Senhor Elmahdy, eu...eu não sou quem está pensando.
Minutos depois, enquanto tomamos café, estou contando a Ayla o que sei. Ela é minha vizinha e, aparentemente, minha terapeuta não-remunerada.
—Allah! Ela não poderia ter feito isso! — Ayla exclama, chocada. Ela é a única pessoa que ainda se choca com as atitudes de Layla.
—É, mas fez. Agora está fugindo das consequências. Eu sou totalmente contra. Ela deveria ter ficado e encarado o problema de frente e conversado com o rapaz. Mas não! Está fugindo de novo. Porque, claro, fugir é muito mais dramático e exige menos esforço mental.
—O que tanto ela teme?
Estremeço com a pergunta de Ayla.
—Não sei. Só sei que ela não quer encará-lo. Talvez o medo de ter que admitir que estava errada seja maior do que o medo de um Sheik vingativo.
—Ela deve ter deixado o rapaz em maus lençóis.
—Deve —digo pensativa. —Mais café? — Mudar de assunto é a minha tática de sobrevivência favorita.
—Não, obrigada. E você? Faz tempo que não conversamos. Novidades?
Sorrio pensando em Omar. O único drama que eu permito na minha vida é o drama interno de um flerte que não avança.
—Contrataram um novo professor. Ele é muito bonito, charmoso. Temos trocado olhares.
—Até que enfim uma novidade.
—É, mas não gere muitas expectativas. O rapaz é devagar. Para você ter uma ideia, saímos de férias e ele nem sequer pegou meu telefone. Ele deve ter a mesma iniciativa de uma lesma em dia de chuva.
—Por que você não se aproximou dele, então? Tem homens, querida, que precisamos dar uma forcinha ao destino.
Balanço a cabeça em negativa.
—Não gosto disso. Quando as coisas têm que acontecer, acontecem sem precisar forçar nada. Se eu tiver que fazer o trabalho dele, qual é a graça?
—Por isso está sozinha. Você não pode pensar assim. Você é tão bonita. Não jogue sua juventude fora.
Tenho vinte e dois anos e me considero nova ainda para correr atrás de um homem que não me dá valor. Ou que não tem a decência de pedir meu número.
Para não contrariar Ayla, digo, mas não muito certa disso:
—Quando voltarem as aulas vou tentar conversar com ele.
—Quando suas férias acabam?
—Só volto no começo de fevereiro. Tenho dois meses pela frente.
—Quem sabe esse professor gostosão não ficou as férias toda pensando em você e quando voltar ele resolva tomar uma atitude?
Dou de ombros, nem esquentando minha cabeça com isso. Eu acredito no Maktub. “O que tem que ser, será!”. E se não for, significa que o universo me poupou de mais um drama desnecessário.
Maya
Abro minha carteira para pagar os pães fresquinhos que eu comprei na padaria de Salim.
Antes de retirar o dinheiro, recebo um choque ao me deparar com o nome de Layla naquela que deveria ser minha identidade.
Não acredito que Layla fez isso comigo! A audácia! O gênio do mal!
Retiro o documento da minha carteira.
Por isso ela veio me ver! Ela queria trocar os documentos para não ser descoberta. Com certeza deve ter levado meu passaporte também! Ela não fugiu apenas de um homem, ela fugiu da própria identidade, e me deixou a bucha.
Dou o dinheiro para a moça do caixa e saio da padaria possessa de raiva. Minha irmã não é apenas impulsiva, ela é uma criminosa de baixo escalão.
Depois que nosso pai morreu, minha irmã se desvirtuou de vez. Até então, ele a controlava, mas com a morte dele ela se viu livre como um passarinho. Um passarinho que não sabe voar e se j**a de um penhasco.
Ela já demonstrava uma certa revolta quando nossos pais se separaram. Isso ocorreu quando tínhamos nove anos.
Como é costume do nosso povo, na separação, os filhos ficam com o pai. Fomos criadas então pela nossa falecida avó que praticamente fez o papel de mãe enquanto nosso pai trabalhava.
Nossa mãe americana saiu de nossas vidas e seguiu em frente sem olhar para trás. Com a morte de nosso pai, ela tentou se aproximar, mas Layla a encheu de acusações, despejou toda sua ira e a colocou para correr.
Eu não estava neste dia, estava dando aulas.
Fiquei triste com a atitude da minha irmã. Fiquei uma semana sem falar com ela. Layla deveria ter pensado em mim. Ela não me perguntou se eu queria ou não falar com nossa mãe. Ela sempre age como se fosse a única pessoa no mundo com sentimentos.
Mais tarde, nossa ami (mãe) nos procurou novamente e eu finalmente a conheci. Layla dessa vez não a tocou como antes, ela se trancou no quarto e finalmente pude conversar com ela, conhecer a sua história, a sua versão sobre a separação.
Interessada, ouvi atentamente suas palavras quase sem piscar.
Segundo minha mãe, ela não enxergava mais a pessoa divertida, charmosa que era antes de se casar com nosso pai. Ela nunca imaginou que ele seria assim. Tão introspectivo, tão pacato. A rotina caiu como um manto na vida deles e meu pai não fez questão nenhuma de mudar isso.
Quando ele começou a ver a insatisfação em seus olhos, ao invés de mudar, ele se tornou inseguro e isso o levou a ter acessos de ciúme.
Começaram então a brigar por qualquer coisa, às vezes pelas coisas mais idiotas.
Mamãe até tentou anular seus desejos, seus sonhos por nós, dizendo para si mesma que ele tinha tido um dia difícil. Mas um dia eles brigaram feio e ele lhe bateu. Isso foi a gota d’água. Minha mãe pegou suas malas e com muita dor no coração saiu da vida dele.
Mamãe então refez sua vida com um homem bom, não tão bonito quanto nosso baba, mas um homem com sede de viver como ela. Emocionada, disse que não teve filhos com ele; que se sentiria culpada caso tivesse, ela já tinha duas filhas lindas.
Hoje, diferente de Layla, mantenho contato com nossa mãe. De vez em quando vou na casa dela e às vezes ela vem me visitar também. Ela mora em Londres, pertinho de minha irmã. O sonho dela é um dia poder conversar com Layla e tentar uma reaproximação.
Engraçado, Layla tem muito de nossa mãe, a mesma sede de viver e mesmo assim ela não a perdoa de jeito nenhum. Acredito até que foi isso que levou minha irmã a deixar Rashid. Ela não quis cometer o mesmo erro que condena em Isadora, quando saiu da vida de nosso pai tardiamente deixando duas filhas para trás. Ou talvez ela só tenha percebido que a vida de princesa no Egito era mais chata do que a vida de recepcionista em Londres.
Pingos de chuva interrompem meus pensamentos e eu aperto meus passos na calçada.
Minutos depois o hijab está encharcado e como estou perto de casa o retiro da cabeça.
Abro o portão de casa com rapidez por causa dos pingos pesados e corro até a porta de entrada. Nesta hora escuto um carro estacionar em frente à minha casa e a porta se abrir e se fechar com força, mas não me viro para ver quem estacionou, pois a chuva está bem pesada.
Com uma mão seguro o lenço molhado enquanto com o braço aperto o saco com os pães contra meu corpo, a outra mão uso para enfiar a chave na fechadura.
Tão logo alcanço o lado de dentro da casa, sou empurrada por alguém. Assustada eu me viro e dou com um homem alto, vestido com um terno negro fechando a porta atrás de nós. Seu perfume imediatamente invade o ambiente e posso dizer que é maravilhoso. Cheiro de vingança cara e importada.
Meu coração dispara quando seus olhos se chocam com os meus.
Allah! Rashid! O drama da minha irmã acaba de invadir a minha sala de estar.
A beleza do homem é gritante e eu logo entendo por que minha irmã ficou deslumbrada por ele. Ele é o tipo de homem que faz você esquecer que ele é um potencial problema diplomático.
Seus cabelos são negros como carvão e combinam perfeitamente com seu rosto.
Os traços árabes são os mais belos que eu já vi na vida. Seu rosto é simetricamente perfeito. A boca, o nariz, o maxilar quadrado, as maçãs do rosto salientes e os olhos quase negros combinam perfeitamente entre si o deixando com uma aparência bem máscula. Um catálogo de beleza árabe, só que irritado e molhado.
Ele sorri para mim, mas não é um sorriso de prazer por me ver, pois claro que ele pensa que sou Layla. Seu sorriso é jocoso, amargo. O sorriso de quem acabou de gastar uma fortuna em passagens aéreas para caçar a ex-noiva fujona.
—Achou que não encontraria seu esconderijo, minha ratinha?
A voz profunda reverbera no meu corpo. O sotaque carregado surte em mim como um erógeno irresistível e tudo isso somado a sua gritante beleza tiram minhas forças, meu ar e eu fico o encarando embasbacada, mesmo sabendo que preciso reagir. O Maktub acaba de me entregar um problema de terno e sotaque.
Ele avança na minha direção e isso me faz desencantar e dar um passo para trás.
— Sabe como me senti quando foi embora me deixando um bilhete? Um verdadeiro otário.
Sua voz agora num volume bem alto reverbera não só no meu corpo, mas em toda a minha pequena sala.
— Senhor Elmahdy, eu... eu não sou quem está pensando.
—Senhor Elmahdy? —ele diz e ri alto. Allah! Até a risada dele é linda. —Avançamos e muito dessa fase, não acha?
Ele está flertando com a pessoa errada, e eu estou gostando.