Capítulo 3

Evelyn

Viro o rosto para a entrada e vejo Edward entrando. Ele está com o treinador e dois rapazes do time, rindo de alguma coisa. Alto, confiante e ocupando espaço sem nem tentar.

Meu peito aquece na hora, mas o calor dura pouco, porque quase no mesmo instante Megan caminha na direção dele. Eu engulo em seco, sentindo a garganta apertar como se tivesse engolido um punhado de areia. Respiro fundo, devagar, tentando puxar ar para os pulmões que parecem ter encolhido. Não vou me incomodar, não vou, Megan é só uma ex. Edward é meu namorado agora, ele escolheu ficar comigo. Eu repito isso mentalmente como um mantra, mas o mantra soa fraco, ecoando vazio no peito.

Valerie se inclina para a frente, seus olhos grudados na cena como se fosse um filme de suspense.

— O que aquela sonsa quer com o Edward? — ela sussurra, indignada. — E você vai ficar aí parada olhando?

Eu forço um sorriso, daqueles que uso quando não quero dar o braço a torcer.

— Edward é adulto, Valerie. Eles devem ter terminado de maneira amigável. Não é como se eu fosse sair correndo para marcar território.

Samantha solta uma risadinha baixa, mas sem humor.

— Seu sangue frio é de dar inveja, amiga. Sério.

Eu sorrio de volta, um sorriso pequeno, educado, mas por dentro estou tremendo. As mãos estão frias e meu estômago revira de novo, a insegurança se enrolando no meu peito como uma cobra. Eu odeio isso. Odeio me sentir pequena e vulnerável, como se qualquer coisa pudesse me derrubar. Eu, que sempre respondo na mesma moeda, que não aguento desaforo de ninguém. Mas com Edward... com ele eu fico fraca. E odeio admitir isso até para mim mesma.

Ela toca o braço de Edward e diz algo, ele assente, e ela continua falando e ele olhando para ela. Então Megan dá um tchauzinho delicado para Edward, seus dedos balançando no ar como se fosse uma despedida de rainha, e dá aquele sorriso perfeito de comercial ao sair rebolando, com Shantal colada nela como uma sombra fiel. O refeitório parece prender a respiração por um segundo, depois volta ao barulho normal. Edward vira o rosto devagar, os olhos esverdeados varrendo o salão até encontrarem os meus.

Assim que nossos olhares se cruzam, meu coração dá um pulo violento. Eu viro o rosto rápido demais, fingindo interesse na garrafa de água com gás como se ela fosse a coisa mais fascinante do mundo. Minhas bochechas queimam. Droga, Evelyn, se controla.

Valerie cutuca meu braço.

— Ele tá vindo pra cá. Melhor a gente ir antes que vire novela mexicana aqui.

Samantha já está pegando a bolsa.

— A gente se vê à noite, quando você voltar do estágio, tá? Se cuida, viu? E vai ao médico semana que vem, sem desculpa, estamos de olho.

Elas se levantam e saem juntas, lançando olhares preocupados por cima do ombro. Eu fico aqui, sozinha na mesa, com o prato de salada à minha frente, tentando respirar normal.

Edward chega segundos depois. Sinto o cheiro dele antes de ver, aquela mistura de colônia amadeirada e algo que é só dele. Ele se inclina e beija minha bochecha devagar, seus lábios estão quentes contra minha pele fria.

— Oi — diz, com a voz baixa e carinhosa, como sempre.

Ele puxa a cadeira ao meu lado e se senta, seu braço roçando no meu de leve, casualmente, como se nada tivesse acontecido. Como se Megan não tivesse acabado de tocar nele. Que ódio. Odeio sentir ciúmes. E eu nem sou ciumenta.

Eu viro o rosto para ele, forçando um sorriso natural, ou pelo menos o mais natural que consigo agora.

— Oi — respondo, minha voz saindo mais suave do que eu queria.

Ele ri baixo, daqueles risos que normalmente me derretem, e passa o braço por trás da minha cadeira, os dedos roçando minha nuca de leve.

— Você não comeu nada? — Ele olha para o prato e franze a testa. — Está tudo bem?

Eu dou de ombros, tentando soar despreocupada.

— Estou sem fome. Estômago chato hoje. Nada de mais

Ele me observa por um segundo a mais, como se pudesse ver através de mim, mas não insiste. Em vez disso, pega minha mão por baixo da mesa, entrelaça os dedos nos meus e aperta de leve.

— Então me conta como foi a aula. Ou melhor, me conta o que você está pensando com essa cara de quem tá resolvendo o problema da fome no mundo.

Eu rio, uma risada curta e forçada, mas que ajuda a aliviar um pouco a tensão no peito. Não falo de Megan, não pergunto o que ela queria e nem digo que meu coração está acelerado de ciúme e medo, em vez disso, aperto a mão dele de volta e finjo que está tudo bem.

Porque está.

Ele me observa por mais um segundo, seus olhos esverdeados fixos nos meus como se pudesse ler cada pensamento que eu tento esconder.

— Você está bem? — pergunta novamente, com a voz baixa e cuidadosa.

Eu aceno rápido, forçando um sorriso que espero que pareça convincente.

— Estou sim. Tudo ótimo. — Ele não parece convencido, mas não insiste, então eu viro o jogo. — E você? Como tá se sentindo com esse clima de despedida?

Edward dá de ombros, o canto da boca subindo em um sorriso meio melancólico.

— Ainda não caiu a ficha. Parece que ontem eu estava entrando no time, e agora... último jogo. Vai ser estranho não ter mais isso. — Ele olha para mim de novo, o olhar suavizando. — Mas você tá linda hoje.

O elogio me pega de surpresa, como sempre. Sinto o calor subir pelas bochechas, aquele rubor traiçoeiro que eu odeio porque me deixa vulnerável. Baixo os olhos por um instante, brincando com a alça da bolsa no colo.

— Obrigada — murmuro, envergonhada, mas sorrindo de verdade dessa vez.

Me aproximo um pouco mais, inclino o corpo e dou um beijo rápido nos lábios dele, leve, quase tímido, mas suficiente para sentir seu gosto familiar e acalmar um pouquinho o turbilhão dentro de mim.

— Vou sentir falta disso — diz ao se afastar. — Do vestiário, da adrenalina, dos caras gritando no banco. Tudo.

Eu assinto, sorrindo, mas por dentro uma pergunta maior surge, pesada: e depois da formatura? Ele já pensou no nosso relacionamento? No que vai ser de nós quando as aulas acabarem de vez? A imagem de Megan surge sem permissão na minha mente, o sorriso dela para ele, o jeito confortável como ele olhou de volta, como se fosse algo natural, algo que ainda existe entre eles. Pigarreio, olhando para o celular para disfarçar.

Por sorte, já deu a minha hora, então me mexo na cadeira, fazendo menção de me levantar.

— Preciso pedir um carro para ir ao estágio. Não quero chegar atrasada.

Edward segura minha cintura com delicadeza, seus dedos firmes mas gentis, me impedindo de sair.

— Ei, o que houve?

— Nada — digo rápido demais. — Só não quero me atrasar, senão o Clark e o Owen vão ficar fazendo piadinha o dia inteiro, e eu não estou no clima pra isso.

Ele me observa, e eu vejo o momento exato em que ele decide tocar no assunto que eu estava evitando.

— Foi por causa da Megan? Ela só veio falar que a festa depois do jogo vai ser na fraternidade. Nada além disso. Quando a gente terminou, combinamos de agir como pessoas civilizadas, como amigos. Só isso.

Eu sorrio, um sorriso educado e controlado.

— Não se preocupa com isso, Edward. Eu entendo perfeitamente.

E eu entendo mesmo. Entendo que ex-namorados podem ser amigos, que não precisa ser guerra declarada. Mas o desconforto ainda está aqui, uma pontada fina no peito que eu não consigo ignorar. Não quero ser imatura, não quero fazer cena de ciúmes e nem ser aquela garota que surta por causa de uma ex. Então engulo tudo e mantenho o sorriso.

— Você não precisa ficar com ciúme — ele completa, com a voz baixa.

Eu reviro os olhos, tentando soar leve.

— Eu não estou com ciúme de você.

— Tem certeza? — Ele ergue uma sobrancelha, divertido.

— Certeza absoluta — respondo, erguendo o queixo. — Eu não sou do tipo ciumenta.

Edward ri baixo, aquele riso rouco que me desarma.

— Bom saber, porque eu sou do tipo ciumento. Pode ter certeza de que você vai saber quando eu estiver com ciúme.

Eu dou uma risada genuína dessa vez, o som escapando antes que eu consiga segurar. Ele aproveita, me puxa pela nuca e me beija de verdade, lento e profundo, como se quisesse apagar qualquer dúvida que eu tenha. Quando nos afastamos, eu estou um pouco sem fôlego.

— Tá, agora eu tenho que ir mesmo — digo, ainda sorrindo.

— Eu te levo — ele responde, já se levantando.

— Não precisa. Você deve ter coisa mais importante pra fazer.

Ele me olha como se eu tivesse dito algo absurdo.

— Nada é mais importante que a minha namorada.

Meu coração dá um pulinho, e eu não consigo evitar o sorriso bobo que se espalha no rosto. Nós nos levantamos juntos, eu jogo a bolsa no ombro, e saímos do refeitório lado a lado. Enquanto caminhamos pelo corredor lotado, ele passa o braço pela minha cintura, me puxando para mais perto.

— Quero te levar a um lugar à noite — ele diz, casual.

Eu viro o rosto para ele, curiosa.

— Onde?

Ele aperta minha cintura de leve, e por um momento, só por um momento, o desconforto some.

— Um lugar que tenho certeza de que você vai curtir...

— Me fala onde, por favor! — Junto as mãos fazendo beicinho.

Chegamos ao estacionamento da faculdade, o sol da tarde batendo quente no asfalto e o ar carregado daquele cheiro de grama recém-cortada misturado com escapamento de carro.

— Vi que está tendo uma exposição de filmes clássicos no cinema ali perto do campus. Sessão especial, tela grande, pipoca de verdade. E como você disse que gosta de coisas velhas...

Eu finjo choque, arregalando os olhos e levando a mão ao peito dramaticamente.

— Coisas velhas? É isso que você pensa de mim? Alguém que gosta de coisas velhas?

Ele pisca, confuso por um segundo, depois ri e ergue as mãos em rendição.

— Não, não é isso! Quer dizer... as coisas antigas são melhores que as de hoje, né? Filmes clássicos têm alma, as máquinas fotográficas antigas que você coleciona têm história... Eu quis dizer que combina com você. No bom sentido!

Eu não aguento e gargalho alto, o som escapando livre, aliviando um pouco o nó no peito. Meu riso ecoa no estacionamento quase vazio, e eu balanço a cabeça, ainda rindo.

— Estou zoando você, seu bobo. Eu sei exatamente o que você quis dizer.

Ele percebe a brincadeira, seu rosto relaxando em um sorriso aliviado e malicioso ao mesmo tempo. Antes que eu consiga dizer mais alguma coisa, ele me puxa pela cintura com mais força, me prensando contra a porta do carro dele, o metal ainda quente do sol contra minhas costas, se fundindo com o calor do corpo dele colado ao meu. Seus lábios encontram os meus num beijo urgente e profundo, daqueles que apagam o mundo ao redor por alguns segundos. A mão dele sobe pela minha nuca, os dedos se enroscando no meu cabelo, e eu me entrego, as mãos apertando a camisa dele como se precisasse me segurar nele para não cair.

Quando ele se afasta, só o suficiente para respirar, com a testa encostada na minha, ele murmura contra minha boca:

— Você me mata quando ri assim.

Eu sorrio, ofegante, meu coração batendo forte por motivos bem melhores agora

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