Mundo de ficçãoIniciar sessãoO jatinho corta as nuvens como se estivesse fugindo de tudo o que deixamos para trás nos últimos três meses. Paris desaparece sob meus pés, e com ela a última cidade da turnê europeia. Poderia finalmente respirar, relaxar, dormir por dias inteiros, mas minha cabeça está longe de qualquer possibilidade de descanso.
Penso em casa, em Alice, e inevitavelmente, penso nela.
— Você está inquieto demais pro meu gosto — Megan comenta, jogada no assento da frente, o cabelo loiro preso num coque torto. — Nem parece que acabou a turnê.
— Tô bem — respondo, baixo demais, sabendo que não convenço ninguém.
Marco, ao meu lado, revira os olhos sem desgrudar da guitarra de colo. Ele passa a mão pelas cordas sem amplificador, só para deixar os dedos ocupados. É sempre assim quando está tenso. E ele tem estado tenso constantemente, desde o dia em que Pietra reapareceu na nossa vida.
Paolo está dormindo desde que o avião levantou voo, o que não surpreende. O baterista tem o dom sobrenatural de apagar em qualquer lugar — inclusive sentado no chão de um aeroporto lotado.
Fecho os olhos e respiro fundo.
— Só por curiosidade… — Megan volta a falar, inclinando o rosto na minha direção — Você vai ver ela quando chegarmos?
Aperto o cinto.
— Quem? — pergunto, mesmo sabendo exatamente de quem ela fala.
— A garota — ela insiste, sorriso maldoso. — Aquela que te deixou ouvindo música triste no camarim e escrevendo letras que ninguém entende.
— Não começa, Megan.
— Ué, só perguntei. — Ela ergue os ombros. — Mas tudo bem. Finge que não pensa nela desde o dia que voltou. A gente finge que acredita.
Marco solta uma risada seca.
Por mais que eu tente esconder, aquela noite ficou presa em mim como um refrão em looping. Uma daquelas noites que surgem do nada e queimam tudo que encostam. Uma daquelas mulheres que aparecem só uma vez na vida e somem antes que você descubra por que diabos não consegue esquecê-la.
Stella.
Engulo o nome.
— Eu tenho outras coisas pra pensar — digo. — Alice, por exemplo. Preciso ver como ela está, procurar outra babá, organizar…
— Ah, não tenta disfarçar com a Alice. — Megan revira os olhos. — Você é um ótimo pai, Romeozinho, mas também é péssimo mentiroso.
Marco dá um leve aceno de cabeça, concordando.
— Você ficou estranho depois daquela noite, cara — ele solta. — Até na passagem de som você parecia… distraído.
Eu passo a mão pelos cabelos, exausto demais para discutir.
— Foi só uma noite — murmuro.
O avião pousa em Roma perto das nove da noite. A cidade brilha como sempre, espalhada abaixo de nós como um mar de luzes amareladas. Sinto meu peito apertar. Voltar para casa sempre traz uma mistura de alívio e ansiedade.
Descemos da aeronave e somos guiados por um funcionário até a saída privada do aeroporto. A banda anda alguns passos atrás de mim; Megan falando sem parar, Marco em silêncio absoluto e Paolo tentando acordar.
Ligo o celular e as notificações explodem, a maioria delas marcações no i*******m, notificações de sites de fofoca que insistem em me mencionar nas suas porcarias, mas só tem uma que importa.
ASSISTENTE PERSONALE – Chiara
“Bem-vindo de volta, Romeo! Já iniciei contato com a agência de babás. Vou te enviar a lista de entrevistas assim que confirmarem.”
Respondo rapidamente:
“Perfeito. Preciso de alguém antes das férias terminarem.”
Guardo o telefone no bolso. O motorista já está esperando, e quando entramos na van preta, o barulho da banda se mistura com o burburinho das ruas lá fora. Faço o caminho até a mansão quase em silêncio, sempre que estamos de férias, meus amigos ficam comigo, em partes porque tenho uma casa enorme e silenciosa, e também porque Alice adora a presença dos tios e eles a dela.
A mansão fica em um dos bairros nobres de Roma, asfastados do caos da cidade e assim que os portões de ferros se abrem sinto que finalmente posso relaxar, exceto pelas luzes acesas a essa hora da noite.
Alice está acordada.
Meu coração dispara.
Marco percebe meu sorriso e cutuca meu braço.
— Vai lá, papai babão.
— Idiota.
A van estaciona. A porta desliza para o lado e eu praticamente salto antes que alguém abra. Corro os últimos metros até a entrada. Antes que eu toque a maçaneta, a porta é escancarada.
— PAPAAAAAI!
Alice pula no meu colo com tanta força que quase me derruba. Solto uma risada, levanto ela e aperto, respirando o cheiro de shampoo de morango que eu adoro.
— Saudades, minha pequena.
Ela segura meu rosto nas mãos minúsculas.
— Você demorou muito.
— Eu sei. Mas agora vou ficar um tempo inteiro só com você.
Ela abre um sorriso que poderia iluminar a casa inteira.
E então, antes que eu dê o primeiro passo para dentro:
— Senhor Bianchi? — o segurança me chama, apontando para o chão ao lado da porta. — Deixaram isso aqui.
Olho para baixo.
Pequeno demais.
Um papel está embaixo da roupa, mas não tem remetente.
Meu coração para por um segundo, pois há apenas um bilhete dizendo: "Nós sempre sabemos de tudo primeiro."
Alice puxa o tecido com curiosidade.
— É pra mim, papai?
— Não, meu amor. — devolvo a caixa para o segurança. — Deve ser outra pegadinha da imprensa, jogue fora, por favor.
Minhas mãos estão tremendo. Marco, Megan e Paolo se aproximam atrás de mim, silenciosos, e por um instante, só existe essa caixa e a sensação absurda de que o passado acabou de bater na minha porta.







