Um Doutor para chamar de Meu
Um Doutor para chamar de Meu
Por: Mara Santos
Capítulo 1

Camila

Eu estava encolhida no sofá, vestindo meu conjunto de moletom favorito e com uma manta cobrindo as pernas, enquanto navegava distraidamente pelo catálogo da N*****x.

Ouvi a porta do banheiro se abrir.

— Você ainda não se arrumou?

Levantei os olhos e encontrei Davi ajustando os punhos da camisa azul-marinho que eu mesma havia passado naquela manhã. Suspirei, puxando a coberta um pouco mais para cima.

— Acho que não vou.

Ele franziu a testa, desacelerando os passos.

— Como assim, não vai?

Desliguei a televisão e me virei completamente para ele, encarando aquele terno impecável que parecia não combinar em nada com o meu desejo de paz.

— Não estou com vontade de sair hoje.

Davi deu uma risada baixa, balançando a cabeça como se eu estivesse fazendo uma piada.

— Amor, a confraternização é importante. O pessoal do escritório inteiro vai estar lá.

Sorri de canto, tentando puxá-lo para o meu lado.

— E daí? A gente trabalha a semana toda. Faz tempo que não temos uma noite só nossa. A gente podia pedir uma pizza, comprar chocolate, colocar um filme qualquer e passar a noite debaixo da manta.

Ele terminou de ajustar o relógio no pulso.

— Você anda dizendo que eu só penso no trabalho. Hoje eu resolvi sair um pouco e você quer ficar em casa.

Levantei do sofá e caminhei até ele, descalça, sentindo o piso frio sob os pés.

— Eu não quero só ficar em casa, Davi... Eu quero ficar com você.

Por um segundo, vi sua expressão amolecer. Achei que ele fosse desistir.

Mas ele apenas respirou fundo e pegou a chave do carro sobre o aparador.

— Camila, eu já confirmei presença. O pessoal está esperando a gente.

Baixei os olhos.

Desde o começo da tarde havia uma sensação estranha e sufocante dentro de mim.

Um aperto no peito.

Uma inquietação que não passava.

— Davi...

Minha voz saiu quase como um sussurro.

Ele voltou a me olhar.

— O que foi?

Passei as mãos pelos braços, tentando afastar o arrepio que percorria minha pele.

— Desde mais cedo estou sentindo uma coisa ruim. Como se... como se a gente não devesse sair de casa hoje.

Ele sorriu, aproximou-se e segurou meu rosto entre as mãos.

— Você está impressionada, amor. É só cansaço.

Beijou minha testa.

— Vamos aproveitar a noite. A gente trabalha demais.

Forcei um sorriso.

Talvez ele tivesse razão.

Mas, quando fechei a porta do apartamento atrás de nós, aquele aperto no peito só aumentou.

O caminho até a pub foi silencioso.

A chuva fina deixava o asfalto brilhando sob as luzes dos postes. Eu observava as gotas escorrendo pelo vidro da janela, incapaz de afastar aquela sensação de que alguma coisa estava errada.

Davi cantarolava baixinho a música que tocava no rádio.

Parou o carro em um sinal vermelho, a poucos quarteirões da pub.

Sorriu para mim.

— Está vendo? Daqui a pouco você esquece essa sensação e vai se divertir.

Tentei responder, mas as palavras morreram antes de saírem.

Um forte impacto contra o vidro da janela do motorista nos fez virar a cabeça ao mesmo tempo.

Um homem usando capacete batia com violência no vidro.

Na mão, uma arma.

— Perdeu! Passa o relógio, a aliança e o celular! Agora!

Meu corpo inteiro congelou.

— Davi...

Ele levantou as mãos lentamente.

— Calma... Eu vou entregar.

Suas mãos tremiam enquanto tentava retirar o relógio do pulso.

O assaltante ficou ainda mais nervoso.

— Mais rápido!

— Estou tentando...

Tudo aconteceu em uma fração de segundo.

O disparo rompeu o silêncio da noite.

O estampido pareceu explodir dentro do carro.

Vi o corpo de Davi ser lançado contra o banco.

A mão dele foi imediatamente ao tórax.

O sangue começou a escorrer entre seus dedos.

— Davi!

Meu grito saiu desesperado.

O assaltante correu para a moto que o aguardava alguns metros atrás e desapareceu sob a chuva.

Nem percebi.

Meu mundo inteiro estava dentro daquele carro.

Soltei o cinto e me inclinei sobre ele.

— Amor... olha para mim... por favor...

Suas mãos já não conseguiam conter o sangue que encharcava a camisa azul-marinho.

Respirava com dificuldade.

Cada inspiração parecia uma luta.

Segurei seu rosto entre as minhas mãos.

As lágrimas caíam sem que eu percebesse.

— Não... não faz isso comigo...

Ele sorriu de um jeito tão pequeno que quase não existiu.

Levantou a mão com dificuldade e acariciou meu rosto.

— Me... desculpa...

Balancei a cabeça freneticamente.

— Não. Não fala isso.

Ele fechou os olhos por um segundo, como se reunir forças para continuar fosse a tarefa mais difícil do mundo.

— Você... não queria vir...

Meu peito se despedaçou.

— Não importa... fica comigo... por favor...

Sua respiração ficou ainda mais fraca.

Os dedos procuraram os meus.

Entrelaçaram nossas mãos.

— Eu... te amo...

As palavras saíram em um fio de voz.

— Eu também te amo. Muito. Então não vai embora... por favor... não vai...

Seus dedos apertaram os meus pela última vez.

Depois...

Foram perdendo a força.

Seu olhar permaneceu preso ao meu até desaparecer lentamente.

A buzina do carro ecoava sem parar.

A chuva castigava o para-brisa.

E eu permaneci ali, abraçada ao homem que amava, coberta pelo sangue dele, implorando por um milagre que nunca aconteceu.

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TatianeSonho realizado
TatianeObrigada Mara, você é divina
TatianeQue alegria poder ler aqui esse livro maravilhoso
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