu estava com a faca e o queijo na mão. Era isso ou a rua. E pela primeira vez, ajudar o Cavalo Selvagem… poderia ser a minha salvação. continua....






