Capítulo 2

Camila

​Dois anos antes

​O despertador toca às seis da manhã, arrancando-me de um sono profundo.

​Por alguns segundos, permaneço deitada, olhando para o teto branco do quarto, tentando convencer meu corpo de que levantar cedo faz parte da rotina. E faz. Minha vida em Itajubá é assim: correr contra o relógio todos os dias.

​Estico a mão e desligo o despertador antes que ele toque novamente. Levanto-me devagar e caminho até a janela. O movimento da rua começa aos poucos — pessoas indo trabalhar, carros passando, a cidade despertando para mais um dia.

​Respiro fundo. Eu gosto dessa sensação. Da ideia de que estou construindo minha própria história.

​O apartamento onde moro não é exatamente meu. Ele pertence ao meu cunhado, mas ele me deixou ficar aqui enquanto sigo minha vida em Itajubá. É um lugar tranquilo, confortável e, principalmente, meu refúgio depois dos dias cansativos. Vivo sozinha. Às vezes o silêncio pesa um pouco, mas também aprendi a gostar dele.

​Depois de preparar um café rápido, organizo minha bolsa com os livros da faculdade de Direito e os documentos do consultório. Minha vida é dividida entre duas paixões que parecem disputar meu tempo todos os dias: o Direito e o meu trabalho.

​Ser secretária de Leonardo não é uma tarefa simples. Na verdade, algumas pessoas dizem que trabalhar com ele é uma prova de resistência.

​Leonardo é um dos neurologistas mais brilhantes que já conheci. Ele tem uma mente extraordinária, capaz de analisar casos complexos com uma facilidade que impressiona até outros médicos. Mas, por trás da fama e da postura séria, existe um homem que poucas pessoas conseguem conhecer de verdade.

​E, por mais que eu tente ignorar, existe também algo em mim que insiste em reparar nele.

​Ele é… um gostoso. E isso me irrita um pouco, porque não deveria ser assim. Mas é inevitável. Às vezes me pego pensando que sempre quis um doutor para chamar de meu. Alguém como ele: inteligente, seguro, intenso.

​Só que Leonardo nunca me deu bola. Nunca mesmo. Para ele, eu sou apenas a secretária eficiente que resolve tudo e mantém a vida dele organizada.

​Pego minha chave e saio do apartamento. Mais um dia começa.

​Quando chego ao consultório, destranco a recepção e ajeito os últimos detalhes antes de ele chegar. Pouco tempo depois, ouço a porta principal abrir e a figura dele preencher o ambiente.

​Sigo até a sala dele e bato duas vezes na porta.

​— Pode entrar.

​Abro a porta e encontro Leonardo analisando alguns exames sobre a mesa. Mesmo antes de olhar para mim, ele sabe que sou eu.

​— Bom dia, Camila.

​Sorrio.

​— Bom dia, doutor Leonardo.

​Ele finalmente levanta os olhos.

​— Quantas vezes preciso dizer que, quando estamos sozinhos, pode me chamar apenas de Leonardo?

​Dou um pequeno sorriso.

​— E quantas vezes eu preciso dizer que o senhor é meu chefe?

​Ele arqueia uma sobrancelha, divertido.

​— Você é uma das poucas pessoas que ainda consegue me contrariar.

​Coloco a agenda sobre a mesa.

​— Sua manhã está cheia. Consulta às oito, reunião com a equipe às dez e o senhor ainda precisa revisar aqueles relatórios que deixou comigo ontem.

​Ele suspira.

​— Eu sabia que tinha contratado uma secretária ou uma pessoa para me lembrar de viver?

​Cruzo os braços.

​— Talvez os dois.

​Pela primeira vez naquela manhã, vejo um sorriso verdadeiro surgir no rosto dele. E, por um instante, tudo parece normal.

Mais tarde, enquanto organizo alguns prontuários na recepção, ouço passos conhecidos se aproximando.

​— Camila.

​Levanto o olhar e encontro Leonardo parado ali, com a postura impecável de sempre.

​— Sim, doutor?

​Ele hesita por um segundo, como se estivesse escolhendo as palavras.

​— Hoje à noite vai ter um churrasco na casa do Rogério. Você vai?

​Sinto meu coração dar um pequeno salto, mas mantenho a expressão neutra.

​— Vou sim… mas só depois das oito. Tenho prova na faculdade.

​Ele me observa por um instante mais longo do que o normal. E eu também o observo. Há algo naquele silêncio entre nós que nunca sei nomear.

​— Certo — ele diz, por fim.

​Assinto devagar.

​— Então… eu volto para minha mesa.

​Dou um passo para trás, tentando recuperar minha postura profissional, mas sinto o olhar dele ainda em mim enquanto me afasto.

Cheguei à casa do meu cunhado, Rogério, com o corpo moído depois da prova na faculdade. O cheiro de churrasco ainda pairava no ar, acolhedor.

​Logo na entrada, encontrei minha irmã, Liz, e a abracei forte.

​— Amém que você chegou! — ela sorriu, retribuindo o abraço.

​— E meus sobrinhos? Cadê essa bagunça? — perguntei, olhando em volta.

​— Ah, seus sobrinhos já estão dormindo faz tempo — Liz respondeu com uma risada leve.

​— Que chato! Ninguém fica acordado até tarde nessa casa? — brinquei, balançando a cabeça.

​Ao lado, Renata tentava segurar o sono, enquanto o pequeno Rael já dormia profundamente no bebê conforto, sob os olhares atenciosos dela e do Rafael.

​— Essas crianças... não se fazem mais crianças como antigamente! Tudo dormindo cedo! — comentei, fazendo Liz e Renata rirem.

​Senti um beijo carinhoso na minha bochecha. Era Rogério chegando por trás.

​— Boa noite, cunhada! Chegou viva da prova? Tá tudo bem?

​— Sobrevivi, cunhado! Mas vim pela comida, tô morta de fome.

​— Fica à vontade! Se quiser, pode dormir aqui hoje, já tá bem tarde para você voltar sozinha.

​— Pode ser, tá tarde mesmo — concordei.

​— O quarto de hóspedes tá arrumado, mana — Liz avisou. — Pode deitar se quiser, ou se quiser tomar um banho de piscina para relaxar, fica à vontade.

​— Ótimo, maravilhoso! Mas primeiro: comida.

​Fui até a mesa e montei meu prato. Enquanto me servia, Anthony e Rosângela se aproximaram para se despedir do pessoal e foram embora. Em seguida, Renata e Rafael também recolheram as coisas, pegaram o bebê conforto com o Rael apagado e se despediram.

Em questão de minutos, a casa silenciou. Restavam apenas eu e Leonardo.

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