CAPÍTULO 4: O ninho de cobras

Quando Júlio entrou como um furacão no escritório da presidência, a atmosfera ainda vibrava com a fúria de Edgar Prado. As paredes de vidro, que em outros dias exibiam orgulhosas o horizonte de São Paulo, pareciam agora as grades invisíveis de uma jaula. O patriarca andava de um lado para o outro, com o colarinho desabotoado e o rosto avermelhado. Sentado no sofá de couro, observando tudo com um sorriso cínico e os braços cruzados, estava Jonas Prado, irmão mais novo de Júlio — a própria imagem da calma predatória, como quem já sabia exatamente como aquela cena terminaria.

Júlio ainda sentia o coração martelando contra as costelas, a imagem de Ana parada na garagem, os olhos marejados de raiva e mágoa, gravada como um estilhaço atrás das pálpebras. Ele mal se dera conta de que atravessara três andares e dois corredores sem cumprimentar ninguém, a gravata torta e a respiração curta denunciando o estado em que se encontrava.

— Você perdeu o juízo, Júlio?! — esbravejou Edgar assim que viu o filho mais velho. — Correr atrás daquela... daquela vigarista no estacionamento? Na frente dos funcionários?

— Que história é essa de dinheiro, pai? — Júlio ignorou os gritos, batendo as duas mãos na mesa de vidro da presidência, encarando o pai olho no olho. A imagem de Ana na garagem, os olhos marejados, ainda queimava atrás de suas pálpebras. — Você me disse há cinco anos que ela tinha ido embora porque se cansou de mim, porque tinha achado outro na Itália! E hoje você j**a na cara dela que deu dinheiro para ela sumir? O que você fez?

Edgar soltou uma risada nasalada, trocando um olhar cúmplice com Jonas, que se levantou do sofá com a lentidão calculada de uma cobra desenrolando o corpo, e caminhou até o irmão, colocando uma mão hipócrita em seu ombro.

— Júlio, meu irmão, você sempre foi um ingênuo quando o assunto é a Ana Gusmão — disse Jonas, a voz mansa e manipuladora, cada palavra escolhida a dedo. — O papai está tentando te proteger desde aquela época. Você estava cego de amor por uma garota que só queria arrancar a nossa pele.

— Cale a boca, Jonas! Eu quero ouvir o pai! — Júlio empurrou a mão do irmão, tenso, o instinto gritando que havia algo profundamente errado na encenação dos dois. Havia um ensaio ali, uma sincronia entre pai e irmão rápida demais para ser espontânea, mas a dor era alta demais em seu peito para que ele parasse e analisasse os detalhes.

Edgar Prado suspirou profundamente, fingindo uma súbita exaustão e desgosto — uma performance ensaiada ao longo de anos lidando com jornalistas, sócios e credores. Ele se sentou em sua cadeira presidencial, massageando as têmporas, adotando uma postura de um pai que carrega um fardo doloroso. Por trás dos dedos que cobriam parte do rosto, seus olhos permaneciam alertas, calculando cada reação do filho como quem lê um contrato em busca de brechas.

— Você quer a verdade, Júlio? Então escute bem, porque eu me calei por cinco anos para poupar o seu orgulho — mentiu Edgar, olhando fixamente para o filho, sem um único piscar que denunciasse a farsa. — Há cinco anos, a Prado Construtora já passava por uma crise interna delicada. A Ana... aquela menina que você achava que era um anjo inocente, conseguiu ter acesso a alguns arquivos confidenciais de contabilidade que você, de forma negligente, deixou espalhados no seu apartamento.

Júlio franziu a testa, sentindo o chão oscilar.

— O quê? Não... A Ana nunca faria isso.

— Mas fez! — Edgar alterou o tom de voz, batendo na mesa. — Ela me procurou nesta mesma sala. Ela tinha cópias de documentos fiscais e me deu um ultimato: ou eu depositava uma quantia milionária na conta dela, ou ela entregaria tudo para a Receita Federal e para a imprensa, destruindo a nossa família. Igualzinho ela fez agora. A única condição dela para fechar a boca era receber o dinheiro e sumir da sua vida para sempre, porque, segundo as próprias palavras dela, ela já estava cansada de fingir que amava um “filhinho de papai” mimado.

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