Mundo ficciónIniciar sesiónCamila
Ele estava encostado perto da área da piscina, segurando uma garrafa de cerveja. Aproximei-me trazendo o meu prato — com apenas um pedaço pequeno de carne, uma colher de arroz e uma porção discreta de legumes —, além de uma cerveja gelada na outra mão. — Boa noite, chefinho — provoquei com um sorriso de canto. Ele balançou a cabeça, rindo fraco. — Aqui não, Camila. Pode tirar o "chefinho", pode tirar o "doutor", pode tirar o "senhor", pelo amor de Deus. Aqui eu sou apenas o Leo. Dei uma risada, sentando-me na borda da piscina e molhando os pés na água morna. — Eu sei, eu sei. Ele olhou para a quantidade pequena de comida no meu prato e depois deu um gole na cerveja. — Você só come isso? — perguntou, curioso. — Depois da cirurgia cardíaca, há anos, nunca mais voltei a comer como antes — expliquei com serenidade, dando um gole na minha cerveja. — Preciso cuidar muito bem da minha saúde. É sempre um pouquinho de cada coisa, tudo bem regrado. — É, eu sei... — ele respondeu, com o olhar atento e respeitoso. — Uma cirurgia cardíaca não é brincadeira. Mas você se cuida muito bem, Camila. — Tenho que cuidar, né? Mas hoje eu me permito relaxar um pouco no drink — brinquei, erguendo a garrafa em um brinde silencioso. Ele sorriu, retribuindo o gesto. O tempo foi passando. As horas voaram sem que percebermos, e logo o relógio já marcava dez da noite. A casa estava em total silêncio. Todo mundo já tinha subido para dormir e ficamos apenas nós dois ali, no calor da noite, à beira da piscina. A cerveja e os drinks já tinham começado a fazer efeito. O ar solto e descontraído deu lugar a uma coragem meio tonta, transformando nossa conversa em um jogo informal de perguntas indiretas — quase como uma brincadeira de Verdade ou Desafio. Entre um gole e outro, as perguntas iam ficando cada vez mais pessoais, lançadas no ar entre risadinhas e olhares prolongados. Tudo começou sem querer. — Tá, minha vez — falei, apoiando o queixo na mão e dando um sorriso de canto. — Qual foi a coisa mais maluca que você já fez por causa de uma paciente irritante? Leonardo deu uma risada baixa, balançando a garrafa de cerveja. — Uma vez fingi que meu bipe estava tocando para escapar de uma acompanhante que queria me pagar um jantar a todo custo — ele confessou, divertido. — Agora minha vez... Qual é o seu maior defeito trabalhando comigo? — Essa é fácil — respondi sem piscar. — Ter que fingir que não ouço quando você resmunga sozinho na sala enquanto lê prontuário. Ele gargalhou, negando com a cabeça. — Golpe baixo, Camila. Minha vez de novo: se você pudesse mudar uma única coisa no consultório hoje, o que mudaria? Olhei para ele por cima da garrafa, sustentando o olhar. — O chefe. Ele é exigente demais. — Ah, é? — Leonardo arqueou a sobrancelha, inclinando o corpo um pouco mais na minha direção. O ar entre nós pareceu mudar de temperatura. — Então me diz... Qual é o maior segredo que a minha secretária esconde de mim? Engoli em seco. O tom da voz dele tinha ficado mais baixo, mais denso. — Secretárias não contam seus segredos, doutor. — A gente combinou: aqui não tem "doutor" — ele lembrou, com um sorriso de canto que fez meu peito tremer. — E já que você não respondeu essa... eu faço outra. Leonardo ficou em silêncio por alguns segundos, girando a garrafa entre os dedos, antes de me encarar fixamente com aqueles olhos profundos. — Você já se interessou por algum dos médicos do consultório? Ou do hospital? Travei. O riso brincalhão sumiu da minha boca. O silêncio que se seguiu foi tão denso que dava para ouvir o som da água da piscina. Baixei os olhos, tentando fugir do olhar dele. Ele inclinou-se ainda mais na minha direção, surpreso com a minha reação. — Não... Sério? Ainda de cabeça baixa, sentei sobre as pernas, sem saber onde meter a cara. Sentindo o peso da minha hesitação, Leonardo se aproximou. Devagar, ele ergueu a mão e segurou meu queixo com delicadeza, me forçando a encarar seus olhos. — Eu nunca percebi que me olhava diferente? — ele murmurou, a voz rouca pela bebida e pela proximidade. — Não tinha como você perceber, Leo... — sussurrei, sentindo meu coração disparar no peito. — Você tem muitas mulheres na sua vida. Ele reduziu a distância e me beijou. Foi um beijo de cinema. Ele me puxou para o colo dele com força, enlaçando minha cintura enquanto uma de suas mãos se emaranhava nos meus cabelos. O beijo começou intenso, faminto, como se estivesse guardado há meses, e foi ficando cada vez mais profundo, me fazendo esquecer onde estávamos, a faculdade, o consultório e o mundo inteiro lá fora. O som de passos pesados ecoando na pedra da área externa rompeu o momento. Nos afastamos num pulo. Larguei o colo do Leonardo imediatamente, tentando arrumar o cabelo com as mãos trêmulas enquanto o Rogério aparecia, encarando a gente bem desconfiado. — O que é que tá acontecendo aqui, gente? Tá tudo bem? — Tá... tá ótimo! Tá tudo ótimo! — me apressei em dizer, tentando disfarçar a arfagem na respiração. — Rogério, cunhado, eu... eu já vou deitar. Olhei para o Leonardo, que tentava disfarçar a postura, com a camisa meio amarrotada e os lábios avermelhados. — Tchau, Leonardo. Até amanhã. Um sorriso contido, cúmplice e cheio de segredo surgiu no rosto dele. — Tchau, Camila... Até amanhã. Trocamos um último olhar carregado de eletricidade antes de eu me virar e subir as escadas às pressas para o quarto, sentindo minhas pernas bambas e meu coração batendo feito louco no peito.






