Mundo de ficçãoIniciar sessãoO luxuoso apartamento de Ana, localizado em um dos bairros mais nobres da cidade, estava imerso em um silêncio acolhedor quando ela cruzou a porta — um contraste quase doloroso com o caos que ainda rugia dentro dela. O terno de grife italiana, que horas antes parecia uma armadura de poder, agora pesava em seus ombros como uma tonelada de ferro, cada fio de tecido lembrando-a da mulher que ela precisara ser naquela sala de reuniões.
Assim que a fechadura eletrônica travou, as pernas de Ana fraquejaram. Ela largou a pasta de couro no aparador da entrada e apoiou as costas contra a madeira da porta, escorregando lentamente até sentar-se no chão. Suas mãos tremiam. O cheiro do perfume de Júlio parecia impregnado em sua pele, trazendo de volta o calor do corpo dele na penumbra daquela garagem e as acusações injustas que ele desferira contra ela.
“Você sumiu há cinco anos, Ana... Eu quase enlouqueci procurando por você... Me olhando como se eu fosse um monstro...”
As palavras dele rasgavam o peito de Ana, mais fundo do que qualquer documento de engenharia, mais fundo do que qualquer ameaça de Edgar jamais conseguira. Ele achava que ela o havia abandonado por vontade própria. Júlio não fazia ideia das ameaças que Edgar Prado havia feito no passado — e pior, não fazia ideia de que aquela versão distorcida da história doía justamente porque vinha dele, do único homem cuja opinião ainda tinha o poder de quebrá-la.
— Minha menina... O que aconteceu?
A voz mansa e familiar de Dona Elisa quebrou o transe de dor. A senhora de cabelos brancos e olhar bondoso, que havia sido a melhor amiga da falecida mãe de Ana e a única pessoa que a acompanhara desde os primeiros meses incertos na Itália, correu até ela, agachando-se no chão para segurar suas mãos frias. Elisa sabia exatamente o tamanho do sofrimento que Ana carregara nos últimos anos — sabia, porque fora ela quem enxugara as lágrimas quando ninguém mais estava por perto.
— Eu o vi, Elisa... — Ana sussurrou, deixando as primeiras lágrimas finalmente rolarem pelo rosto livre da máscara profissional. — Eu vi o Júlio. E o pai dele.
— Oh, meu Deus... E como foi? — Elisa a abraçou de lado, confortando-a.
— Edgar continua o mesmo monstro. E o Júlio... ele me odeia — Ana limpou o rosto bruscamente, a mágoa se transformando em uma determinação feroz que endureceu cada linha do seu rosto. — Ele está casado com a Roberta Martinez como o pai dele queria. Mas eu não vou recuar. Eu vou destruir aquela construtora. Eles vão pagar por cada vida que colocaram em risco naquele prédio e por tudo o que me fizeram passar.
Elisa suspirou, acariciando os cabelos de Ana.
— Você passou por tanto na Itália, minha querida... A perda do Matteo naquele acidente terrível de carro... Você teve que ser forte para enterrar o homem que te estendeu a mão quando você mais precisou e voltar para o Brasil sozinha. Não deixe o rancor pelos Prado destruir a sua paz.
— Minha paz acabou há cinco anos, Elisa. Agora eu só tenho o meu trabalho e meu filho pra cuidar. Esse passado está morto e enterrado junto com o Matteo lá na Itália.
Antes que Elisa pudesse responder, o som de passos miúdos correndo pelo corredor de madeira ecoou pelo apartamento, e todo o peso do dia pareceu, por um instante, evaporar.
— Mamma! Mamma voltou!
A postura rígida de Ana desmoronou instantaneamente, dando lugar a um sorriso genuíno e cheio de amor. Um garotinho de apenas cinco anos surgiu correndo, ainda vestindo a fantasia de super-herói com que brincava até aquela hora. Ele se jogou nos braços de Ana, que o ergueu no colo, apertando-o contra o peito como se ele fosse seu bem mais precioso no mundo — porque era.
— Ciao, amore mio! A mamãe estava com tantas saudades — Ana beijou as bochechas coradas do menino, inspirando o cheiro de sabonete infantil e inocência que, por um breve instante, apagava qualquer vestígio de Edgar Prado, de Júlio, de todos os fantasmas daquela tarde.
— Eu fiz um desenho do Coliseu que a gente via na Itália, mamma! Guarda! (Olha!) — o menino estendeu uma folha de papel, sorrindo de orelha a orelha, os traços tortos de giz de cera formando um edifício que só uma mãe poderia reconhecer.
Ana olhou para o filho, sentindo um aperto familiar no peito. Pietro tinha os cabelos escuros e desalinhados e olhos verdes muito expressivos — olhos que, às vezes, em certos ângulos de luz, faziam o coração de Ana falhar uma batida por razões que ela se recusava a nomear, mesmo para si mesma. Matteo Toricelli, o marido italiano de Ana, tinha verdadeira adoração por Pietro e o criava com carinho e dedicação, até o dia em que partiu tragicamente, mas Ana sabia que o seu passado a condenava e não queria que nada respingasse em seu filho, em especial o que viesse da família Prado.
— O desenho está lindo, amore mio — Ana sussurrou, reprimindo o turbilhão de pensamentos e olhando para Dona Elisa. — Agora vá com a nonna Elisa lavar as mãos para o jantar, sim?
— Mamma, te voglio bene! — Pietro falou e saiu correndo para a cozinha, o riso dele ecoando pelo corredor como a única música verdadeira que restara naquele dia.
Ana limpou uma lágrima solitária, os olhos fixos na porta por onde o filho desaparecera. Custasse o que fosse, pensou ela, fechando os punhos com uma resolução que vinha de um lugar mais fundo que a raiva — mais fundo até que o amor que um dia sentira por Júlio Prado —, a vida de seu pequeno Pietro Toricelli estaria para sempre protegida.







