capitulo 1

Mais uma entrevista. Mais um “não”.

— Desculpe, mas você não se enquadra nos requisitos da vaga. Vamos manter seu currículo em nosso banco de dados para futuras oportunidades.

A frase ecoa pela décima vez apenas essa semana. Já decorei. Já ouvi até nos meus sonhos. Sonhos, não — pesadelos.

A verdade é que eu perdi horas tentando conseguir uma vaga de vendedora numa loja chique do shopping. Até reconheço que foi justo dessa vez: eu não sei diferenciar seda de viscose. Para mim, tudo é pano — e fim. Mas, aparentemente, para as madames perfumadas que lá circulam, isso é quase ciência exata. E, se eu fosse atendê-las, provavelmente acabaria respondendo alguma futilidade com outra bem pior. Então, no fim das contas, foi melhor assim. Do que adianta conseguir um emprego e perder em menos de uma semana?

Ainda assim, saio da sala cabisbaixa. Eu preciso do trabalho. Lá em casa a situação não está nada boa, e sinto a obrigação de ajudar minha mãe. Ela tem segurado tudo sozinha nesse último ano, e só Deus sabe o quanto ela está cansada. Eu queria dar um respiro para ela, nem que fosse pequeno.

Atravesso o corredor e logo me deparo com a praça de alimentação — lotada como sempre. Meus olhos caem direto no quiosque do McDonald’s. Ah, os sorvetes… parecem até brilhar sob a luz artificial, me chamando como sereias chamam marinheiros. Minha boca enche de água só de imaginar um McFlurry.

Nunca consegui pronunciar esse nome direito. Da última vez, me saí com um “um Mc de sonho de valsa, por favor”. O atendente entendeu — graças ao bom Deus. Milagre.

Desvio o olhar, mas aí, o diabo resolve trabalhar: o painel luminoso troca para a foto de um hambúrguer com carne dupla, cheddar triplo, bacon, molho barbecue, picles e alface americana entre dois pães “com grãos selecionados”. Ah, sim. Porque até um grão pode ser rejeitado nesse mundo.

No caso, eu sou o grão rejeitado.

Meu estômago ronca tão alto que, se alguém não ouviu, está fingindo.

Finjo costume, abaixo a cabeça e praticamente corro para longe dali. Desejar o que não posso ter não paga conta — só piora a fome. Já estou atrasada mesmo, preciso chegar logo no ponto de ônibus. Se eu tiver sorte, ainda pego o das 18h.

No impulso, atravesso a praça, dobro corredores, e só paro quando o cheiro de comida desaparece. Respiro fundo e me dou conta de que estou diante dos elevadores. Surpreendentemente, não há fila. Aperto o botão e entro. A viagem é rápida e, quando as portas se abrem, percebo que fui parar no estacionamento.

Mas eu nem estou de carro.

— Droga…

Por que tudo na minha vida tem que ser difícil? Sério, em outra vida eu devo ter chutado a cruz.

Olho para o relógio. A tarde inteira se foi. Significa que vou passar um bom tempo esperando ônibus, chegar tarde, e ainda contar para minha mãe que falhei de novo.

Engulo seco. Não posso chorar. Chorar não paga conta, não cura cansaço e não resolve nada.

Então começo a voltar, passo firme, como se eu fosse o papa-léguas fugindo do coiote. Estou quase atravessando para o próximo quarteirão quando uma buzina estoura atrás de mim.

Olho para o lado e um carro prata vem direto na minha direção.

Nem dá tempo de pensar. Só fecho os olhos e começo a rezar tudo o que lembro.

Mas as orações não impedem o impacto. Minha perna é atingida, meu corpo perde o equilíbrio, e eu vou ao chão, batendo a bunda no piso liso e a cabeça logo em seguida.

— Ei, está tudo bem? — uma voz masculina pergunta, próxima, educada demais para esse mundo. Sinto um toque firme porém gentil em meu pulso. — Você sente dor? Consegue se levantar?

Minha visão gira, e os pontos luminosos parecem vagalumes voando na frente dos meus olhos.

— O que… aconteceu?

— Calma — ele diz, com aquela voz bonita que parece sair de um comercial. — Vou tocar sua perna, só para verificar se há alguma fratura, tudo bem?

Ele apalpa meu joelho, minha panturrilha, meu tornozelo. O calor das mãos dele atravessa o jeans.

— Nada quebrado. — Ele suspira, aliviado. — Acho que você caiu mais pelo susto.

Dessa vez, consigo abrir os olhos por completo. E quando faço isso, vejo que uma sombra alta está diante de mim. Levanto o olhar e encontro o rosto dele.

E eu juro: se eu morri, Deus me mandou um anjo para me buscar.

E que anjo.

Nada de asas, túnica branca ou halo. Ele usa um terno escuro impecável, gravata vermelha — daquelas que dizem perigo — e o cabelo castanho é arrumado num topete leve. Mas o que realmente me desmonta são os olhos. Não são azuis como nos quadros de igreja, mas intensos. Profundos. Penetrantes.

Eles me prendem. Me silenciam. Me deixam sem ar.

Se isso é céu ou inferno, ainda não sei.

Mas sei que preciso respirar.

Analiso demoradamente o rosto dele — perfeito demais para ser real — emoldurado por uma barba escura que desenha seu maxilar de forma quase criminosa. A expressão não é das mais calmas, e eu entendo. Deve estar cansado de cuidar de mim. Convenhamos: eu não sou exatamente uma pessoa fácil de proteger. Vivo me metendo em confusões. Ele provavelmente já pensou em me entregar aos cuidados de outro santo por pura exaustão.

Ele move os lábios — bonitos, claro — mas não entendo nada do que diz. Posso muito bem supor que esteja fazendo alguma oração para que minha alma vá em paz, evitando que eu vire uma pagã perdida por aí. Então, fecho os olhos, pronta para receber minha bênção e partir em paz.

— Vou chamar um médico — a voz dele soa novamente, grave e bonita. — Só por precaução.

— O quê? — pergunto, confusa. — Se eu já tô morta, pra que hospital? Só faz seu trabalho direito e me leva pro paraíso logo. Prometo que, quando chegar lá, vou pedir a Deus uma missão mais fácil pra você com a próxima protegida.

— Do que você está falando? — ele franze o cenho.

— Você não é meu anjo da guarda?

— Você tá bêbada? — ele questiona, me encarando com atenção.

Abro os olhos de imediato. Ele está sério — sério de um jeito que me dá vontade de me encolher.

— Você não pode ser tão imprudente assim, garota — a voz agora sai firme, quase dura. — Venha, vou levá-la ao hospital.

— Não precisa — digo, fraca, ainda meio zonza. — Eu só preciso ir pra casa. Estou atrasada.

— Venha — ele insiste. — Me deixe ajudar.

Seu toque é surpreendentemente gentil. E então, como se eu fosse feita de penas, ele me coloca de pé, apoiando meu corpo na lataria do carro. Respiro fundo umas cinco vezes — daquele jeito dramático mesmo — e a cabeça começa a clarear. Mexo as pernas, os braços, nada dói.

Ufa. Tirando a minha bunda, que parece ter recebido um meteoro. Dos males, o menor.

— Está vendo o que causou? — ele começa, apontando o dedo para mim. — Uma confusão desnecessária. Você se jogou na frente do carro. Se eu não tivesse freado a tempo...

Eu piscaria, se minha cara já não estivesse formigando de raiva.

E então, como se alguém desenrolasse uma fita na minha cabeça, tudo volta.

— Espera — digo, sacudindo a cabeça. — Você não é anjo nenhum. Você tentou me matar! — aponto acusando. — Quis passar por cima de mim! Aposto que estava correndo igual um doido, nem viu que eu tinha preferência, já que sou pedestre!

— O quê? — ele rosna. — Você entrou na frente do carro do nada! Eu buzinei, mas você continuou!

— Como motorista, era seu dever parar e me deixar passar! Não agir feito um imbecil querendo tirar minha vida!

— Olhe bem — ele aponta para a sinalização no chão. — Eu estava na minha vez. Você deveria ter parado. Além disso, você estava correndo num estacionamento, e não numa pista de corrida.

— Agora vai colocar a culpa em mim?

— Por acaso você é louca? — ele dispara, e sua voz engrossa ainda mais. — Do jeito que você veio correndo, até parece. Quase se matou! Com certeza é uma maluca imprudente.

Quem esse imbecil acha que é?

— Alto lá, seu cavalgadura! — rebato, sem pensar. — Eu não sou louca! Você é que apareceu do nada, provavelmente saído de uma nave espacial, achando que isso aqui é Fórmula 1!

Ele bufa — literalmente — igual a um cavalo irritado prestes a dar coice.

— Além de suicida, é doida. Excelente — resmunga. — E ainda deveria agradecer por não ter arranhado meu carro. Se tivesse amassado, ia pagar.

Ele dá um passo para trás e me olha como se eu fosse uma doença contagiosa. Eu, claro, vou na outra direção do bom senso: chego mais perto.

— Você só pode estar me zoando — digo, com uma risada incrédula. — Você quase me atropela e ainda quer dizer que eu tô errada? Ah, tá. Tá achando que é o Ayrton Senna? Sinto informar, mas a pista fica em outro lugar.

— Escute, menina — sua voz agora ecoa, profunda, quase uma trovoada. — Você não vai me fazer sentir culpa pela sua imprudência. Da próxima vez que decidir correr, faça isso em um parque. — Ele cruza os braços. — Peça desculpas.

— O quê?

— Peça desculpas — repete. — Agora.

Cruzo os braços também.

— Nem que chova canivete. Você é que deveria pedir desculpas por dirigir igual um louco.

Ele revira os olhos.

— Estou perdendo meu tempo. — Ele dá meia volta. — Vou entrar no carro, e, dessa vez, tente não se jogar na frente.

Ele entra no carro — um modelo caro, daqueles que a gente só vê em comercial — b**e a porta com força e arranca cantando pneu.

— Imbecil! — grito.

Depois acrescento, aos berros, para o nada:

— TOMARA QUE SEUS QUATRO PNEUS FUREM NUMA ESTRADA VAZIA E CHUVOSA!

Respiro fundo.

Agora é oficial.

Só chego em casa depois das 21h.

E tudo culpa daquele cego idiota.

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