Capítulo 4

Evelyn

O cinema foi incrível, vimos O Bebê de Rosemary. Eu amo filmes de terror, mais ainda filmes antigos, densos, cheios de camadas. Histórias que não explicam tudo e deixam a mente trabalhando depois. Um verdadeiro clássico cult.

Já Edward acho que não curtiu muito, porque disse que não entendeu muito bem a proposta e reclamou dos efeitos práticos.

Ele não podia ser perfeito em tudo.

Agora estamos em um restaurante japonês perto do campus, com luz baixa, cheiro de shoyu e gengibre no ar, vozes suaves ao redor. Era para ser perfeito.

Era.

Eu estou enjoada.

De novo.

O cheiro do peixe cru, que normalmente eu adoro, hoje parece forte demais. Meu estômago dá pequenas reviradas traiçoeiras e eu preciso manter o sorriso no rosto para não estragar a noite.

Eu não quero estragar isso, então respiro pelo nariz, tomo pequenos goles de água e finjo interesse exagerado no cardápio.

Também tento não pensar no depois. No futuro, formatura e em despedidas.

Mas a imagem de Valerie chorando escondida no dormitório antes de eu sair volta à minha cabeça. O jeito como ela limpou rapidamente as lágrimas quando percebeu que eu vi, com o nome de Dean preso na garganta dela.

Aquilo me deixou angustiada, porque, de repente, despedidas deixaram de ser algo distante.

Percebo então que Edward está diferente. Desde que saímos do cinema, ele parece um pouco tenso. O sorriso demora mais para aparecer, ele olha o celular várias vezes, como se estivesse esperando algo.

— Está tudo bem? — ele pergunta de repente, me observando. — Você quase não comeu.

Olho para o prato quase intacto.

— Tô bem — respondo rápido. — Só não estou com muita fome.

— Se você quiser, a gente pode comer outra coisa. — Ele franze levemente a testa.

— Não precisa. Eu estou bem mesmo. — Meu coração aperta com o cuidado.

O celular dele vibra na mesa, o som parece alto demais para o ambiente calmo.

Ele olha para a tela e seu rosto muda. O maxilar fica mais rígido e o olhar mais sério.

Não consigo me segurar.

— Aconteceu alguma coisa?

Ele demora meio segundo antes de responder, como se decidisse o quanto dizer.

— É… um problema de família.

Isso me surpreende, Edward raramente fala da família.

— Problema?

Ele solta o ar pelo nariz.

— Eu tenho uma prima desaparecida.

Meu corpo inteiro fica atento.

— Desaparecida?

— Já tem um tempo — ele continua. — E toda vez que meu pai acha que encontrou alguma pista, ele surta, cria expectativa e depois se frustra.

Eu fico em silêncio por um momento, absorvendo.

Essa é a primeira vez que ele realmente compartilha algo pessoal da família comigo. Algo real. Doloroso.

— Eu sinto muito — digo, sincera. E sinto mesmo, porque há um peso na forma como ele fala. Um cansaço que não é recente.

De repente, entendo um pouco mais do silêncio dele sobre a família, sobre o pai e sobre certas coisas que ele evita.

E, pela primeira vez na noite, meu enjoo deixa de ser o foco.

Agora é o jeito como ele segura o celular com força demais que atrai a minha atenção.

— Eu espero que vocês a encontrem — digo com sinceridade. — De verdade.

Edward me olha por um segundo mais longo, como se medisse o peso das minhas palavras.

— Eu também quero muito isso — ele responde. — Talvez isso faça meu pai ficar em paz. E… talvez ajude a gente a ter algo mais próximo de uma família de novo.

Família de novo.

A forma como ele fala deixa claro que existe uma ausência ali, um vazio antigo.

Eu não sei exatamente o que dizer. Não existe frase pronta para desaparecimento, para dor que dura anos. Então fico em silêncio por um instante, oferecendo só minha presença, e ele percebe.

— Tá tudo bem — diz, balançando a cabeça de leve. — Não quero estragar a noite com papo baixo astral.

Assinto, tentando sorrir e pensando em mudar de assunto rápido para tirar o peso da mesa. Mas ele é mais rápido.

— Depois do jogo vai ter a festa na fraternidade — ele comenta. — Quero que você vá comigo. É minha última festa na faculdade. Sei que é Megan que está organizando, mas não quero que isso seja um problema.

Última.

A palavra ecoa dentro de mim, e como um gatilho, a ficha cai de novo.

Último jogo.

Última festa.

Últimos meses.

A pergunta que eu vinha empurrando para debaixo do tapete volta, insistente. Minha ansiedade cresce, silenciosa, apertando o peito.

Antes que eu perca a coragem, falo:

— Edward… sobre a gente. — Ele me olha atento. — Nosso namoro. Como vai ser depois? A gente se vê o tempo todo no campus, passa a maior parte do tempo aqui. Eu não sei se você vai continuar em São Francisco ou se vai pra outra cidade… — Minha voz sai mais vulnerável do que eu planejava.

Ele me observa por alguns segundos e não parece irritado, só pensativo.

— Isso não é algo pra você se preocupar agora — ele diz com calma. — Eu ainda estou aqui.

Meu coração desacelera um pouco, mas não totalmente.

— Eu não pretendo sair de São Francisco nos próximos meses. Meu apartamento é perto do campus, você sabe.

Ele pega minha mão por cima da mesa e entrelaça os dedos nos meus. O toque é quente, firme, familiar.

— Foca no que a gente tem agora — ele diz.

— Tudo bem. — Eu respiro fundo e isso me alivia. Alivia mesmo.

Mas existe uma pontinha de medo ali. Pequena, mas presente. Porque “agora” não é “depois”. E ele claramente evita falar de futuro. Mesmo assim, eu escolho aceitar o que ele está oferecendo.

O presente.

— Você vai comigo?

Eu assinto com a cabeça.

— Quer ir embora? — ele pergunta.

— Quero — respondo.

Ele se inclina um pouco na minha direção.

— Eu não via a hora de experimentar a sobremesa — diz.

Sigo o olhar dele direto para o meu decote. Abro a boca, indignada.

— Deixa de ser safado.

Ele sorri, sem o menor arrependimento.

— Impossível com você sendo tão gostosa.

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