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Capítulo 3: Sombras na Biblioteca

​​A biblioteca da mansão Dumont era um santuário de carvalho escuro e couro, onde o cheiro de livros antigos se misturava ao aroma de cera de abelha. As prateleiras subiam até o teto, abrigando séculos de história e direito, uma prova física da solidez daquela linhagem. No centro, sob o brilho de um lustre de cristal, o Sr. Arthur aguardava em sua poltrona de couro bordô, observando a entrada do neto com olhos que não admitiam falhas.

​Sophie entrou de braços dados com Enzo. O toque dele em seu braço era familiar e doce. Ao olhar para o perfil de Enzo, Sophie sentia uma onda de afeto que transcendia o contrato. Ele era o seu porto seguro, o rapaz que povoara seus sonhos durante oito anos de exílio na Europa. Ela ainda o amava com a pureza de quem acredita em segundas chances, e estar ali, fingindo um noivado que ela desejava que fosse real, era um misto de tortura e esperança.

​— Sentem-se — ordenou Arthur, sua voz rouca ecoando no silêncio.

​Henrique já estava lá. Ele permanecia de pé, encostado em uma das estantes laterais, com um copo de cristal na mão. O líquido âmbar balançava conforme ele girava o copo com uma calma irritante. Seus olhos, da cor de aço escovado, encontraram os de Sophie e permaneceram ali, pesados e intensos. Para ela, era difícil sustentar aquele olhar; Henrique parecia enxergar a verdade por trás de qualquer máscara.

​— O cartório foi o início formal — Arthur começou, fitando Enzo com severidade. — Mas em Alphaville, a imagem é o que sustenta o poder. Na festa de noivado, na próxima semana, eu quero que o mundo veja o que eu vejo agora: um herdeiro apaixonado e uma união inabalável.

​Enzo endireitou a postura. Num gesto para tranquilizar o avô, ele deslizou a mão pelas costas de Sophie e a puxou para mais perto, colando o ombro dela ao seu.

​— Não haverá dúvidas, vovô. Sophie é a única mulher que eu traria para esta família — Enzo afirmou, a voz soando firme.

​Ele inclinou-se e depositou um beijo suave no pescoço dela, logo abaixo da orelha. Foi um toque delicado, quase casto. Sophie fechou os olhos, permitindo-se mergulhar naquela sensação. Era o Enzo. O seu Enzo. O carinho dele a confortava, mas, sob o olhar vigilante de Henrique, ela sentiu um arrepio que não vinha do afeto, mas de uma consciência perturbadora de que aquele beijo era insuficiente para apagar o incêndio que começava a queimar em seu sangue.

​Henrique não disse uma palavra. Ele apenas levou o copo aos lábios, observando a cena com uma neutralidade gélida que escondia um fogo perigoso.

​— Excelente — murmurou Arthur. — Henrique, você cuidará da segurança e da lista de convidados. Quero apenas o topo da pirâmide nesta festa.

​— Como o senhor desejar, pai — Henrique respondeu, sua voz um barítono baixo que pareceu ressonar dentro do peito de Sophie.

​A reunião prosseguiu por mais algum tempo, detalhando a logística do evento. Durante todo o tempo, Enzo manteve a mão sobre a de Sophie, um gesto que ela retribuiu com um aperto suave. Ela queria que aquilo fosse real. Ela queria que o amor que sentia por Enzo fosse o suficiente.

​— Podem ir — Arthur finalmente os dispensou. — Henrique, fique. Preciso conferir uns relatórios de exportação.

​Enzo guiou Sophie para fora da biblioteca, mas assim que as portas se fecharam, o celular dele vibrou no bolso. Ele parou no corredor, a expressão mudando para uma ansiedade que ele tentava esconder.

​— Soph, desculpa... é uma ligação que eu realmente não posso perder. Pode ir subindo? Te encontro no quarto em dez minutos para terminarmos de ver as fotos da decoração.

​— Tudo bem, Enzo. Sem problemas — ela sorriu, um sorriso compreensivo que escondia a pequena pontada de solidão que sentia cada vez que ele se afastava.

​Ela o viu caminhar apressadamente em direção ao jardim e percebeu que havia deixado sua bolsa sobre o sofá da biblioteca. Sophie suspirou e voltou. Ela esperou alguns segundos, ouvindo o som de uma porta interna se fechar — o Sr. Arthur já havia se retirado para seus aposentos. Ela empurrou a porta pesada, esperando entrar e sair em segundos.

​Mas Henrique ainda estava lá.

​Ele permanecia na mesma posição, terminando o whisky. Ao vê-la entrar, ele colocou o copo sobre a mesa de carvalho com um clique seco.

​— Esqueceu algo? — ele perguntou, o olhar prateado fixo nela.

​— Minha bolsa... — Sophie murmurou, caminhando em direção ao sofá.

​Quando ela se inclinou para pegá-la, sentiu a presença de Henrique se aproximar. Ele não corria, ele se movia com a confiança de quem sabe que o espaço já lhe pertence. Antes que ela pudesse se erguer completamente, ele parou atrás dela, bloqueando sua saída.

​Sophie sentiu o calor emanando do corpo dele. O cheiro de madeira e tabaco a envolveu, e o pânico começou a lutar contra uma excitação traidora que subia por suas pernas.

​— O Enzo é um homem de sorte — Henrique sussurrou, a voz tão baixa que era quase um segredo. — Ele tem o que muitos desejariam, mas parece sempre... distraído.

​— Ele está sob muita pressão, Henrique — ela respondeu, tentando manter a voz firme enquanto sentia o coração martelar.

​— É o que você diz a si mesma, Sophie? — Henrique deu um passo à frente, sua mão subindo pela cintura dela com uma possessividade que Enzo nunca demonstrou. Ele a puxou para trás, forçando o corpo dela a se moldar ao seu.

​A diferença física era esmagadora. Se com Enzo ela se sentia protegida, com Henrique ela se sentia dominada. Sophie sentiu a firmeza do abdômen dele contra suas costas e, instantaneamente, uma onda de calor líquido a atingiu. Ela amava Enzo, amava a ideia de um futuro com ele, mas seu corpo parecia ter uma lealdade diferente, uma que respondia ao comando silencioso de Henrique.

​— Você sentiu o carinho dele agora há pouco? — Henrique perguntou, sua boca roçando a orelha dela. — Foi doce. Quase como o de um irmão.

​— Henrique, pare... — ela implorou, mas não se moveu.

​Henrique a virou de frente para ele. Sophie estava encurralada entre o sofá e o peito massivo de Henrique. Ele segurou o queixo dela com os dedos fortes, forçando-a a encarar o aço em seus olhos. Ele não precisava falar do filho; a comparação estava ali, na eletricidade que corria entre eles, no desejo cru que Henrique exalava e que Enzo parecia desconhecer.

​Henrique mergulhou o rosto no pescoço de Sophie, no exato lugar onde Enzo a beijara. Mas o toque de Henrique não foi suave. Seus lábios marcaram a pele dela com uma intensidade voraz, uma reivindicação silenciosa que fez Sophie arquear as costas e soltar um suspiro entrecortado.

​Sua mão desceu para a fenda do vestido, subindo pela pele nua de suas coxas até encontrar a renda úmida de sua calcinha. Sophie fechou os olhos, sentindo a traição de seus próprios sentidos. O amor por Enzo era uma chama suave no seu coração, mas o que Henrique provocava era um incêndio que ameaçava consumir tudo.

​— Você treme para ele, Sophie? — Henrique murmurou contra a pele dela, seus dedos movendo-se com uma experiência que a levava ao limite do controle.

​— Não... — ela confessou, a voz falhando enquanto cravava as unhas nos ombros do terno dele.

​Henrique não sorriu, mas o brilho em seus olhos era vitorioso. Ele a levou ao ápice ali mesmo, entre as sombras dos livros e o cheiro de carvalho, provando que, embora ela quisesse o coração do filho, era o pai quem possuía o controle sobre sua pele.

​Quando ele a soltou, Sophie estava ofegante, as pernas trêmulas. Henrique arrumou o vestido dela com uma elegância perturbadora.

​— O Enzo está esperando você para ver as fotos — ele disse, com a voz perfeitamente controlada. — Tente não deixá-lo esperando demais.

​Ele pegou o copo vazio e saiu da biblioteca sem olhar para trás. Sophie ficou sozinha no silêncio, segurando sua bolsa contra o peito. Ela amava Enzo. Ela tinha certeza disso. Mas, enquanto subia as escadas, a marca no seu pescoço queimava, e ela sabia que a farsa do noivado era apenas a superfície de um oceano muito mais profundo e perigoso onde ela estava começando a afundar.

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