O aeroporto estava entupido de casais felizes.
Claro que estava.
Mulheres agarradas aos braços dos companheiros, caras empurrando malas com aquele entusiasmo típico de recém-casados, beijos exagerados na frente dos painéis de voos internacionais.
E eu ali, sozinha.
Com uma passagem que dizia “2 passageiros”.
E a minha dignidade viajando na classe econômica.
Eu não estava vestida como uma noiva abandonada.
Estava vestida como uma mulher que decidiu que, já que tinha perdido noventa por cento do valor da viagem, pelo menos ia usar a maldita passagem.
Jeans.
Uma blusa básica.
Óculos escuros estrategicamente escolhidos para esconder as olheiras.
Respirei fundo quando anunciaram o embarque e tentei me convencer de que daria conta daquilo.
No fim das contas, era só um voo.
Um simples trajeto onde ninguém me conhecia, ninguém sabia que eu deveria estar em lua de mel e ninguém ia perguntar de um marido que, oficialmente, já tinha virado uma história vergonhosa.
Entrei no avião repetindo para mim mesma que ficaria tudo bem.
Caminhei pelo corredor estreito contando as fileiras, como se isso me trouxesse alguma estabilidade emocional, e procurei meu assento com a concentração de quem precisava desesperadamente de uma pequena vitória naquele dia.
Fileira quatorze.
Assento B.
Perfeito.
O do meio.
Aquele espaço criado especificamente para a pessoa reavaliar todas as decisões da própria vida enquanto disputa alguns centímetros de braço de poltrona.
Não era a janela para olhar as nuvens dramaticamente.
Nem o corredor para fingir uma independência estratégica.
Era exatamente o centro do desconforto humano.
Ajustei a alça da bolsa, levantei os olhos para identificar meus companheiros de sofrimento aéreo e foi bem nesse momento que o universo, claramente entediado, resolveu se divertir às minhas custas.
Terno escuro até para viajar.
Postura impecável.
Costas retas.
Olhar fixo na tela do celular, como se estivesse fechando uma fusão milionária a dez mil metros de altitude.
Adrián Castellanos.
Meu chefe estava sentado exatamente no assento 14A, confortavelmente instalado na janela, como se até na classe econômica o universo respeitasse a sua hierarquia.
Claro que ele tinha ficado com a janela.
Ele sempre ficava com a janela.
Pisquei várias vezes, convicta de que o cansaço emocional estava me causando alucinações corporativas.
Baixei os olhos para conferir a passagem mais uma vez, torcendo para que, por um milagre, o 14B virasse qualquer outro número.
Qualquer um.
Menos aquele.
Mas não.
14B.
Olhei para o assento do meio.
Depois para ele.
Depois para o assento de novo.
Como se, a qualquer momento, o avião fosse se reorganizar por pura compaixão.
Por fim, encarei-o diretamente, aceitando que a minha lua de mel solitária acabava de se transformar numa viagem supervisionada pelo homem que nem sequer lembrava o meu nome direito.
Ele ergueu os olhos devagar, como se tivesse percebido que alguém estava invadindo seu espaço aéreo pessoal.
O olhar dele desceu para a minha passagem.
Depois para o meu rosto.
E, inevitavelmente, para o assento vazio entre o corpo dele e o corredor.
— Vega.
Não foi uma pergunta.
Foi uma constatação de um fato levemente inconveniente.
Engoli em seco.
— Senhor.
Um silêncio constrangedor se instalou enquanto, atrás de mim, começava a se formar uma fila de passageiros impacientes.
— Esse é o meu lugar — expliquei, apontando para o 14B com a dignidade de quem já não tinha mais nada a perder.
Ele olhou para o número.
Olhou para mim.
Voltou a olhar para o número.
E, pela primeira vez desde que o conhecia, pareceu genuinamente surpreso.
— Que coincidência interessante.
Ah, claro.
Uma coincidência.
E não o universo inteiro rindo da minha cara.
— O avião está lotado — murmurei.
Porque estava mesmo.
O olhar dele continuou fixo em mim por mais alguns segundos.
— Lua de mel?
A pergunta me pegou totalmente de surpresa.
— Algo assim — respondi, forçando um sorriso.
A comissária de bordo observava a cena com aquele sorriso profissional que basicamente dizia: “Se vocês não sentarem agora, eu decolo sem os dois.”
Adrián se mexeu apenas o suficiente para me dar espaço para passar.
O mínimo possível.
E assim, com toda a elegância que uma mulher consegue ter quando está indo sozinha para a própria lua de mel cancelada, me acomodei no assento do meio, ao lado do homem que não sabia o meu nome…
Mas que agora sabia que estávamos viajando juntos.
Perfeito.
Quatorze fileiras dentro de um avião.
E zero chances de fuga.