capitulo 3

Isabella

Atrás de pobre, minha mãe dizia, corre um bicho.

Mas, no meu caso, acho que não é um simples bicho. É um monstro. De dez cabeças. Faminto. E com meu nome tatuado na testa.

O monstro que encurralou minha família conhece todas as nossas fraquezas. Está ali, pronto para engolir a gente inteira — sem mastigar. E eu não tenho a menor intenção de virar arrotinho de monstro.

Mas eu já não sabia o que fazer. Estava cansando de lutar. A esperança estava começando a se desfazer. A fé? Desbotando como roupa lavada com água sanitária. Eu realmente acreditei que, com diploma universitário, tudo ficaria mais fácil.

Que piada.

Minha mãe e eu fizemos um sacrifício desgraçado para eu cursar Administração. Quando se tem pouco até para comer, estudar vira uma guerra. Mas eu lutei. Ralei. Me virei. E me formei.

E o diploma? Está lá. Guardado. Servindo para quê? Para decorar gaveta. Não serve nem para limpar a bunda — muito áspero pro serviço, imagino.

Se eu não risse, eu chorava. E se eu chorasse, eu afogava Nova York inteira.

Principalmente depois da última bomba:

Três meses.

Três meses até sermos despejadas da nossa casa. A casa onde eu cresci. O locador já está no limite com os atrasos. Minha mãe trabalha como empregada desde que chegamos nesse país, e ainda assim o dinheiro nunca é suficiente. E eu não arrumo trabalho nenhum.

Apoio a cabeça na janela do ônibus e fecho os olhos. Fingindo descansar. Fingindo que tudo isso é um pesadelo. Mas, quando abrir os olhos, ainda estarei aqui, rodando a cidade inteira, entregando currículos e recebendo nãos como brinde.

Já foram mais de vinte entrevistas. Vinte portas fechadas. Vinte sorrisos falsos. Vinte “te ligamos”.

E quanto mais o tempo passa, mais eu enxergo o cenário: eu, minha mãe e meu irmão Julinho morando embaixo de alguma ponte.

Interessante, não é? Você atravessa meio mundo atrás de uma vida melhor e a vida faz questão de esfregar que, no fim, a desgraça te acompanha em qualquer país.

Sinto uma dor no peito.

Eu não posso deixar isso acontecer.

Peço parada, desço do ônibus e meu estômago ronca tão alto que até o carrinho de cachorro-quente olha. Eu só comi um pão no café da manhã. Não posso comprar nem chiclete. Engulo saliva e faço um acordo com minha barriga:

— Na volta, a gente compra alguma coisa. Prometo.

E sigo. Tenho vinte currículos na bolsa. Então vou entregar vinte currículos.

Primeira tentativa: restaurante chique.

Quase me chutaram de lá. Acho que pensaram que eu tinha entrado para comer de graça. E pela minha roupa, decidiram que eu não tinha condições de pagar nem uma água. Eu só saí. Sem responder. Sem xingar. Sem nada.

Paciência. A vida cobra. Sempre cobra.

Segunda tentativa: floricultura.

A moça foi um amor. Disse que não tinham vagas e que iam fechar em breve porque ninguém compra flores mais. Sorri. Agradeci. Respirei.

E, de repente, eu estava parada diante de um prédio que parecia uma joia gigante.

Cinza brilhante, janelas espelhadas, fachada de revista. E lá no topo: Tec Corporation.

Eu nem sabia o que eles faziam, mas com uma fachada daquela, era coisa grande. E, sem perceber, já estava empurrando a porta giratória.

Quer dizer… tentando empurrar. Porque nela estava escrito puxe.

Vai entender.

Ali dentro tinha uma catraca com cartão de acesso, mas por algum milagre divino ou distração humana, ela estava aberta. Então, entrei.

E me arrependi na mesma hora.

O chão brilhava. Se o pão caísse com a manteiga pra baixo ali, eu comia sem soprar. Quatro seguranças me olharam ao mesmo tempo. Quatro.

Homens enormes, de terno preto, óculos escuros, fones no ouvido. Homens de Preto versão “você vai morrer se errar o passo”.

— Bom dia — digo rápido, colocando as mãos atrás do corpo para reforçar: eu sou inofensiva, moço. — Eu só vim deixar um currículo. Mas claramente eu não sirvo para trabalhar aqui.

Dou um passo para trás para fugir — e bato nas costas da porta. Tento abrir. Ela nem se mexe.

Maravilha. Vou morrer enclausurada.

— Você disse processo seletivo? — diz o segurança número 1, a muralha.

Eu só balanço a cabeça. Tenho medo de emitir som.

— Então por aqui, senhorita — o segurança número 2 aponta.

Meu cérebro: corre.

Minhas pernas: vamos morrer, mas vamos com classe.

Entro no elevador com eles. Encosto na parede, calculando possíveis rotas de fuga. Se ele se mexer rápido demais, minha melhor estratégia é morder e rezar.

As portas se abrem. E o lugar é ainda mais luxuoso que lá embaixo.

Mas aí eu percebo: já estou ferrada mesmo.

O segurança vai até uma mesa onde uma mulher ruiva linda e impecável está sentada. Ele aponta para mim. Ela me observa de cima a baixo como quem avalia um objeto defeituoso na vitrine.

Eu quase rio. Quase.

Porque se eu não rir, eu tremo.

Ela me chama para me aproximar. Eu obedeço.

E vejo nos olhos dela exatamente o que estou acostumada a ver:

Você não pertence aqui.

Minha calça jeans velha, camisa larga, sapatilha descolando… tudo nela diz que eu não deveria estar pisando naquele chão brilhante.

Ela pega o telefone.

Não escuto o que ela diz.

Porque eu estou ocupada lembrando que caráter e dignidade não aparecem pela roupa.

E que fome não espera padrão estético.

Hoje eu estou lutando pela minha vida.

Apenas volto para o mundo real quando a ruiva segura meu braço e me puxa em direção a uma porta enorme. Ela b**e uma vez, bem de leve, gira a maçaneta e entra. Sigo atrás, cabeça baixa, os cabelos caindo ao redor do rosto como cortina de proteção.

O frio no estômago não tem nada a ver com fome dessa vez. É puro nervosismo. Igual ao de apresentar seminário na frente da sala — só que aqui, se eu gaguejar, talvez eu morra.

— Como é seu nome? — uma voz áspera corta o ar.

Jesus, Maria, José e o restante dos apóstolos.

Eu conheço essa voz.

Meu sangue gela.

Trouxeram-me direto para o chefão. O chefe do chefe. O rei do trono. O homem que manda os outros homens mandarem.

Os seguranças são só paus-mandados do capiroto.

Mas eu tenho dignidade. Pouca, mas tenho. E se for para morrer, que seja com pose.

Então ergo o queixo, abro o peito, puxo o ar e respondo firme:

— Isabella. Eu me chamo Isabella Oliveira.

E quando finalmente encaro o homem atrás da mesa…

O ar me abandona.

Ele tem uma presença que ocupa o espaço inteiro.

Cabelos lisos e castanhos, penteados de um jeito displicente que só fica bonito em quem nasceu para ser problema.

Os olhos castanhos — escuros, intensos — me prendem, como se fossem algemas de luz e sombra.

E aí, quando cometo o erro de olhar sua boca…

Pronto.

Acabou.

Minha sanidade saiu pela janela.

Lábios cheios. Bonitos. Daqueles que fariam qualquer mulher reconsiderar seus valores morais.

A barba rala só acentua o estrago.

É indecente.

E ele ainda tem a audácia de ter a pele como chocolate derretido no sol de verão.

Um insulto aos sentidos humanos.

Meu cérebro está começando a montar fanfics perigosas até que…

— Vai ficar aí parada feito uma árvore e muda como uma tola? — ele rosna.

E eu reconheço.

Oh, eu reconheço.

Os olhos. O topete. A arrogância.

O cavalo selvagem do estacionamento.

O indivíduo que quase me atropelou, me chamou de suicida, exigiu desculpas e saiu cantando pneu.

Inferno em chamas.

O destino não só deu voltas. Ele fez looping.

Ele não parece me reconhecer.

Mas eu reconheço muito bem.

E se tem algo que eu não tenho — é juízo para ficar calada.

— E você vai continuar bufando feito um touro e ameaçando dar coices como um cavalo bravo? — disparo.

Uma gargalhada explode ao lado.

Só então noto o outro homem, sentado, terno cinza impecável.

Ele me olha como quem acaba de achar um espetáculo imperdível.

— Corajosa e divertida — ele aponta para mim. — Gostei.

— Menos, Victor — o cavalo bravo ruge, finalmente se sentando. Ainda assim, parece pronto para destruir um prédio com as mãos. Ele aponta para a cadeira à minha frente. — Sente-se. Não tenho tempo a perder.

— Prefiro ficar de pé — respondo, colocando-me atrás da cadeira como se fosse escudo. — Pode dizer qual vai ser minha sentença. Só peço que não seja cruel.

Ele franze o cenho.

— Sentença? Crueldade?

— Você não vai aproveitar e terminar o serviço de um mês atrás? — pergunto, sincera. — Agora pode me matar com calma. Queima de arquivo, essas coisas.

Ele arregala os olhos.

— Você é louca?! — sua voz ecoa. — Por acaso eu tenho cara de assassino?

— Cara de assassino não — dou de ombros. — Mas de cavalo bravo… aí posso afirmar com propriedade.

Victor se dobra de rir.

Ele até segura a barriga.

— David, ela é perfeita — ele declara, animado. — Precisa apenas de ajustes nas roupas. Mas a personalidade… é exatamente o que você precisa. Os dois seriam um casal espirituoso. Imbatível.

— Você está aqui para me ajudar ou zombar de mim?! — David rosna.

Um leão perderia fácil para ele.

Victor apenas ergue as mãos, inocente.

David se recosta, me encarando.

A sala fica pesada. A respiração, densa.

— Vamos começar o processo seletivo — diz ele, firme. A mandíbula não se move nem meio milímetro além do necessário.

— Processo seletivo? — repito, sem acreditar.

— Foi o que eu disse, garota. Além de louca, é surda? — ele rebate.

Eu abro a boca para xingar.

Mas não consigo.

Porque… então é isso.

É uma vaga.

Uma entrevista.

Uma oportunidade.

Eu quase choro.

Quase desmaio.

Quase agradeço ao céu com hino completo da harpa cristã.

Eu vou conseguir.

Eu vou ter um emprego.

Eu vou salvar minha família.

— Vamos ver quais são suas chances de se tornar minha esposa — ele conclui.

— O quê?

Minha voz sai fraca.

E minhas pernas simplesmente… desistam.

O chão sobe para me encontrar.

E eu caio, sendo engolida pelo ciclone chamado David.

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