Estaciono meu carro na vaga privativa do prédio e desço devagar. Ajusto o terno, empurro os óculos escuros no rosto — eles disfarçam bem as olheiras de uma noite mal dormida e bem vivida. Ontem rendi matéria suficiente para abastecer as revistas de fofoca por mais de uma semana: exagerei nas bebidas, passeei por boates do centro de São Paulo e saí acompanhado por três mulheres. Precisava disso. Precisava tirar da cabeça as palavras duras do senhor Harvey.
Casar ou sair da Tec Corporation. Cruz e espada. Precipício. Havia um sujeito pronto para me empurrar e tomar o meu lugar. Mas perder não era meu verbo favorito.
Sou filho adotivo — sempre foi uma pressão silenciosa. Meus pais me amaram como a qualquer outro, eu e Thomas fomos criados iguais. O problema não era amor; era fama. Eles não entendiam o porquê das minhas atitudes. Achavam que era rebeldia tardia; a verdade estava mais embaixo.
Lutei demais para chegar onde cheguei. Abandonei o sonho infantil de Engenharia Civil por Administração — aprendi a gerir pessoas, recursos e metas para guiar a Tec na direção certa. Anos de foco e agora vou ser expulso?
Com o humor ruim habitual, entro na cabine de aço, digito o código e subo no elevador privativo. Não quero trombar com ninguém: já estou atrasado e não quero dar exemplo ruim. Assim que piso no corredor do meu andar, vejo Victor — meu amigo e advogado — encostado na mesa da assistente, com a cara fechada por ter me esperado. Ótimo, o aguardado espetáculo do nosso ridículo “processo seletivo”. Se pudesse, empurrava tudo para outro dia.
E, claro, lá está Eduardo — meu primo e o terceiro na lista das coisas que eu mais odeio. Filho legítimo da minha tia, ele tem passado os dias aparecendo na minha sala só para lembrar que eu ainda não me casei. Sorriso idiota no rosto, ele aproveita qualquer pretexto para me cutucar: o processo, a solteirice, os clientes que ele já começou a contatar apresentando-se como diretor geral da Tec. Usurpador em treinamento.
Minha paciência esgota-se a cada aparição. Por mim, já o teria chutado porta afora e servido de lição. Tentei ir por outro caminho — Victor sugeriu algo mais eficaz: cumprir logo as exigências do meu pai e neutralizar o jogador no tabuleiro. Concordei. Não posso perder mais tempo. Um mês já passou; preciso encontrar a candidata perfeita.
Passo por Eduardo com raiva contida, fingindo que ele é apenas mais uma parede do escritório. Cumprimento os demais de forma automática e entro na minha sala. Atiro a pasta de couro sobre a mesa, jogo os óculos ao lado e respiro fundo antes de sentar. Prevejo um dia daqueles: cheio, torturante e infernal.
Nem cinquenta segundos se passaram quando o imbecil já está dentro da minha sala. Fecho as mãos, prendo o olhar nele. Se tivesse juízo, já teria corrido. Mas ignorância é o talento dele. Não me contenho:
— Se não tem nada útil pra dizer, não abra a boca. Não tenho tempo pra ocupações insignificantes — digo, a voz cortante o suficiente para deixá-lo entender.
— Bom dia, primo. — Eduardo se acomoda na cadeira à minha frente, cruzando a perna com falsa elegância. — Aconteceu algo com seus olhos? Estão vermelhos. Quase inchados.
— Talvez seja alergia a idiotas — respondo, trincando os dentes para manter o último fio de paciência. — Eu trabalho, algo que você não pode dizer que entende. Não tenho tempo a perder. Saia.
Aponto para a porta. Ao mesmo tempo, disco o ramal da minha assistente, pedindo que Victor entre imediatamente. Se eu tenho que me condenar a esse casamento, que seja rápido e sem cerimônia.
Poucos segundos depois, ouço três toques na porta. Victor entra com sua postura impecável e cara de “vou te matar”. Justíssimo, considerando as três horas que o fiz esperar. Sei que ele vai me arrancar um valor absurdo em honorários como vingança — e eu pagarei com prazer. Ele já me tirou de enrascadas piores. E agora, conto totalmente com ele para me salvar das exigências absurdas do velho Ávila.
— Você ainda está aqui? — pergunto, olhando para Eduardo, que continua sentado como se tivesse alguma relevância. — Quer ajuda para achar o caminho da sua sala?
— Que gentil — ele diz, levantando-se e abotoando o terno. — Mas não se preocupe, eu encontro sozinho. — Ao passar por Victor, inclina-se com um sorriso venenoso. — Tenha um ótimo trabalho, primo. Quem sabe hoje não seja seu último dia... nesta sala... nesta empresa? Estou torcendo para assistir à sua queda. Será lindo ver o cargo voltar para quem é de direito.
A porta b**e. E eu esmurraria sua cara, se ele ainda estivesse aqui.
— Filho da puta! — esmurrar a mesa é o mínimo. A madeira reclama. Victor gargalha como se estivesse assistindo a um stand-up exclusivo do meu sofrimento.
— Calma — ele diz, ainda rindo. — Você vai infartar antes do casamento. Guarde energia para o grande dia. Ele está chegando.
— Não começa — rosno. — Se pudesse, me casaria por procuração e mandava a mulher para o Polo Norte. Ou Marte. Quanto mais longe, melhor.
— Eu juro que ainda vou desistir de você como cliente. — Victor se senta, massageando a testa. — Mas, pelo menos, vou poder cobrar caro. Muito caro.
— Coloque quantos zeros quiser — respondo. — Só me tire desse pesadelo. Por favor, diga que encontrou as candidatas.
— Encontrei. — Ele arqueia uma sobrancelha, satisfeito. — As melhores disponíveis no mercado. Você pode me agradecer depois. Tenho certeza de que, quando as vir, vai até ficar em dúvida sobre qual será a futura senhora Novack.
— E o passado? — pergunto, lembrando da exigência ridícula. — Histórico limpo? E… virgens?
— Todas. — Ele não desvia o olhar. — Contratei uma agência especializada. Fizeram exames, assinaram contratos de sigilo. Está tudo dentro das exigências. Confie no meu trabalho, mesmo que essa tenha sido a tarefa mais absurda que você já me passou.
Assinto. Exausto.
— Então onde elas estão?
— Coloquei todas em uma sala separada. Não queria que seu primo cruzasse com elas. Ele faria qualquer coisa para te prejudicar. Já te avisei mil vezes: Eduardo não presta.
— Eduardo é só um cão que late — respondo, com desdém. — Nunca mordeu ninguém.
Victor suspira. Não responde. Talvez ele saiba que, um dia, aquele cão vai morder.
— Bem — ele diz, levantando-se — vamos iniciar as entrevistas. Vamos encontrar sua noiva perfeita. Transformar você em um homem de família.
— Certo. — minha resposta sai seca. — Traga uma de cada vez. E todas devem assinar o termo de confidencialidade. Nada disso pode vazar.
— Já providenciei. Multa astronômica, ameaça jurídica e caos garantido para quem ousar abrir a boca.
— Perfeito. Traga a primeira.
Victor sai, e fico ali, estralando os dedos — meu hábito quando estou irritado, cercado, sem saída. Nunca imaginei que a situação que exigiria todo meu controle mental seria… casamento.
Eu não odeio o amor. Não tenho traumas. Simplesmente não vejo sentido nisso. Liberdade sempre foi a base da minha vida. Mas minha família decidiu que isso é primitivo. E eu tenho o dever de ser o filho perfeito.
Meu rosto endurece. Preciso de alguém que veja isso como um acordo. Uma parceria fria. Dinheiro em troca de silêncio. Sem ciúmes. Sem apego. Sem amor.
Uma batida corta meus pensamentos.
Endireito a postura. Endureço a expressão.
A porta se abre.
Uma mulher alta, loira e vestida de vermelho sangue entra. Seus saltos parecem desafiar a gravidade. Caminha até minha mesa, nervosa. Meu olhar percorre seu corpo — profissionalmente.
Alta, magra, quase frágil. Pernas longas e brancas demais. Cintura tão fina que poderia desaparecer se virasse de lado. No peito, duas melancias enormes desafiando qualquer lógica de proporção.
Perfeito. Começamos bem.
Eu respiro fundo.
O show vai ser longo.
***
— Sente-se — ordeno, sem me esforçar para mascarar o desagrado. — Seu nome.
— Simone — responde, cruzando as pernas com uma lentidão calculada, quase teatral. Nada em seu gesto desperta qualquer reação em mim. Muito forçado. Muito... vazio.
— Victor, o documento. — Falo, sem tirar os olhos dela.
Meu advogado parece lembrar de onde está, abre a pasta e me entrega o termo. Ele se senta ao meu lado. Eu havia pedido que permanecesse — não tanto como apoio emocional, mas como lembrança viva de que eu não podia estrangular ninguém naquele recinto. Ele era meu bote salva-vidas: o lembrete de que isso era necessário.
— Simone, preciso que assine. — Empurro a folha para ela. — Termo de confidencialidade. Absoluto sigilo. Se algo dito aqui sair dessa sala, você será responsabilizada conforme cláusulas e multas já especificadas.
Ela nem lê. Passa os olhos por cima como quem assina recibo de entrega de pizza e rabisca o nome cheio de firulas no final. Sorri. Um sorriso treinado demais.
— Certo, Simone. Vou ser objetivo. — Entrelaço os dedos sobre a mesa. — Preciso de uma esposa. Estou selecionando a candidata ideal. Me diga por que você deveria ser escolhida.
Os olhos dela se arregalam. Claro que se arregalam. Não é todo dia que se recebe uma proposta dessas. Sou o único idiota do planeta que está passando por isso.
Ela pisca várias vezes, mas logo recupera a pose. Seus olhos brilham. Reconhecimento. Interesse. Ganância. É transparente como vidro polido.
Sou conhecido. Sou notícia. Sou prêmio.
E ela sabe.
— Eu… posso dizer que sou a mulher perfeita. — Sua voz desliza melosa. — Tenho classe, educação. Saberia me comportar nos jantares e eventos. — Ela ajeita o decote, como se aquilo fosse argumento. — E também posso agradá-lo muito no quesito sexual...
— Pare. — Interrompo. — Quais são suas experiências sexuais?
Ela sorri. Lasciva.
— Tive um namorado que me ensinou várias coisas. Inclusive como deixar um homem completamente louco só com a minha—
— Saia. — Corto, frio como aço. — Você não atende aos requisitos.
— Como? — Ela tenta fazer cara triste, mas o resultado é apenas irritante.
— Eu disse. Para. Sair.
Meu olhar é tão duro que ela levanta tão rápido que quase cai do salto. Sai com pressa. A porta se fecha.
Victor suspira.
— David, respire. Você foi... intenso.
— Você disse que selecionou as melhores, e a primeira já falha no requisito principal. Além de vulgar, é burra.
— Algo deu errado. Vou tratar com a agência. — O tom dele indica processo, quebra de contrato, destruição em massa. — Trago a próxima?
— Fazer o quê? — Reviro os olhos. — Traga.
O desfile de horrores começa.
Uma a uma, elas entram. Assinam. Falam. E saem.
Vulgares. Ambiciosas. Tolas. Outras tão frágeis que parecem quebrar ao vento. Nenhuma desperta nada em mim. Meu corpo permanece tão morto quanto um bloco de gelo. Se nem meu próprio instinto reage... eu estaria preso no inferno de um casamento sem sexo.
Não. Isso eu não aceito.
— Essas eram as melhores do mercado? — pergunto, exausto. — Perdi duas horas da minha vida que não voltam nunca mais.
— Sinto como se tivesse corrido uma maratona — Victor resmunga, afrouxando a gravata. — E vou garantir que essa agência seja fechada. Nunca mais passam um cliente para trás.
— Temos que correr. — Esfrego o rosto, irritado. — Meu pai não deu prazo, mas ele vai aparecer a qualquer momento. E, quando vier, vai ser como um furacão.
— Eu não quero estar aqui nesse dia — ele comenta, sincero.
Não respondo. Só puxo o cabelo com força, pressionando o crânio como se pudesse impedir meu surto iminente.
— Porra! — esmurrar a mesa é instinto. Objetos caem. Que se fodam.
Então o telefone toca.
— Sara, isso precisa ser importante — digo, entre dentes.
— Senhor, há uma última candidata aguardando — responde minha assistente, impassível. Ela é uma rocha com batom nude.
— Mande entrar — desligo, olho para Victor. — Mais uma?
— Uma atrasada, provavelmente. — Ele endireita a postura. — Quem sabe ela é a certa.
— Ou mais uma perda de tempo — respiro.
A porta se abre.
Sara aparece — impecável como sempre — e se afasta para deixar a candidata entrar.
Ela é pequena. Menos de 1,60. Chega com a cabeça baixa, cabelos castanho-claros caindo como cortina sobre o rosto. A roupa é simples — jeans gasto, camisa amassada e grande demais, sapatilha comum.
Ela troca o peso de um pé para o outro, desconfortável.
Eu já estou preparado para dispensá-la.
— Seu nome? — pergunto, imparcial.
A garota levanta o rosto.
E o mundo se rearranja.
Olhos claros — verdes, azuis, ou algo entre os dois — brilhando com firmeza. Postura ereta. Queixo erguido. Ela caminha até a mesa sem pressa, sem hesitação.
Sua voz não treme. Não hesita. Não se diminui.
— Isabella. Eu me chamo Isabella Oliveira.
E é a primeira vez no dia inteiro que algo no meu peito — e abaixo dele — desperta.