Capítulo 4

Aurora

Eu olhei para a pasta sobre a mesa.

Depois olhei para Leon.

Depois voltei a olhar para a pasta.

Talvez fosse a primeira vez em três anos que eu não conseguia prever o motivo de uma conversa com ele.

Normalmente, eu sabia exatamente o que esperar.

Um relatório.

Uma reunião.

Uma alteração na agenda.

Um problema para resolver.

Mas aquilo era diferente.

— Uma proposta? — repeti.

Leon assentiu.

— Sim.

Mantive minhas mãos sobre o colo por alguns segundos antes de tocar nos documentos.

Eu não sabia por que aquela situação parecia tão incomum.

Talvez fosse porque Leon Monteiro não costumava fazer rodeios.

Se ele precisava de algo, ele simplesmente dizia.

E, naquele momento, ele parecia estar escolhendo cuidadosamente cada palavra.

Abri a pasta.

As primeiras páginas eram documentos formais.

Informações.

Termos.

Detalhes.

Ainda não fazia ideia do que aquilo significava.

Continuei lendo até encontrar o título.

Parei.

Li novamente.

E então levantei os olhos.

— Isso é sério?

Pela primeira vez naquela noite, Leon pareceu hesitar por um segundo.

Muito pouco.

Quase imperceptível.

Mas eu percebi.

— É.

Voltei a olhar para o documento.

Casamento.

A palavra parecia completamente fora de lugar ali.

Naquela sala.

Naquela conversa.

Na minha vida.

— Senhor Monteiro...

Ele permaneceu em silêncio, esperando.

— Eu acho que existe algum tipo de confusão.

— Não existe.

Fechei a pasta devagar.

— O senhor está me propondo um casamento?

Ele não desviou o olhar.

— Sim.

Por alguns segundos, eu simplesmente fiquei encarando aquele homem.

Leon Monteiro.

Meu chefe.

A pessoa mais profissional que eu conhecia.

Estava sentado na minha frente propondo que eu me casasse com ele.

Era tão absurdo que meu cérebro parecia estar tentando encontrar uma explicação lógica.

Talvez fosse uma brincadeira.

Mas Leon não parecia alguém que fazia brincadeiras daquele tipo.

— Posso perguntar por quê?

Ele respirou fundo.

Não como alguém nervoso.

Mais como alguém organizando os pensamentos.

— É uma questão pessoal e empresarial.

Franzi a testa.

— Essa frase normalmente não melhora a situação.

Um pequeno silêncio surgiu.

Não sabia se era impressão minha, mas parecia que ele quase reagiu ao comentário.

Quase.

— Eu preciso de um casamento de aparência.

Minha expressão provavelmente entregou tudo o que eu estava pensando.

Porque, sinceramente, eu não sabia nem qual reação escolher.

Rir?

Perguntar se ele estava falando sério?

Levantar e ir embora?

Acabei escolhendo a mais profissional.

— E por que eu?

Leon apoiou as mãos sobre a mesa.

— Porque eu conheço sua postura profissional.

Aquilo eu esperava.

Mas ele continuou.

— Porque sei que você é discreta.

Mais uma coisa que fazia sentido.

— E porque confio em você.

Essa última parte me pegou um pouco desprevenida.

Não porque fosse algo impossível.

Mas porque Leon não costumava falar sobre confiança.

Ele demonstrava.

Não dizia.

— O senhor está dizendo que quer que eu finja ser sua esposa?

— Sim.

Olhei novamente para os documentos.

Era uma proposta formal.

Não era uma conversa jogada ao acaso.

Ele tinha pensado naquilo.

Planejado.

— Por quanto tempo?

— Inicialmente, um ano.

Levantei as sobrancelhas.

— Um ano?

— Após esse período, poderemos avaliar.

Balancei a cabeça lentamente.

Ainda parecia surreal.

— E o que exatamente eu ganharia com isso?

A pergunta saiu mais firme do que eu esperava.

Leon pareceu respeitar isso.

Ele abriu outra parte da pasta.

— Uma compensação financeira.

Empurrou um documento na minha direção.

Olhei o valor.

Parei.

Era mais dinheiro do que eu conseguiria juntar em muitos anos.

Muito mais.

Mas não era suficiente para apagar o absurdo daquela situação.

— Isso é muito dinheiro.

— Eu sei.

— Então o senhor entende que isso parece estranho.

— Eu entendo.

— E mesmo assim está fazendo essa proposta.

— Sim.

A sinceridade dele me deixou sem resposta por alguns segundos.

Ele não tentou convencer.

Não tentou manipular.

Apenas apresentou uma possibilidade.

— Existe mais alguma coisa que eu deveria saber?

Leon ficou em silêncio por um momento.

— O casamento seria apenas uma formalidade.

Assenti.

— Sem envolvimento pessoal.

— Exatamente.

Aquilo deveria me tranquilizar.

E, de certa forma, tranquilizava.

Porque uma das maiores coisas que me incomodavam naquela proposta era justamente imaginar que ele esperava algo além de um acordo.

Mas não.

Leon Monteiro estava sendo completamente claro.

Era um contrato.

Um acordo.

Nada mais.

— As pessoas saberiam?

— Sim.

Olhei para ele.

— Então não seria apenas no papel.

— Não.

Ele pegou a pasta novamente e apontou para algumas páginas.

— Precisaríamos manter uma imagem pública.

— Fingir.

— Sim.

A palavra ficou entre nós.

Fingir.

Eu sempre achei que fingir era mais fácil quando envolvia pequenas coisas.

Sorrir quando não estava feliz.

Dizer que estava tudo bem quando não estava.

Mas fingir um casamento?

Aquilo era outro nível.

— Preciso pensar.

Leon assentiu imediatamente.

— Claro.

Peguei a pasta.

Eu esperava que ele tentasse insistir.

Que dissesse alguma coisa para me convencer.

Mas ele não fez.

— Não precisa responder hoje.

Levantei.

— Obrigada.

Caminhei até a porta.

Minha mão já estava na maçaneta quando ouvi a voz dele.

— Duarte.

Virei.

— Sim?

Ele me encarava com a mesma expressão séria de sempre.

— Eu sei que é uma proposta incomum.

Quase ri.

Incomum era uma palavra muito pequena para aquilo.

Mas fiquei em silêncio.

— Por isso quero que sua decisão seja sua.

Assenti.

— Entendi.

Saí da sala.

---

O elevador parecia mais lento do que o normal.

Ou talvez fosse apenas minha cabeça tentando entender o que tinha acabado de acontecer.

Quando cheguei ao estacionamento, peguei o celular imediatamente.

Eu precisava falar com alguém.

A primeira pessoa que veio à minha mente foi Beatriz.

Mas parei.

Como eu explicaria aquilo?

"Oi, Bia. Meu chefe me pediu em casamento, mas é só um contrato."

A frase parecia absurda até na minha cabeça.

Guardei o celular.

Eu precisava pensar.

Entrei no carro e fiquei alguns minutos parada antes de ligar.

A cidade continuava funcionando normalmente.

Pessoas indo para casa.

Restaurantes cheios.

Carros passando.

Como se minha vida não tivesse acabado de virar uma pergunta enorme.

Eu não sabia qual seria minha resposta.

Mas sabia que, pela primeira vez em muito tempo, minha rotina tinha deixado de ser previsível.

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