Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu devia ter percebido que aquele dia não terminaria simples.
A manhã tinha começado comum, sem nenhum sinal de catástrofe emocional. Café forte, e-mails acumulados, reuniões inúteis e o esforço constante de fingir que minha vida estava perfeitamente organizada. Durante anos eu aprendi a funcionar assim — mantendo tudo em ordem do lado de fora para não precisar olhar o caos do lado de dentro.
Funcionava.
Até ela voltar.
Eu percebi no instante em que a vi.
Não foi algo gradual. Não foi sutil. Não foi bonito como nos filmes, daqueles em que a câmera desacelera, a trilha sonora cresce e tudo ganha um brilho dourado de nostalgia. Não. Foi direto. Brutal. Incômodo.
Ela ainda mexia comigo.
E pior, mais do que deveria.
Eu estava saindo da editora no fim da tarde, com a cabeça cheia de prazos, revisões e e-mails acumulados, quando empurrei a porta de vidro e senti o ar fresco bater no rosto. O céu estava naquele tom indeciso entre dourado e azul, típico de fim de dia, e por um segundo pensei que talvez fosse uma boa ideia passar numa padaria antes de ir buscar a Lívia na casa dos meus pais. Minha mente já calculava horários, trânsito, jantar, rotina.
Tudo normal.
Até eu ouvir meu nome na voz dela.
Meu corpo reagiu antes da minha mente. Os ombros enrijeceram. A respiração falhou. O coração, traidor, disparou como se tivesse reconhecido algo que eu vinha tentando esquecer há anos.
Virei.
E lá estava Vivian.
Parada a poucos passos de mim, segurando a alça da bolsa com as duas mãos, como se estivesse se ancorando nela. O vento mexia de leve nos fios soltos do cabelo dela e o sol do fim da tarde iluminava o rosto de um jeito que fez minha memória dar um salto no tempo sem pedir permissão.
O mundo não parou.
Carros continuaram passando. Pessoas seguiram caminhando. Um ônibus freou fazendo barulho. Alguém riu alto do outro lado da rua.
Mas dentro de mim, tudo ficou suspenso.
Ela estava diferente, porém igual.
O olhar mais maduro. A postura mais contida. Havia algo nela que denunciava anos vividos longe daqui, talvez fosse a maneira como se posicionava, como sustentava o olhar, como parecia mais segura e, ao mesmo tempo, mais cuidadosa.
Mas o jeito de inclinar levemente a cabeça enquanto me observava… Era o mesmo.
Engoli seco.
— Oi.
Genial, Gustavo. Brilhante. Poético. Um verdadeiro mestre das palavras, ironicamente, um editor que trabalha com livros e só conseguiu produzir um mísero “oi”.
Ela sorriu de leve.
— Oi.
Silêncio.
Aquele tipo de silêncio que não é vazio, é cheio demais. Cheio de lembranças, de versões nossas que já não existem mais. De coisas que poderiam ter sido e não foram. De perguntas que nunca fizemos. De respostas que nunca demos.
Passei a mão na nuca, tentando parecer normal. Não estava conseguindo.
— Como você está?
Pergunta simples, mas a resposta impossível.
Dei de ombros.
— Bem.
Ela me observou por um segundo a mais do que o necessário, como se estivesse tentando ler o que eu não disse.
— Que bom — respondeu, baixo.
Ela respirou fundo.
— E você como você tá?
— Bem também.
— Muito bom.
O vento passou entre nós, bagunçando uma mecha do cabelo dela. Meu cérebro, inconvenientemente, lembrou da sensação daquele mesmo cabelo entre meus dedos anos atrás, quando a gente sentava na calçada depois das aulas e ela reclamava que eu bagunçava tudo.
Desviei o olhar.
Erro.
Quando voltei a encarar, ela ainda estava me observando, mas agora havia algo diferente ali. Mais suave e mais cuidadoso.
— E a Lívia? — perguntou.
Meu coração tropeçou dentro do peito.
Ela tinha conhecido a minha filha recentemente. Já tinha conversado com ela, já tinha rido das histórias dela, já tinha sido chamada de tia Vivi com a naturalidade que só criança tem.
Ainda assim… ouvir Vivian perguntar daquele jeito fez alguma coisa dentro de mim apertar.
— Estou indo buscá-la na escola agora mesmo.
— Imagino… ela parece um anjinho.
— Parece — concordei. — Mas não se deixe enganar.
Ela riu de leve. E pronto. Aquele som. Aquela risada. A mesma de anos atrás. Fez alguma coisa dentro de mim apertar.
— Ela gosta muito de você, sabia?
Franzi a testa.
— De mim?
— Uhum. — Vivian sorriu de canto. — Ela falou de você a aula inteira naquele dia.
Engoli em seco.
— Falou?
— Falou.
Houve uma pausa.
— Disse que você é o melhor pai do mundo.
A frase bateu em mim sem aviso.
Forte. Direto. Sem defesa.
Desviei o olhar, porque, de repente, encarar Vivian parecia perigoso demais.
— Criança exagera — murmurei.
— Criança não finge sentimento, Gustavo.
Levantei os olhos e me arrependi na mesma hora. Porque ela estava me olhando daquele jeito. Aquele olhar que sempre me desmontou.
Suave.
Calmo.
Sincero.
— Dá pra ver — ela completou, baixinho.
O primeiro trovão estourou tão perto que até eu senti o impacto no peito. Olhei para o céu por reflexo. As nuvens tinham se fechado de um jeito pesado, carregadas, como se estivessem prestes a despencar sobre a cidade inteira. O vento mudou de repente, trazendo aquele cheiro metálico de chuva que sempre aparece segundos antes do temporal.
— Acho que vai cair o mundo — Vivian murmurou.
Voltei os olhos pra ela.
O vento levantou algumas mechas do cabelo dela e colou o tecido leve da blusa contra o corpo. Desviei o olhar rápido demais, como se tivesse sido pego fazendo algo que não devia. Respirei fundo, tentando ignorar o efeito que ela tinha sobre mim.
O primeiro pingo bateu no asfalto.
Depois outro.
E então a chuva caiu de vez.
Em segundos, a água despencava forte, pesada, barulhenta. Vivian riu baixinho, surpresa, dando um passo pra trás e tentando se proteger sob a marquise. Inútil. O vento jogava a chuva de lado, respingando nela mesmo assim.
Eu já estava molhado quando perguntei:
— Quer uma carona?
Ela piscou.
— O quê?
— Eu te levo pra casa. — Apontei com a cabeça pro outro lado da rua. — Meu carro tá logo ali.
Ela hesitou.
Eu vi.
Não era dúvida. Era outra coisa. Algo mais profundo. Algo que fez meu estômago apertar sem motivo lógico.
A chuva engrossou, martelando o chão com força.
— Não precisa — Ela disse. — Posso chamar um carro de aplicativo.
Como resposta, um relâmpago rasgou o céu, seguido de um trovão tão alto que ela se encolheu sem perceber.
Ergui uma sobrancelha.
— Claro. Boa sorte esperando alguém aceitar corrida nesse temporal.
Ela abriu a boca pra responder… e fechou. O vento trouxe mais uma rajada de água gelada contra as pernas dela.
— Tá. Mas só porque tá chovendo.
Quase sorri.
— Claro. Só por isso.
Corremos até o carro. A chuva batia forte no teto, no capô, no vidro, um som contínuo que parecia engolir o resto do mundo. Destravei as portas e abri a do passageiro pra ela. Ela entrou e, por um segundo, ficou ali parada, respirando, como se tivesse entrado em outro ambiente. Quando dei a volta e entrei também, fechei a porta e o barulho da chuva virou um abafado distante.
Só nós dois.
E o som da água.
Liguei o carro, mas não saí. O limpador começou a se mover, arrastando a água de um lado pro outro do para-brisa, revelando a rua e escondendo de novo.
Minhas mãos estavam firmes demais no volante. Eu sabia disso.
— Então… — ela começou.
— Então… — repeti.
— Você está morando na casa dos seus pais?
— Sim.
— Ótimo. É a caminho da escola de Lívia.
Silêncio.
Depois de uns minutos, senti o olhar dela em mim antes mesmo de virar o rosto.
— Você sempre dirige assim… tenso? — Ela quis saber.
Soltei um ar pelo nariz.
— Só quando a passageira me deixa nervoso.
Assim que falei, percebi que tinha sido sincero demais.
— Eu te deixo nervoso?
Virei o rosto e nossos olhos se encontraram.
— Deixa.
Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava, porém firme.
A chuva pareceu aumentar lá fora. Ela engoliu seco e, por um segundo, um único segundo, ninguém desviou. Tinha alguma coisa ali. Alguma coisa viva. Perigosa. Algo que eu sabia que não devia tocar… mas que não conseguia fingir que não existia.
Ela foi a primeira a quebrar. Virou o rosto pro lado e ficou encarando a cidade pelo vidro.







