CAPÍTULO 5: A verdade enterrada

As palavras do pai entraram no peito de Júlio como estilhaços de vidro. O ar sumiu de seus pulmões, e por um instante ele teve certeza de que ia desabar ali mesmo, no meio daquele escritório que de repente parecia gigante demais e ao mesmo tempo sufocante.

— Não... Você está mentindo. Ela me amava. Eu ia casar com ela... — a voz de Júlio saiu fraca, quase infantil, como se ele tivesse voltado a ser o rapaz que perdera o chão pela primeira vez.

— Ela amava o dinheiro, Júlio! — Jonas interveio, reforçando a mentira do pai, cada palavra cravada como uma farpa cuidadosamente posicionada. — O papai teve que ceder à chantagem dela para nos salvar. Ela pegou o dinheiro e fugiu para a Europa no mesmo dia. Se ela fosse inocente, por que ela teria sumido sem deixar rastros? Por que bloqueou você em tudo? E olhe para ela agora! Voltou casada com um milionário italiano, cheia de pose, e usando um processo de um prédio qualquer para de novo nos chantagear e tentar nos arrancar mais dinheiro. Ela sempre quer mais!

Júlio cambaleou para trás, com a mente em um turbilhão completo. Na garagem, Ana parecia genuinamente ferida, mas as peças que seu pai e seu irmão montavam se encaixavam perfeitamente na ausência abrupta dela no passado — perfeitas demais, ele perceberia depois, mas naquele momento a dor falava mais alto que a razão. O orgulho de Júlio foi estraçalhado. A mágoa, que já era grande, transformou-se em uma queimação fria de traição.

Ele se apoiou na beirada da mesa, as pernas subitamente incapazes de sustentar o próprio peso. Cinco anos de perguntas sem resposta pareciam finalmente ganhar forma, e mesmo sendo a pior das respostas possíveis, havia algo quase aliviador em não precisar mais imaginar o motivo de tanto silêncio.

— Ela me usou... — Júlio sussurrou, com os punhos cerrados até as articulações ficarem brancas.

— Usou, meu filho — Edgar levantou-se e caminhou até Júlio, fingindo compaixão ao tocar em seu braço, o toque tão frio quanto suas palavras eram calculadas. — Mas agora nós vamos dar o troco. Não ceda a nenhuma provocação dela. Deixe que os nossos advogados cuidem do caso do Residencial Splendor. E foque no seu casamento com a Roberta. Ela sim é uma mulher que te ama e que te apoia.

Júlio soltou um riso amargo, sem alma. Ele olhou para o pai e para o irmão, sentindo-se sufocado por grossas paredes de concreto, como se as próprias pessoas que deveriam protegê-lo fossem, na verdade, os arquitetos da sua prisão. Por um segundo fugaz, pensou em questionar a conveniência daquela história perfeita demais, mas a dor cortante em seu peito abafou qualquer resquício de dúvida antes que pudesse ganhar voz.

— Eu vou destruir a carreira dela no tribunal — prometeu Júlio, com a voz gélida, alimentado pelo veneno da mentira. — Se ela voltou por dinheiro e vingança, é uma guerra que ela vai ter.

Edgar e Jonas sorriram, vitoriosos, trocando um olhar que Júlio, cego pela dor, não teve forças para notar. Júlio deu meia-volta e saiu da sala sem imaginar que estava caindo na maior armadilha de sua vida. Ele não sabia que, na verdade, Ana nunca tocara em um único centavo daquele milhão de dólares depositado por Edgar; que ela havia devolvido a quantia integral no mesmo dia, preferindo a pobreza na Itália a aceitar o preço do orgulho dos Prado.

A porta se fechou atrás dele com um estalo seco, e assim que os passos de Júlio se perderam no corredor, o riso contido de Edgar finalmente escapou, baixo e satisfeito, ecoando pelas paredes de vidro daquele escritório que voltava a parecer, para ele, exatamente o que sempre fora: um tabuleiro onde apenas os Prado moviam as peças.

A verdade estava enterrada, mas o acerto de contas estava apenas começando.

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