capitulo 6

Isabella

A música está tão alta que quase faz meus tímpanos vibrarem. Estou em um quartinho apertado, lutando para enfiar as pernas dentro de uma saia que, sinceramente, parece ter sido embalada a vácuo. Depois de muita insistência, consigo puxar o couro vermelho pelas coxas e fechar o zíper na cintura, me sentindo sufocada. Com um suspiro resignado, visto a blusa branca — curta, fina e desconfortável — e me encaro no espelho pendurado na parede.

Ridícula. É exatamente como me sinto nesse uniforme.

Sim, você leu certo. Eu agora tenho um uniforme porque consegui um emprego.

Não é o trabalho dos sonhos, mas era o que eu tinha. A boate XX estava sempre lotada e, quando disseram que precisavam de mais uma atendente, eu aceitei sem pensar duas vezes.

Prendo o cabelo em um rabo de cavalo alto e saio para o bar, onde Vagner já está atendendo meio mundo. Respiro fundo antes de me aproximar e aperto levemente seu ombro. Ele se vira e sorri. Foi ele quem me treinou naquela primeira semana e, em pouco tempo, acabou se tornando meu amigo — e meu protetor.

Ser garçonete em um bar de Nova York não é para qualquer um. As cantadas nunca param, o assédio é constante e os homens parecem perder totalmente a noção quando o álcool entra no jogo. Já me vi em situações que preferiria apagar da memória.

— Quem abriu as portas do inferno hoje? — sussurro para Vagner enquanto ele entrega uma cerveja para um homem que me olha de cima a baixo, sem nenhuma vergonha.

— Sábado é sempre assim. — Ele aponta para a pista lotada, gente dançando, gritando, bebendo como se o mundo fosse acabar. — Se quiser ficar aqui, vai ter que se acostumar.

Eu apenas balanço a cabeça. Desde o dia em que cheguei, ele disse que eu não duraria muito ali. “Lugar nenhum para uma garota como você.” “Você merece mais do que cantadas baratas e hálito de cerveja.” “Nem todo dinheiro do mundo paga o sono que você vai perder.” Ele repetia isso sempre.

E, no fundo, ele estava certo. Mas eu precisava estar ali.

Um garoto loiro se encosta no balcão. Seus olhos verdes percorrem meu corpo sem pudor, parando no decote da blusa. A essa altura, eu já estou convencida de que o dono da boate desenhou esse uniforme especialmente para aumentar o lucro da casa.

— Uma dose de uísque, princesa. — A voz dele está arrastada, pesada. Não é a primeira dose da noite.

Pego a garrafa e sirvo o líquido âmbar no copo diante dele. Ele sorri. Um sorriso convencido, daqueles que acreditam que o mundo pertence a eles — ou, pior, que eu pertenço.

Se ele achou bonito o trailer, azar o dele. O filme completo ele não vai ver.

Ele vira o copo de uma vez, os olhos ficam brilhantes de álcool.

— Me sirva mais, princesa! — Ele b**e o copo no balcão. — Não me deixe seco. Me encha sempre com o seu mel.

Pisca. Olha novamente para minhas pernas. Eu conto mentalmente até cinco para não estourar a garrafa na cara dele.

Continuo servindo, ignorando as frases nojentas e o olhar que me despia. Só desço do salto quando ele tenta segurar minha mão — pela décima vez. Puxo antes que ele consiga apertar. Não é novidade. Mas meu alívio vem quando sinto outra mão segurando a minha pela lateral.

Vagner.

Ele se coloca ao meu lado, firme, o olhar duro sobre o loiro.

— Algum problema? — pergunta, sem elevar a voz, mas transbordando ameaça.

— Nenhum. Só estava agradecendo a princesa pelo excelente serviço. — Solta minha mão e pisca de novo, o idiota.

— Certo. — Vagner responde, mas seu olhar não suaviza. Depois se vira para mim. — Vá. Intervalo. Agora. Aproveita que a maioria está na pista.

Eu apenas concordo. E respiro pela primeira vez em minutos.

Assinto com a cabeça e caminho até o pequeno quartinho que serve de vestiário e área de descanso. Entro, fecho a porta e solto um longo suspiro antes de me afundar no puff. Fecho os olhos por um instante. Se eu não precisasse desse emprego, não teria aguentado nem o primeiro dia. Sempre que chego em casa sinto como se um caminhão tivesse passado por cima de mim — e alguém tivesse me chutado na cabeça depois.

Um súbito bater de porta me faz abrir os olhos. O loiro idiota está ali, parado na minha frente.

— O que você está fazendo aqui? — pergunto, levantando-me de imediato, alerta.

— Senti que você não tirou os olhos de mim enquanto me atendia. — Ele dá um passo à frente e eu dou dois para trás.

— Aqui é só para funcionários. Saia.

— Que tal eu provar essa tua boquinha? — Sua voz embriagada roça meu rosto. — Depois a gente encontra um jeito mais… gostoso… de você usar ela no meu pau.

Dou mais um passo para trás até sentir a parede na minha lombar. Ele encosta o corpo no meu, pesado, e agarra meus pulsos, me prendendo.

— Me solta — exijo, tentando puxar meus braços, o coração disparado.

— Vai, admite que quer que eu te coma. — O hálito quente e alcoólico me sufoca. — A gente pode fazer barulho. Você deve gemer alto, do jeitinho de uma puta.

Fecho os olhos por um segundo — e, de repente, o aperto some. Ouço um baque. Quando abro os olhos, vejo Vagner agarrando o loiro pelo colarinho e o jogando para fora da sala. O corpo do infeliz cai no chão, mole, e Vagner continua atacando, chutando-o com fúria enquanto o outro geme.

— Seu porco imundo! — ele ruge.

— Mas que inferno está acontecendo aqui?! — A voz do dono do bar ecoa no corredor. — Solte o filho do delegado, Vagner! Quer acabar preso e sem um dente na boca?

— Esse desgraçado estava encurralando a Isa! — Vagner dá outro chute no estômago do homem, que dobra de dor. — Se eu não tivesse percebido que ela sumiu do bar…

— Ah, me poupe — o dono resmunga, me lançando um olhar sujo. — Quem garante que ela não se ofereceu? Não vai me dizer que acha essa garota tão inocente nessa história.

Sinto o sangue ferver.

— Como é que é? — minha voz sai trêmula de indignação. — Você é tão podre quanto ele.

— Ora, garota, não se faça de santa. Você sabia que, trabalhando aqui, teria que fazer alguns… extras.

Antes que ele termine, minha mão já está atravessando o ar. O tapa ressoa alto.

— Eu não me prostituo!

Bruno segura meu pulso com força, seus olhos estreitos de raiva.

— Quem você pensa que é? — ele cospe as palavras, literalmente. — Como ousa me bater?!

— Uma mulher digna. — Arranco meu braço do aperto dele. — E eu nunca vou me vender para agradar cliente nenhum.

Ele aperta os lábios.

— Então esse lugar não é para você. Não quero funcionária que não saiba satisfazer quem paga. Você está demitida. Não precisa nem terminar o expediente. Fora da minha boate.

Ele vira as costas e vai ajudar o verme ainda caído no chão.

Eu apenas deixo meu corpo deslizar até o piso frio. Não tento segurar as lágrimas. Elas descem, quentes, lentas, pesadas. Doem. Humilhação, medo, exaustão, a sensação de perder mais uma batalha.

Porra.

Vagner se agacha ao meu lado, enxugando uma lágrima da minha bochecha.

— Eu sinto muito… mas talvez tenha sido melhor assim. Você sabe que eu nunca concordei com você trabalhando aqui. — Ele se levanta e me estende a mão. — Vai, limpa o rosto. Eu vou chamar um táxi para te levar pra casa.

— Não precisa. Ainda é cedo, posso pegar ônibus.

— Não discuta. — Ele franze o cenho. — Não vou deixar você sozinha em ponto deserto. Aceita a ajuda.

Ele sai sem me dar chance de retrucar. Eu balanço a cabeça. Não quero que ele gaste o dinheiro que ele rala tanto para juntar — dinheiro que ele guarda para a esposa e o filho quase chegando ao mundo.

E isso só faz meu peito doer ainda mais.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App