Mundo ficciónIniciar sesiónGISELE NARRANDO:
Era uma terça-feira como qualquer outra, e o bar estava bem mais tranquilo do que o usual. Eu trabalhava com alguns rapazes que ficavam no atendimento das mesas, e Jéssica, a namorada do Afonso, o dono do bar, me ajudava no balcão. A gente se dava bem, e embora o trabalho fosse cansativo, com ela ao lado as noites passavam mais rápido. Mas naquele dia, o movimento estava tão fraco que Afonso me liberou mais cedo. Eu olhei para o relógio e sorri, onze horas. Isso era raro. Mandei uma mensagem para dona Sueli, avisando que chegaria mais cedo para buscar Rodriguinho. Ela respondeu com um “Que bom! Ele ainda está acordado.”, e eu só pensava em como seria bom chegar em casa um pouco mais cedo e ficar mais tempo com ele. Corri até o ponto de ônibus, e por sorte ele não demorou. Cheguei em casa por volta de onze e meia. Subi as escadas do prédio com pressa, já imaginando o rostinho dele. Quando bati na porta de dona Sueli, ela apareceu com Rodriguinho no colo, acordado como sempre, de olhinhos espertos. — Que bom que você chegou mais cedo, Gisele! Ele não queria dormir de jeito nenhum. — Dona Sueli sorriu, entregando meu filho, que estava enrolado na coberta, com a chupeta na boca. — Ah, obrigada, dona Sueli. Ele é assim mesmo, parece que sabe quando estou chegando. — Respondi, rindo e segurando meu filho nos braços, sentindo o calorzinho gostoso dele. Me despedi de dona Sueli, agradecendo novamente, e fui direto para casa. Assim que entrei, tirei a bolsa do ombro e brinquei com Rodriguinho. Ele estava agitado, mexendo as mãozinhas, puxando meu cabelo, e eu só conseguia rir. — Ah, meu amor, você é um danadinho, hein? — Coloquei-o no chão por um instante, e fui guardar as coisas dele. Mas, ao abrir a bolsa, percebi que tinha esquecido de comprar mais leite e que as fraldas estavam quase acabando. Suspirei, exausta, mas olhei para Rodriguinho e brinquei, enquanto o arrumava novamente. — Quer passear com a mamãe, meu amor? Vamos até a farmácia? Que tal? — Sorri enquanto colocava seus tênis e ajeitava sua roupinha. Rodriguinho me olhou com aquele sorriso com poucos dentes pequenos que fazia meu coração derreter, e saímos de casa, trancando a porta. Peguei um táxi, o único jeito de chegar rápido na farmácia 24 horas no centro. Durante o trajeto, ele estava no meu colo, agitado, olhando pela janela do carro, e eu apontava as luzes da rua para ele. — Olha lá, filho, as luzes da cidade. Tá vendo? — Ele sorria e fazia barulhinhos, balançando a chupeta na mãozinha. Quando chegamos, paguei o taxista e entrei na farmácia com ele no colo. Rodriguinho estava eufórico, como se soubesse que estava num lugar novo, e eu, com um cestinho na mão, fui direto para os corredores. Ele dizia “mamã” de vez em quando e fazia barulhinhos que me faziam rir. Peguei logo uma lata de leite em pó de 800g. Aquilo duraria uns dias, pelo menos. Também peguei duas chupetas novas, já que ele tinha mania de morder até destruir as antigas. No corredor das fraldas, encontrei uma promoção excelente. O coração de qualquer mãe b**e mais forte com descontos, então coloquei três pacotes do tamanho M na cestinha. Mas aí veio o problema. O peso da cesta e de Rodriguinho no meu colo estavam começando a me cansar. Ele ficava se mexendo, querendo ir para o chão. Olhei ao redor rapidamente, o chão estava limpo e o corredor estava vazio. “Só um minuto”, pensei. Então, coloquei ele sentado no chão, bem pertinho de mim, enquanto procurava o tamanho certo das fraldas no meio da prateleira. — É rapidinho, meu amor — eu disse, sem olhar para baixo. Mas quando me virei de volta para pegá-lo... Ele não estava mais lá. Meu coração disparou. — Rodriguinho? Filho? Cadê você? — Gritei, com meu corpo inteiro tremendo. Olhei ao redor, desesperada. Meu coração parecia que ia sair pela boca. — Cadê você meu filho? Rodriguinho! — Minha voz ficou mais alta, quase histérica, enquanto corria para o corredor ao lado. As minhas mãos tremiam tanto que eu mal consegui segurar a cestinha. Corri para o outro corredor,com meu coração batendo forte. Como fui tirar o olho do meu filho? Como eu pude deixar isso acontecer? Eu fui tão descuidada! E então, quando virei o corredor seguinte, parei. Meu corpo congelou. Ali, parado, com Rodriguinho no colo, estava um homem que eu pensava que nunca mais ia o encontrar de novo. Ele estava mais bonito do que eu lembrava, vestindo uma roupa social, o cabelo mais alto e os ombros mais largos. Mas aquele olhar... aquele olhar eu jamais esqueceria. Ele olhava para mim de uma forma que fez meu corpo paralisar por um segundo. Era ele, o pai do meu filho. — Gisele? — Ele perguntou com uma voz calma, mas intensa. — Mamã — Rodriguinho murmurou






