Capítulo 4: Máscaras de Seda

​​Sophie subiu os degraus da escadaria de mármore como se o chão estivesse prestes a ceder. Cada passo era uma luta contra o tremor em seus joelhos e a sensação persistente do toque de Henrique, que parecia ter deixado um rastro de eletricidade por onde seus dedos passaram. Ela entrou no quarto e trancou a porta, encostando-se na madeira fria enquanto tentava controlar a respiração.

​No espelho da penteadeira, o reflexo devolvia uma mulher que ela mal reconhecia. Seus lábios estavam levemente inchados, as bochechas coradas e os olhos amendoados carregavam um brilho de pecado que ela tentava desesperadamente apagar. Ela puxou a gola do vestido, verificando o pescoço. Ali estava: uma marca leve, quase imperceptível para quem não soubesse, mas que para ela queimava como um ferro em brasa.

​— Meu Deus, o que eu estou fazendo? — sussurrou para si mesma, as mãos cobrindo o rosto.

​A culpa pesava mais do que o tecido de seda em seu corpo. Enzo era a razão de sua volta. Ele era o herói da sua infância, o homem que ela queria salvar e com quem pretendia construir um futuro. Trair a confiança dele, mesmo que fosse com o próprio pai dele, parecia uma profanação. Ela precisava de distância. Precisava evitar Henrique a todo custo, tratar tudo aquilo como um deslize sensorial provocado pelo jet lag e pela tensão do retorno.

​Ela lavou o rosto com água gelada, retocou o batom com mãos trêmulas e ajeitou o cabelo para esconder qualquer vestígio do que acontecera na biblioteca. Quando se sentiu minimamente composta, caminhou até o quarto de Enzo, que ficava no final do corredor da ala leste.

​Ao bater à porta, ouviu a voz dele, calma e acolhedora.

​— Pode entrar, Soph!

​Enzo estava sentado em uma poltrona larga, com o laptop sobre os joelhos e vários catálogos de decoração espalhados pela cama. Ele já havia trocado o paletó por um suéter de cashmere azul, parecendo relaxado e doméstico.

​— Demorou, hein? — ele sorriu, fazendo um sinal para que ela se sentasse ao seu lado. — O vovô te deu um sermão extra ou meu pai resolveu discutir logística de segurança com você também?

​Sophie sentiu um nó na garganta. A naturalidade de Enzo era um contraste doloroso com a intensidade de Henrique.

​— Não, eu só... me perdi um pouco olhando os jardins da janela da biblioteca — ela mentiu, sentando-se na ponta da cama, mantendo uma distância segura.

​— Olhe só essas opções para o salão principal — Enzo disse, virando a tela para ela. — Eu estava pensando em orquídeas brancas e lírios. O vovô quer algo clássico, mas eu queria que tivesse um toque seu. O que você acha?

​Sophie olhou para as fotos. Eram lindas, luxuosas e sem vida. Ela tentou se concentrar, apontando para uma das composições florais, mas sua mente trapaceava, trazendo de volta o som da voz rouca de Henrique e o brilho metálico de seus olhos.

​— São lindas, Enzo. Acho que as orquídeas combinam com a mansão.

​Enzo segurou a mão dela. O toque era morno, confortável, como um cobertor em um dia de chuva. Mas não havia faísca. Não havia aquele puxão visceral que a fazia querer se fundir ao outro.

​— Obrigado por fazer isso por mim, Soph. Eu sei que é um papel difícil, mas você é a única pessoa em quem eu confio para estar ao meu lado nessa farsa. Eu realmente te amo, você sabe disso, não sabe?

​— Eu também te amo, Enzo — ela respondeu, e era verdade. Ela o amava. Mas, naquele momento, percebeu com horror que o tipo de amor que sentia por ele talvez não fosse o suficiente para protegê-la do desejo que sentia pelo pai dele.

​Eles passaram a hora seguinte discutindo detalhes da festa. Enzo era detalhista, focado em garantir que tudo parecesse perfeito para os convidados. No entanto, o celular dele não parava de vibrar sobre a mesa de cabeceira. Cada vez que a tela acendia, Enzo lançava um olhar furtivo, e Sophie via a tensão retornar aos ombros dele.

​— Pode atender, se for importante — ela disse, com a voz suave.

​— Não, não é... é só trabalho — ele desconversou, mas Sophie viu a hesitação.

​Por volta das oito da noite, uma batida firme soou à porta.

​— O jantar será servido em dez minutos — a voz de Henrique veio do corredor. Não era um pedido, era um aviso.

​Sophie sentiu o corpo retesar instantaneamente.

​— Já estamos indo, pai! — Enzo gritou de volta.

​Sophie levantou-se num salto. — Enzo, eu... eu acho que não vou descer para o jantar. Estou com uma dor de cabeça terrível. Acho que é o cansaço da viagem finalmente batendo.

​— Ah, que pena, Soph. Mas tudo bem, eu aviso ao vovô. Você quer que eu peça para subirem algo para você?

​— Não precisa, querido. Só quero dormir um pouco.

​Sophie esperou Enzo sair. Ela precisava daquela barreira. Evitar a mesa de jantar significava evitar os olhos de Henrique, evitar o jogo de pés sob a toalha e a pressão de sua presença dominante. Ela se trancou novamente em seu quarto, trocou o vestido por um robe de seda longo e apagou as luzes, deixando apenas a claridade da lua entrar pela varanda.

​O silêncio da mansão era opressor. Ela tentou ler, tentou se concentrar em qualquer coisa, mas seus ouvidos estavam atentos a cada ruído no corredor. Cerca de uma hora depois, ouviu passos pesados se aproximando. Não eram os passos leves e rápidos de Enzo. Eram passos lentos, medidos, que pareciam carregar o peso de uma autoridade inquestionável.

​Os passos pararam diante de sua porta.

​Sophie prendeu a respiração, o coração batendo tão forte que ela achou que ele poderia ouvir do outro lado da madeira. Houve um silêncio longo, carregado. Ela imaginou Henrique ali, parado no escuro do corredor, com seu copo de whisky na mão e aquele olhar prateado fixo na maçaneta.

​Ela não se moveu. Não ousou fazer um som.

​— Eu sei que você não está dormindo, Sophie — a voz dele veio baixa, abafada pela porta, mas tão clara quanto se ele estivesse ao lado de sua cama. — Você pode tentar se esconder atrás dessa porta, mas não pode se esconder do que sentiu na biblioteca.

​Sophie cravou as unhas na palma das mãos. A consciência pesada lutava contra o impulso de abrir a porta apenas para sentir o calor dele novamente.

​— Boa noite, Sophie — ele disse, com uma nota de diversão fria na voz. — Nos vemos no café da manhã.

​Ela ouviu os passos se afastarem. Sophie soltou o ar que nem sabia que estava segurando. Ele estava brincando com ela. Henrique sabia exatamente o efeito que causava e estava se divertindo com a sua tentativa fútil de resistência.

​Ela deitou-se, olhando para o teto. O plano de evitar Henrique parecia logicamente perfeito, mas, no fundo de sua alma, ela sabia que naquela mansão, não havia lugar onde ela pudesse se esconder de um homem que já havia decidido que ela lhe pertencia. A festa de noivado estava chegando, e Sophie temia que, até lá, sua consciência pesada fosse a única coisa que restaria de sua integridade.

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