03. Um despertar sem tranquilidade – Parte 1
Gael
Lembro-me de ter um dia relativamente tranquilo.
Recordo-me de pensar que estava tudo bem sair um pouco mais cedo do trabalho.
Ouço a voz da minha avó reclamando por eu não ter me casado.
Lembro-me de como revidei, dizendo que nenhuma mulher despertava meu interesse, e tudo o que ela gritou para mim foi que eu nunca olhei para uma de verdade, como deveria ser feito. Por isso, segundo ela, meu coração não despertava.
Não a entendi, nem tentei montar o quebra-cabeça que criava em sua cabeça, porque tudo em que conseguia pensar era que poderia ir para casa e descansar por um tempo maior depois de um belo banho.
Não tinha motivos para encontrar uma esposa, mas minha avó insistia no matrimônio. Perdi as contas de quantas vezes tentou, ao longo dos anos, me unir a alguma mulher, mas logo percebia que o interesse delas nunca seria algo semelhante ao amor que queria que eu encontrasse.
Apesar da idade, minha avó é uma romântica incurável que acredita ter vislumbres do futuro. Por conta disso, insistiu na importância do meu casamento.
Entretanto, apesar de me lembrar de todas essas coisas, não consigo entender por que alguém está chorando no mesmo cômodo em que estou. Não odeio lágrimas, mas acredito que nem todos têm o direito de ver as minhas fraquezas.
Se você se expõe para qualquer pessoa, é claro que será apedrejado.
Abro os olhos lentamente, e a claridade do ambiente me deixa zonzo. Preciso piscá-los mais algumas vezes até que tudo se torne mais nítido, mais reconhecível. Mas quão surpreso não fico ao perceber que estou em um hospital?
O som dos aparelhos se torna mais insistente, como se buscassem minha atenção, acelerando o ritmo do meu peito. Minha mente se esforça para entender o motivo de estar aqui, mas algo permanece constante: há alguém chorando perto de mim.
Meu peito se inflama com o ar que absorvo, mas, ainda assim, sinto-me sufocado, como se ele não chegasse aonde deveria. E tudo o que mais quero é não me perder no meio da minha busca por oxigênio.
Uma dor incômoda se fixa entre meus olhos, como se algo fino fosse repetidamente empurrado ali apenas para me atormentar. Ergo o torso, experimentando uma rigidez absurda nos músculos, e olho ao redor, tentando compreender o que está acontecendo.
Mas quem esperaria ver uma mulher vestida de noiva chorando copiosamente, sem nem mesmo notar o som mais alto dos aparelhos que gritam pela minha vida desperta?
A sensação de que devo sair deste lugar o mais rápido possível me domina, e tento me erguer, mas meu corpo fraco não me permite dar um único passo. Cambaleio, derrubando tudo o que estava sobre uma pequena carrinhola.
O barulho dos copos espatifando-se no chão é o suficiente para que a mulher se desperte do transe — seja ele qual for. Se não tivesse se levantado, não teria tentado me amparar.
Tentado, pois o peso do meu corpo ainda nos arrastou ao chão.
Seus olhos se arregalam, desesperados, como se estivesse vendo um fantasma.
Então, de novo, desperta. Ergue-se apressada, apertando o botão de emergência para chamar a equipe médica. Mas seu cuidado, apesar de não nos conhecermos, não a impede de voltar para perto de mim, me analisando.
Eleva meu rosto, segurando-o com ambas as mãos. Seus olhos se fixam nos meus e é nesse momento que percebo que suas lágrimas ainda rolam.
Por que há uma estranha chorando em meu quarto?
Por que diabos me olha como se estivesse pedindo socorro?
— Sai de perto de mim — murmuro, arrastando-me para trás, fugindo do seu toque. Algo em seu olhar muda. É como se minhas palavras a fizessem travar no lugar, e ali permanece, mesmo quando toda uma equipe invade o quarto desesperada para me atender.
Não importa o que façam comigo. Não importa o quanto eu a encare.
Ela continua parada, exatamente no mesmo ponto onde a deixei.
Somente se move quando o motorista — que reconheço de imediato — a segura pelos ombros e a conduz para fora do quarto. Esqueça o pedido de socorro em seus olhos. No instante em que percebe ser levada, parece caminhar direto para a morte.
E não sei por que diabos me preocupo com uma desconhecida.