Mundo ficciónIniciar sesiónSeis meses depois...
Roma sempre teve um cheiro diferente nas manhãs. Talvez fosse o café forte descendo pelas janelas dos prédios antigos, ou o pão fresco das padarias da esquina. Talvez fosse só a sensação de recomeço impregnada nas paredes amarelas, como se a cidade inteira estivesse sempre disposta a me dar outra chance.
Mas hoje, sentada no chão frio do apartamento que divido com a Pietra, rodeada de caixas, roupinhas de bebê e um sanduíche mal montado, Roma tinha cheiro de nervosismo.
— Você prometeu que não contaria pra ele. — digo pela terceira vez naquela manhã, mastigando devagar como se isso ajudasse a digerir também o pânico.
Pietra solta um suspiro longo e puxa outra peça de roupa da caixa — um macacãozinho amarelo com um desenho de ursinho. Ela segura o tecido entre os dedos, como se tentasse manter a paciência.
— Eu prometi. E estou cumprindo. — Ela dobra a roupa com precisão irritante. — Mas, Stella… você sabe que não vai conseguir esconder isso para sempre. Em algum momento, vai ter que contar a ele.
Reviro os olhos. A simples menção a ele já faz meu estômago revirar de um jeito que não tem nada a ver com enjoo de grávida.
— Não vejo a banda desde que eles saíram em turnê. — argumento, mordendo meu sanduíche. — Romeo está do outro lado do mundo fazendo shows, cantando, incendiando multidões… Ele não teria tempo para cuidar de um bebê. E sinceramente… eu arruinaria a carreira dele com isso.
Pietra para de dobrar. Levanta o olhar devagar, com aquela expressão típica dela de “você sabe que está falando besteira”.
— Você não arruinaria nada, Stella. — Ela j**a uma meia minúscula em cima de mim. — Ele já tem uma filha, lembra? Ele cuida bem, dentro do jeito dele…
— Cuidar? — arqueio a sobrancelha, limpando migalhas da minha blusa. — A garotinha vive com babás. Isso não é exatamente cuidar.
Pietra abre a boca para responder, mas desiste. Ela sabe que, nesse ponto, não vai me vencer.
Volto meu olhar para as roupinhas espalhadas. Não deveria ter comprado tantas. Mas era impossível resistir. A cada mês, a cada ultrassom, parecia que uma parte de mim voltava a existir, uma parte nova, frágil, que dava medo até de encostar. Minha vida tinha se transformado em algo que eu jamais planejei. Em poucos meses, abandonei tudo. Pedi a rescisão do contrato com a editora no Brasil, arrumei minhas malas, e me mudei definitivamente para Roma.
E agora grávida de cinco meses… eu ainda tentava entender onde tudo isso me colocava.
— Você vai mesmo recusar o emprego na galeria? — Pietra pergunta, quebrando meu devaneio.
Engulo antes de responder.
— Eu quero arrumar algo sozinha. — explico, mesmo sabendo que ela discordaria. — Não posso me apoiar em você pra sempre. Preciso… me virar. Como adulta.
Ela me observa por um segundo que parece longo demais. E então sorri, um sorriso pequeno, compreensivo, e um pouco orgulhoso.
— Tudo bem. — Ela fecha outra caixa. — Mas pelo menos aceita isso.
Ela estende o celular na minha direção. Espero o pior.
— Um contato de agência de empregos. É séria, confiável. Vai te ajudar a encontrar um trabalho que não exija muito esforço físico, e que você consiga manter depois que a bebê nascer.
Meu coração amolece.
Pietra sempre foi assim. Prática. Cuidadosa. Ela nunca impõe nada — mas sempre oferece tudo.
— Obrigada. — digo, genuinamente. — Sério. Obrigada por tudo isso.
Ela dá de ombros, desviando o olhar como se não soubesse lidar com elogios.
— Somos amigas. É isso que a gente faz.
O clima fica mais leve. Ela se inclina para perto, colocando a mão na minha barriga que agora já marca meu corpo sem pudor algum. Sinto um calor estranho subir pelo peito, uma mistura de amor, medo e espanto.
A bebê mexe.
— Ei! — Pietra sorri largo. — Ela chutou!
— Ela tem chutado quase todo dia. — digo, rindo também. — Principalmente de noite, quando eu quero dormir. Já está me testando.
Pietra está prestes a dizer algo, mas então o celular dela toca. O som agudo invade o apartamento silencioso. Ela olha a tela e o sorriso que surge é revelador demais.
Eu sei aquele sorriso.
Aquele sorriso tem nome.
Marco.
Marco, guitarrista da banda.
Marco, o cara com quem Pietra teve alguma coisa até tudo azedar e eles dois fingirem que o passado não existiu.
Pietra atende meio nervosa, ajeitando o cabelo que não precisava de ajeite nenhum.
— Ciao… — diz ela, com uma voz mais suave do que o normal.
Eu observo tudo em silêncio, levando o sanduíche à boca, mas sem coragem de morder. Ela tenta esconder, mas está corando. De novo.
Eles conversam por alguns segundos. O tom dela vai do riso contido à tensão. É nítido quando algo muda porque ela endireita a postura, fecha a expressão e murmura um “ok, claro”.
Quando desliga, me encara por dois segundos.
Eu arqueio uma sobrancelha.
— Então? — pergunto, direta.
Ela respira fundo.
— A banda… — começa devagar — vai voltar para Roma daqui um mês. Alguns dias de férias antes do próximo compromisso.
O sanduíche parece ficar mais pesado na minha mão. Minha garganta seca.
Um mês.
Isso era perto demais.
Eu tento rir, mas sai fraco.
— Roma é enorme, Pietra. — digo, dando de ombros. — A gente não vai se encontrar. Sem drama.
Ela finge concordar, mas seus olhos denunciam a tensão que ela tenta mascarar.
— É… — murmura. — Roma é enorme.
A verdade é que eu venho repetindo essa frase há meses — como um mantra desesperado, como se a geografia pudesse me proteger de um homem que deixou marcas no meu corpo e na minha memória.
Eu não podia vê-lo.
Não agora.
Não assim.
Grávida dele.
Romeo Bianchi tinha sido uma noite. Uma noite que me devolveu a sensação de estar viva, desejável, inteira. E parte de mim queria guardar aquele momento como algo que pertenceu só a mim.
Contar que ele tinha uma filha não poderia resultar em nada além de caos.
Ele estava no auge da carreira. Turnês internacionais, prêmios, fãs enlouquecidos. Era um furacão vestido de couro e tatuagens, e eu era só uma escritora tentando se recompor. Ainda assim, quando fecho os olhos, eu sinto as mãos dele nas minhas costas. O cheiro do perfume. A voz grave na minha pele, dizendo que eu nunca o esqueceria.
E não esqueci.
— Stella. — Pietra me chama baixinho. — Você está pálida. Quer água?
— Não. — balanço a cabeça, afastando o pensamento. — Só estou cansada.
Ela sorri com carinho.
— Você vai ficar bem. A gente dá um jeito em tudo.
Eu tento acreditar.
Mas meu peito aperta com uma certeza incômoda:
Roma pode ser enorme.
Mas não é grande o suficiente para me manter longe do homem que eu tentei esquecer e que, em breve, estará caminhando pelas mesmas ruas que eu.







