04. Um despertar sem tranquilidade – Parte 2
Gael
Minha avó chegou ao hospital não muito tempo depois de anunciarem que eu tinha acordado. Ainda estava processando o fato de que passei três meses desacordado e que, nesse meio-tempo, a pessoa que me atingiu acabou morrendo.
Os médicos falaram sobre minha recuperação, garantiram que fariam o possível para que fosse completa, para que eu não precisasse me preocupar, mas tudo o que consegui responder foram afirmações curtas.
As imagens do acidente voltaram a me atormentar.
Eu fazia meu trajeto habitual quando fui atingido.
Lembro-me de permanecer consciente por alguns instantes após o impacto.
Recordo-me do som dos gritos, mas não de ter visto o resgate chegar.
— Você me parece igualzinho a todos os dias em que fiquei ao seu lado — diz minha avó, quando tenho certeza de que estou muito diferente do que era há três meses. — Por que sua esposa não está com você?
— Jorge levou aquela mulher para fora — conto, e ela olha para a porta antes de voltar a me encarar com ar acusador.
— Não acredito que usou o meu coma como um meio de me casar.
— Você não tem ideia do que passei nos últimos tempos — rebate. — E eu sempre lhe disse que um mal viria para cima de você um dia. Também avisei que se casar era o único jeito, e eu estava certa.
"Como ela pode achar que acordei de um coma por causa de um casamento?", pergunto-me, mas minha avó sempre teve esse tipo de comentário, e, para ser honesto, às vezes acerta em cheio.
Mas um coma nunca seria interrompido por conta de um casório.
Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Ela apenas se apressou em conseguir o que queria enquanto eu não podia reclamar. No final, ainda encontrou uma mulher maluca o suficiente para se casar com um homem que poderia nunca acordar.
— Essa tormenta sequer terminou — assegura, e não sei se fico feliz ao ouvir isso.
— Carolina é uma mulher muito boa, escolhi-a a dedo — mente descaradamente.
— Quem é ela de verdade, vovó? — pergunto, esperando, pela primeira vez, uma resposta sincera.
— É a filha do homem que causou o acidente — revela sem rodeios.
Não se importa com a forma como a olho. Apenas fez sua jogada e nos usou para colocar seu plano em prática.
— Como pode me casar com a filha do homem que quase me matou? — pergunto, sem saber se estou preparado para a resposta.
— Tinha que ser ela, assim como seu pai tinha que se casar com sua mãe — responde, como se pudesse enxergar os fios do destino diante de seus olhos. Como se aquilo não fosse um completo absurdo.
— Não vou permanecer casado com uma mulher envolvida nisso — declaro, mas ela ignora minhas palavras com a mesma habilidade que teve a vida inteira enquanto me criou. Pegou muita prática nisso.
— Aproveite que ela não está mais na minha frente e peça para que desapareça — acrescento, só então notando que a mulher está parada na porta.
Ela foi aberta sem que eu percebesse, e Jorge está logo atrás dela, como se soubesse que fugiria ao ouvir o que acabei de dizer. Afinal, ninguém escutaria algo assim e simplesmente ficaria quieto.
Mas não foi o que aconteceu.
Ela apenas caminhou para dentro, cumprimentou minha avó e se sentou no sofá, encarando a parede, como se nada tivesse sido dito.
O que minha avó fez para que essa mulher não saísse correndo depois de ouvir que não quero vê-la? Na verdade, ainda duvido de sua sanidade por ter se casado com um homem quase morto.
— Como já disse, tem que ser ela — insiste minha avó.
Aquelas palavras fazem com que a mulher, até então indiferente, finalmente olhe na direção de quem está decidindo seu futuro. Não acha que este seria um bom momento para opinar?
Deveria aproveitar que não tenho a intenção de manter esse casamento e correr enquanto ainda dá tempo, porque o que me incomoda agora pode se tornar muito pior mais tarde.
Não quer ser tratada grosseiramente, quer?
— Algumas vezes confiou nas minhas palavras. Por que está sendo tão ridículo hoje? — pergunta minha avó, como se falasse com uma criança birrenta que se recusa a aceitar um presente.
— Quando você me casa com a filha do homem que quase me matou, tenho que questionar seus pensamentos, vovó. Caso contrário, eu é que deveria estar internado na ala psiquiátrica — declaro, mas tudo o que recebo de volta é mais da sua teimosia.
— Você age como uma criança desde que comecei a falar sobre casamento. Avisei que algo ruim aconteceria se não encontrasse uma esposa antes do Natal. Mas o que fez? Me ignorou. E olhe o que tive que assistir — reclama, sem perceber que suas palavras fazem a mulher encolhida no canto parecer ainda mais insana.
— Tudo bem. Se eu preciso me casar para que pare com essa paranoia, ótimo. Mas por que tem que ser ela? — pergunto, apontando um dedo em sua direção.
Dessa vez, ela se move, me encarando enquanto sustento meu olhar. E não me importo se se sente ofendida, porque sou eu quem acordou casado com uma estranha.
— Ela é quem vai trazer sorte à nossa família novamente. Me ouça, Gael. Não podemos brincar com o destino como se tivéssemos todo o poder em mãos — argumenta minha avó, repetindo as mesmas palavras que me dizia desde pequeno. Que eu deveria escolher bem, mas que, no fim, o destino me guiaria para onde quisesse.
— Senhora, se esse é o motivo para o casamento, creio que não encontrou a mulher certa — pronuncia-se minha “esposa” pela primeira vez. — Eu nunca traria sorte para ninguém.
Gostaria de dizer: "Viu? Até ela discorda dessa ideia absurda", mas a questão não é o casamento em si. O problema, para ela, é a escolha que minha avó fez.
— É um erro me manter por perto se esse for o seu interesse — assegura.
Minha avó fica sem palavras. E não são muitas as pessoas capazes de silenciá-la.
— Claro que não é — rebate, recuperando-se rapidamente do choque. — Eu sei o que vi. E esse é um momento propício para que Gael produza a próxima geração da nossa família. Como você é a escolha perfeita, devemos mandá-los para uma lua de mel.
— Não. Eu não vou sair em lua de mel com essa mulher, muito menos ter um filho com ela — articulo, sentindo minha indignação crescer.
Minha avó está ultrapassando todos os limites. Fora que os olhos da minha "esposa" deixam claro que ela também não tem interesse nisso.
— Não! Eu não posso ter um filho. Quer dizer… não havia nada sobre isso no contrato — profere, deixando escapar sua insegurança. — Realmente encontrou a mulher errada — repete, mas minha avó não a ouviria.
— Vocês, jovens, não têm ideia do que uma pessoa velha como eu pode ver — murmura, como se devêssemos simplesmente aceitar suas loucuras.
Não sei o que essa mulher pensou em ganhar com esse casamento, mas está claro que os planos da minha avó não a deixam nem um pouco feliz.
Pelo menos nisso, concordamos.