Capítulo 3

Aurora

Eu tinha uma regra muito simples para a minha vida.

Não criar problemas onde eles não existiam.

Era uma regra útil.

Principalmente trabalhando no Grupo Monteiro.

Porque, naquele lugar, sempre existia alguém disposto a transformar uma pequena situação em um grande problema.

Uma reunião que atrasava.

Um contrato que precisava de ajustes.

Um cliente que mudava de ideia no último minuto.

A diferença era que eu não podia me dar ao luxo de perder a calma.

Meu trabalho era justamente manter tudo funcionando.

E, naquela manhã, parecia que o universo tinha decidido testar minha paciência.

— Me diga que você conseguiu.

Lívia apareceu ao lado da minha mesa antes mesmo de eu terminar de abrir o computador.

Olhei para ela.

— Bom dia para você também.

— Bom dia. Agora responde.

— Consegui o quê?

Ela arregalou os olhos.

— A apresentação do conselho.

Suspirei.

— Sim, consegui.

Ela colocou a mão no peito.

— Graças a Deus.

— Você estava preocupada?

— Eu estava preocupada por você.

Peguei minha agenda.

— Isso é mentira.

— É parcialmente mentira.

Sorri.

— Pelo menos você é sincera.

Lívia puxou uma cadeira e sentou na minha frente.

— Você sabe que hoje vai ser um daqueles dias, né?

Olhei para a tela do computador.

— Todos os dias aqui são "um daqueles dias".

— Justo.

Ela olhou em direção à sala de Leon.

— Ele já chegou?

Assenti.

— Há vinte minutos.

— Claro que chegou.

Balancei a cabeça.

— Você tem uma implicância muito específica com o horário dele.

— Não é implicância.

Ela fez uma pausa.

— É curiosidade.

— Sobre?

— Sobre como alguém consegue gostar tanto de trabalhar.

Ri baixo.

— Talvez ele apenas seja responsável.

— Essa é uma palavra muito bonita para "vive dentro da empresa".

Ignorei.

Apesar de achar engraçado.

---

A manhã começou tranquila.

O que, naquela empresa, normalmente significava que alguma coisa ainda estava para acontecer.

Eu conferi a agenda de Leon, organizei os documentos que seriam necessários para as reuniões e respondi alguns e-mails.

Tudo dentro do esperado.

Até meu telefone tocar.

— Senhorita Duarte.

Reconheci a voz imediatamente.

— Sim, senhor Monteiro?

— Preciso que venha até minha sala.

Peguei um bloco de anotações.

— Agora?

— Sim.

Levantei.

— Certo.

Desliguei.

Lívia me olhou.

— Problema?

— Não sei.

— Essa é uma resposta preocupante.

— É apenas uma reunião.

Ela estreitou os olhos.

— Quando alguém fala "é apenas uma reunião" geralmente nunca é apenas uma reunião.

— Você assiste filmes demais.

— E você trabalha demais.

Não respondi.

Porque talvez as duas coisas fossem verdade.

---

Bati na porta.

— Entre.

Entrei na sala de Leon.

Como sempre, tudo estava exatamente no lugar.

A mesa organizada.

Os documentos alinhados.

Nada parecia fora de posição.

Leon estava de pé próximo à janela, segurando alguns papéis.

— Duarte.

— Senhor Monteiro.

Ele indicou a cadeira à minha frente.

Sentei.

Por alguns segundos, ele apenas analisou os documentos.

Aquilo era algo que eu já tinha aprendido sobre ele.

Leon nunca falava antes de ter certeza do que queria dizer.

— Preciso da sua ajuda com uma situação.

Franzi levemente a testa.

Não era comum ele falar daquela forma.

— Claro.

Ele colocou uma pasta sobre a mesa.

— Quero que revise isso com atenção.

Peguei a pasta.

— Algum problema específico?

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

— Ainda não.

Abri o documento.

Era um conjunto de informações empresariais.

Nada parecia fora do normal.

— Posso perguntar do que se trata?

Ele assentiu.

— Uma negociação importante.

Continuei lendo.

— Com investidores?

— Sim.

Fiz algumas anotações.

— E qual é o prazo?

— Quero uma análise até amanhã.

Assenti.

— Vou fazer.

Ele observou minha reação por alguns segundos.

— Duarte.

Olhei para ele.

— Sim?

— Eu escolhi você porque sei que é discreta.

A frase chamou minha atenção.

Não pela confiança.

Mas pela forma como ele disse.

Leon não costumava elogiar diretamente.

— Entendi.

— Preciso que continue sendo assim.

Assenti.

— Pode confiar em mim, senhor Monteiro.

Ele fez um breve movimento com a cabeça.

— Eu sei.

---

Voltei para minha mesa com a pasta.

Lívia percebeu imediatamente que algo tinha acontecido.

Ela sempre percebia.

— O que era?

Coloquei os documentos na mesa.

— Trabalho.

— Aurora.

Olhei para ela.

— Lívia.

Ela suspirou.

— Você sabe que eu odeio quando você usa meu próprio tom contra mim.

Sorri.

— Eu aprendi com você.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos.

— Isso foi assustador.

---

Passei boa parte do dia analisando os documentos.

Era um assunto importante.

Eu conseguia perceber isso.

Não porque Leon tivesse explicado muito.

Ele nunca explicava mais do que o necessário.

Mas porque a forma como ele se comportava dizia bastante.

No final da tarde, quando eu estava quase terminando, recebi uma ligação.

Dessa vez, não era Leon.

Era Beatriz.

Atendi imediatamente.

— Oi.

— Você ainda está trabalhando?

Olhei para a tela.

— Talvez.

— Aurora.

— Eu sei.

Ela suspirou do outro lado.

— Você comeu?

Parei.

— Sim.

Silêncio.

— Aurora.

— Eu vou comer.

Ela riu.

— Eu sabia.

— Como?

— Porque você sempre esquece quando está concentrada.

Sorri.

— Você é muito mandona.

— Alguém precisa ser.

Despedimos-nos alguns minutos depois.

Era estranho como uma ligação simples conseguia melhorar meu dia.

Talvez porque Beatriz fosse uma das poucas pessoas que não esperava nada de mim além de ser eu mesma.

---

Quando terminei o relatório, já estava anoitecendo.

Enviei os arquivos para Leon e comecei a organizar minha mesa.

Eu estava prestes a sair quando a mensagem apareceu no computador.

Senhor Monteiro: Preciso falar com você.

Fiquei parada por alguns segundos.

Não era comum.

Normalmente, tudo era resolvido por e-mail ou durante o expediente.

Olhei para o relógio.

Quase oito horas.

Respirei fundo.

Peguei minha bolsa novamente e caminhei até a sala dele.

Bati.

— Entre.

Entrei.

Leon estava sentado atrás da mesa.

Dessa vez, não havia documentos espalhados.

Apenas uma pasta fechada.

Ele indicou a cadeira.

— Sente-se, Duarte.

Sentei.

E, pela primeira vez em três anos trabalhando com ele, percebi que aquela conversa parecia diferente.

Não porque ele estivesse nervoso.

Leon Monteiro raramente demonstrava nervosismo.

Mas porque ele parecia estar escolhendo cuidadosamente cada palavra.

Ele colocou a pasta sobre a mesa.

— Antes de qualquer coisa, quero deixar claro que você pode recusar.

Franzi a testa.

Aquilo definitivamente não era uma conversa comum.

— Recusar o quê, senhor Monteiro?

Ele abriu a pasta.

E empurrou alguns documentos na minha direção.

— Uma proposta.

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