Capítulo 4

Ele ergueu os olhos com aquela precisão característica de quem sempre analisa as pessoas como se fossem relatórios financeiros. Levou apenas um segundo para me reconhecer antes de arquear levemente uma sobrancelha.

— Vega.

Não pareceu surpreso.

Pareceu analítico.

Acomodei a bolsa no colo, como se isso pudesse me dar alguma estabilidade emocional.

— Senhor.

O olhar dele desceu instintivamente para a minha mão esquerda.

Vazia.

Depois, voltou para os meus olhos.

— Seu marido não está viajando com você?

Direto.

Sem anestesia.

Sorri com aquele sorriso que já estava virando o meu mecanismo oficial de defesa.

— Tivemos alguns problemas de agenda — menti com uma fluidez surpreendente. — Ele… precisou ficar.

“Ficar me traindo” não era um detalhe necessário para o momento.

Ele assentiu de leve, mas a sua expressão não indicava que estivesse totalmente convencido.

Então, seu olhar percorreu a cabine com um desagrado discretamente disfarçado.

— Por que o senhor não está na primeira classe? — perguntei antes que pudesse me conter. Afinal, se ele tinha o direito de me interrogar, eu também tinha direito a um pouco de curiosidade executiva.

O rosto dele mudou de forma quase imperceptível.

Ficou mais sério.

Mais fechado.

— Eu tinha uma reserva em outro voo — respondeu, seco. — Surgiu um assunto urgente. Um investidor em Bali resolveu reconsiderar a participação dele. Não havia mais assentos disponíveis na primeira classe e eu precisava viajar hoje.

Bali.

Claro.

Enquanto eu estava usando a minha lua de mel como terapia financeira de choque, ele estava indo atrás de milhões sob palmeiras exóticas.

— Deve ser importante.

— É.

Um pequeno silêncio constrangedor se instalou entre nós, interrompido apenas pela comissária explicando os procedimentos de segurança que nenhum de nós dois estava realmente ouvindo.

Então, ele virou ligeiramente o rosto na minha direção, me observando por um segundo que pareceu longo demais.

— Não vou fazer você trabalhar durante a sua lua de mel.

Pisquei.

— Como?

Sua expressão não mudou, mas sua voz ganhou um tom levemente irônico.

— Você não parece muito feliz em me encontrar aqui — disse calmamente. — Fique tranquila. Não pretendo te passar tarefas a dez mil metros de altitude. Provavelmente, depois que descermos deste avião, não nos veremos até voltarmos ao país… e ao trabalho.

Houve um breve silêncio depois disso.

Uau.

Era a primeira vez que eu o ouvia falar comigo por mais de vinte segundos sem que fosse para ditar uma pauta, corrigir um e-mail ou me chamar de Cláudia.

Fiquei olhando para ele por mais tempo do que seria prudente, tentando processar a situação.

Meu chefe.

O homem que media o tempo em produtividade.

Estava tendo o que tecnicamente poderia ser considerado uma conversa humana comigo.

— Isso seria… o ideal — respondi por fim, recuperando meu tom profissional automático.

Ele apenas assentiu e voltou a olhar pela janela.

Por um momento, pareceu apenas um homem viajando.

Não o dono de metade do setor financeiro da cidade.

Eu, por outro lado, continuava presa no assento do meio, carregando mentiras recém-fabricadas, um casamento inexistente e a desconfortável sensação de que talvez, apenas talvez, Adrián Castellanos percebesse muito mais do que deixava transparecer.

O avião começou a taxiar pela pista e senti a leve vibração sob os meus pés.

Adrián voltou a olhar para a minha mão esquerda.

Desta vez, com mais atenção.

— Você não estava usando uma aliança alguns dias atrás?

Meu coração deu um baque que provavelmente não seria aprovado por nenhum cardiologista.

Droga.

Ele tinha reparado na aliança.

— Mandei ajustar — respondi sem hesitar, surpreendida comigo mesma. — Estava um pouco larga.

Os olhos dele permaneceram nos meus por um segundo a mais do que o normal.

Não disse nada.

Mas havia algo na sua expressão que me fez sentir como se eu tivesse acabado de entregar um relatório com números adulterados.

O avião finalmente decolou.

E o meu estômago despencou junto.

E lá estava eu.

Presa a dez mil metros de altitude ao lado do meu chefe.

Sem aliança.

Com uma lua de mel fantasma.

E uma coleção de mentiras recém-inaugurada que eu esperava desesperadamente não precisar atualizar pelas próximas horas de voo.

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