"Uma garot de sangue árabe, mas que se acha moderna só porque mora em Londres e usa roupas justas, com um egípcio que mora num palácio e tem uma noiva prometida. O que poderia dar errado?" Eu me questionei, já sabendo a resposta, enquanto minha irmã gêmea listava as "qualidades" de Rashid Bar Elmahdy.
Educado, prestativo e, o mais importante, absurdamente rico. Engenheiro petrolífero, o pacote completo. Um árabe vestido de europeu, o que, como sabemos, significa apenas que ele sabe usar um terno caro antes de te trancar num palão.
O homem de boas maneiras e boa conta bancária conquistou Layla, que, como sempre, confundiu a fachada com o conteúdo. Não demorou muito para ela embarcar para o Egito, ansiosa para conhecer a família e, presumivelmente, o cofre.
Eu não o conheci. Fiquei sabendo de toda a epopeia por telefone, quando Layla me ligou contando as novidades com a empolgação de quem acaba de ganhar na loteria e não de quem está prestes a arruinar a vida de um terceiro.
Eu não moro em Londres como Layla. Eu nunca saí da minha cidade natal. Vivo numa comunidade árabe em Harrow, um mundo paralelo onde as pessoas ainda entendem que tradição e "modernidade" (a versão de Layla para ir a festas) não se misturam como água e azeite.
Sou formada em Letras com licenciatura em árabe-egípcio. Trabalho como professora numa escola particular ensinando a língua. Ou seja, eu sou a gêmea que realmente entende o que está rejeitando, ao contrário dela.
Meu falecido avô era egípcio. Ele permaneceu na Inglaterra por causa da minha avó. Eles tiveram meu pai, que recebeu a língua natal deles e os costumes, que ele também nos passou. Costumes que Layla convenientemente esquece quando o assunto é balada, mas lembra na hora de usar a "herança cultural" como desculpa.
—Você mal ficou aqui. Faz tempo que não nos vemos — digo, enquanto assisto Layla fazer as malas. Pela velocidade, ela estava fugindo de algo mais sério que uma multa de trânsito.
—Eu avisei que só estava de passagem.
Eu seguro seu braço direito.
—Você está fugindo de alguma coisa? Está fugindo do seu ex? —questiono, porque com Layla, a resposta é sempre "sim".
—É complicado.
Eu seguro os dois braços da minha irmã gêmea.
—Sente-se um pouco e me explica direito essa história. Até agora você tem evitado o assunto. O que aconteceu afinal? A versão "conto de fadas" já deu, agora quero a versão "documentário policial".
Layla me encara ofegante.
—Rashid lutou por mim. Ele foi contra a retrógrada família dele e eu não permaneci ao seu lado. É isso.
—Sim, você me contou que eles foram contra no namoro de vocês, mas e daí? Não deu certo e pronto. Ele precisa entender isso. E você precisa entender que a vida não é um filme da Disney onde o príncipe abandona o reino por você.
—É mais complicado do que isso —ela me diz e volta a arrumar suas malas.
Eu seguro seu braço.
—Para! E conversa direito comigo! Não foge do assunto! Conte-me tudo desde o início. Você me contou por alto. Sente-se e conte sua história. Eu preciso saber para entender o que está acontecendo. E para poder te julgar com propriedade.
Ela respira fundo.
—Tudo bem. Eu te contarei todos os detalhes de como tudo aconteceu.
—Ótimo.
—Como sabe, nos conhecemos no hotel que trabalho como recepcionista. Rashid estava nos Estados Unidos por causas dos negócios da família. Foi paixão à primeira vista. Tão logo eu o avistei senti um fogo me queimando por dentro. Fiquei encantada com ele. Seu sorriso, sua voz cheia de sotaque, suas boas maneiras...
Eu a corto:
—Avança essa parte. Pule o clichê e vá direto para a parte em que você percebe que ele não era o que parecia.
Ela respira fundo e continua:
—Atraída por seu magnetismo, eu flertei abertamente com ele, deixando muito claro meu interesse. Mesmo com troca de olhares e sorrisos distribuídos por mim, já que ele era muito reservado. Rashid não se achegava, eu via claramente que ele relutava e eu não entendia porque, pois eu sentia que de alguma forma eu o abalava. Nossos olhos sempre se demoravam um no outro mais do que devia, sabe.
—E?
—Não satisfeita com a situação, eu dei um jeito de me aproximar dele. Eu notei que Rashid saía todos os dias no mesmo horário para correr. Ele usava a pista de corrida do hotel. Munida dessa informação, no meu dia de folga saí para uma caminhada noturna, quando ele estava vindo em minha direção simulei uma queda com uma falsa entortada de pé. Rashid imediatamente parou de correr e me prestou ajuda. Bem, o que aconteceu é que ficamos próximos demais. Olho nos olhos e ele finalmente me beijou. Allah! Foi intenso. Fogos explodiram em nossas cabeças, a química rolou muito forte entre nós...
—E? — Eu não conseguia acreditar que ela usou a tática da "donzela em perigo" com um homem que provavelmente tem seguranças. Gênio.
Ela respira fundo.
—Rashid me convidou para sair e não nos desgrudamos mais. Todos os dias depois do meu trabalho ele me pegava para jantar. Uma semana depois Rashid se mostrou disposto a ficar comigo e me assumir. Então embarcamos juntos para o Egito. Ele enfrentou sua família e me impôs como sua namorada. No dia seguinte procurou o Sheik Abdula e desfez seu compromisso com sua prometida, uma jovem chamada Nádia.
Prometida?
Eu meneio a cabeça, não desolada com a atitude dela, mas com a previsibilidade da situação. Layla sempre consegue o pacote completo de drama.
—Então ele era prometido a alguém?
—Sim, desde sua adolescência as famílias tinham esse acordo fechado. Inclusive ele estava prestes a ficar noivo.
Fico ainda mais desgostosa com tudo isso.
—Então você o iludiu, dizendo que ficaria com ele, o fez terminar com a moça escolhida pela família, que agora deve estar traumatizada, e terminou tudo com ele? Você é um desastre ambulante, Layla.
Ela me olha com tristeza.
Essa tristeza não combina com ela... Layla é prática demais. Deve ter gostado do rapaz realmente. Ou do palácio.
— Exatamente. Fiz isso quando o homem com atitudes tão europeias se revelou. Ele pretendia morar no Egito e não aqui como eu imaginava. Mesmo desgostosa com isso, fui conhecer sua família no Egito. Quando conheci o lugar e o palácio que ele morava, fiquei encantada. Mas não demorou muito para eu cair numa nova realidade.
—Que realidade?
—Ao tipo de vida que eu levaria ao lado dele. Logo ele começou impor roupas que não apreciava. Fora a pouca atenção que Rashid dispensava a mim, ele mais trabalhava do que ficava ao meu lado. Meus dias solitários me fizeram aprofundar ainda mais na percepção da minha condição. Eu me dei conta que estaria longe de casa e todas as amizades que fiz em Londres. Consequentemente das festas que tanto aprecio. Conclusão: eu não me adaptei.
—Layla! Claro que seria assim! O que esperava? Que ele transformasse o palácio num pub de Londres? Então você terminou tudo e o que aconteceu depois?
—Na verdade eu deixei um bilhete e fugi.
—Você deixou um bilhete e fugiu? Você é uma adulta, não uma adolescente que roubou o carro do pai!
—Sim. Eu não consegui encará-lo de frente e fugi. Mas não esperava que ele me ameaçasse.
—Ele te ameaçou?
—Sim. Ele me ligou quando eu já estava já em Londres. Disse que eu pagaria caro por tê-lo deixado dessa maneira, que não ficaria assim.
— Allah! Não é para menos. Ele foi contra o desejo de sua família de se casar com essa tal de Nádia, lutou por você, e você fugiu, deixando um bilhete. Você não só partiu o coração dele, como também o humilhou publicamente. O que você esperava? Um cartão de agradecimento?
Ela j**a a última roupa na mala e olha para mim.
—Rashid é muito envolvente. Ele me faria uma lavagem cerebral. Tenho certeza de que ele me faria ceder. Aquele homem é o diabo sedutor em pessoa. Mas eu me conheço muito bem, mais para frente eu lamentaria muito. Eu não consigo mais viver do jeito que vocês vivem. Seria uma prisão voltar a viver dentro dos costumes.
Ela fecha a mala, beija meu rosto e sai antes que eu possa lhe dizer alguma coisa... Como, por exemplo, que ela é a única pessoa que consegue transformar um conto de fadas em um desastre diplomático.
—Hei, espera. Onde você ficará?
—Na casa de uma amiga.
—Que amiga?
—Uma que você não conhece e melhor não saber.
Eu seguro seu braço.
—Allah! Mas para que tudo isso? Fica aqui. Ele nunca te achará aqui. A menos que ele tenha acesso a um bom serviço de rastreamento, o que, sendo ele, é bem provável.
Ela ri.
—Você não conhece Rashid Bar Elmahdy —ela diz e sai.
Eu a sigo até ela sumir pela porta, nesta hora minha vizinha Ayla entra na sala. Eu a convidei para tomar café conosco, não esperava que minha irmã partiria tão cedo...
—Nossa! Sua irmã passou por mim como um foguete. Vocês brigaram? Por isso ela foi embora?
Eu balanço a cabeça em negativa ainda pensativa.
"Ela não deveria ter feito isso com o rapaz! Sabia que ia dar merda! Eles têm atitudes liberais aqui, mas no país deles é bem diferente. A própria cultura milenar exige isso. E Layla, como sempre, achou que podia reescrever a história com um beijo e uma simulação de queda."
—Não —digo triste com essa situação —ela está indo embora por outro motivo.
—Por que ela não ficou mais tempo com você? Ela mal acabou de chegar? Vocês não se veem faz tanto tempo?
—Sente-se que eu vou lhe contar tudo. E prepare o café, porque essa história é longa e cheia de decisões estúpidas.