Mundo de ficçãoIniciar sessãoGISELE NARRANDO:
Já faz dois meses que minha rotina se transformou em um turbilhão. Trabalho intenso, folga apenas às segundas, e aquela sensação constante de que o tempo nunca foi suficiente. Rodriguinho, meu pequeno, já se habituou ao horário maluco da mãe. Toda noite, enquanto eu estava no "Bar do Urso", dona Sueli cuidava dele como se fosse dela. Eu sabia que estava em boas mãos, mas isso não aliviava a saudade e a culpa de estar longe dele. Eu sempre chegava em casa por volta das quatro e meia da manhã, ou às vezes um pouco mais tarde, quando precisavam de mim para fechar o bar. Passava na casa de dona Sueli, que me esperava com Rodriguinho enrolado em sua coberta e sua pequena bolsa a tiracolo. Ela sempre me entregava aquele olhar compreensivo e um sorriso tranquilo. — Tá com tudo aqui, Gisele. Ele ficou bonzinho, cochilou a maior parte da noite, mas acordou esperando você — ela me disse, me passando meu pequeno embrulhado. — Obrigada, dona Sueli — eu sorria, agradecida, mas sempre apressada, tentando não deixar transparecer o cansaço. Chegando em casa, mesmo exausta, meu primeiro pensamento era fazer Rodriguinho dormir. Ele sempre ficou meio agitado, como se soubesse que estava fora de casa. Só relaxava quando o colocava no meu colo e balançava devagar até seus olhos se fecharem. Depois de o colocar no berço, eu tomei um banho demorado para tirar o cheiro de cigarro e álcool do bar. Aquele era o momento que eu tinha para mim mesma, mesmo que por poucos minutos. Às vezes comia algo leve, mas na maioria das vezes o cansaço era tão grande que mal conseguia me manter acordada. Eu acordava por volta das dez ou onze da manhã, dependendo do quanto Rodriguinho me deixava descansar. Não importava o quão exausta eu estava, o sorriso dele era o que me dava forças para seguir em frente. Ele acordava sorrindo, balbuciando, e meu coração se enchia de amor. Nosso café da manhã era simples, mas sempre feito com carinho. Preparava uma mamadeira de leite para ele e, agora que estava com sete meses, também oferecia frutas amassadas como banana ou mamão, às vezes uma papinha de maçã. Ele comia devagar, brincando com a comida enquanto eu tentava manter a paciência. Era tudo parte do processo. Depois do café, ficávamos juntos por um tempo. Eu aproveitava para arrumar sua bolsa, tirando as roupas sujas, colocando fraldas limpas, lençóis umedecidos, e a comida congelada que eu enviava para dona Sueli descongelar e dar para ele. Nas segundas-feiras, minha única folga, eu me dedicava a cozinhar as papinhas da semana. Faça tudo saudável, legumes, frango, carne moída, tudo orgânico, como aprendi nos vídeos de mães na internet. Congelava as porções em forminhas de silicone, e cada dia uma era descongelada no micro-ondas. Também não podia faltar frutas frescas e, claro, o leite, que ele não vivia sem, por isso a mamãe tinha que trabalhar muito. Enquanto Rodriguinho brincava ou assistia desenhos na TV, eu arrumava a bagunça do café da manhã e preparava o almoço dele. A nossa pequena casa virava um caos em questão de minutos, mas logo eu dava um jeito, mesmo correndo contra o relógio. Depois de alimentá-lo, vinha a parte do banho. Eu adorava a hora do banho, porque ele ria de tudo, mexia nas bolhas de sabão e, quando me descuidava, sempre jogava água para fora da banheira. Era cansativo, mas divertido ao mesmo tempo. Após o banho, o arrumava, sempre com uma roupinha confortável. Enquanto ele tomava a mamadeira e assistia seus desenhos, eu aproveitava para tomar um banho rápido, com a porta aberta, sempre de olho nele. Tinha aprendido a fazer tudo correndo, com a máxima eficiência, mas sem deixar de cuidar dele com todo o carinho. Rodriguinho já começou a engatinhar e era muito curioso, sempre querendo tocar em tudo. Infelizmente, às vezes eu precisava apelar para as telas para distraí-lo enquanto me virava com a rotina da casa. Só colocava vídeos com bichinhos e músicas infantis, nada que pudesse ser ruim para ele. Quando estava pronto, o momento mais difícil chegou: deixá-lo para ir trabalhar. Enchia meu bebê de beijos, com o coração apertado, e o entregava para dona Sueli na porta de sua casa que ficava no final do corredor em que eu morava. — Dona Sueli, eu nem sei como agradecer... Se não fosse pela senhora... — eu dizia, com os olhos marejados. Ela balançava a cabeça, como se eu não precisasse falar mais nada. — Vai tranquila, menina. Ele fica bem comigo. Pode ir trabalhar com a cabeça em paz. Antes de sair, sempre faço uma oração rápida em meu filho. Olhava para o rostinho inocente de Rodriguinho e pedia à Virgem Guadalupe que o protegesse enquanto eu estava fora. Era doloroso, mas eu sabia que tudo o que eu fazia era para o bem dele.






