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​Capítulo 5: Labirintos de Memória

​O sol de Alphaville entrou pelas frestas da cortina de linho, mas Sophie já estava acordada há horas. A noite fora um campo de batalha mental entre a marca escondida em seu pescoço e a necessidade desesperada de reafirmar seu lugar naquela casa. Ela precisava de um plano que fosse além de simplesmente evitar Henrique; ela precisava fortalecer o laço com Enzo. Para ela, Enzo ainda era o rapaz que povoara seus sonhos no exílio europeu, e ela estava decidida a transformar aquele noivado de fachada em algo real, custasse o que custasse.

​Ela escolheu um vestido leve, de seda azul-celeste, que realçava o dourado de sua pele e a cor de seus olhos. Era um visual que remetia à juventude deles, algo que evocava a Sophie que Enzo costumava proteger e admirar antes de ela partir.

​Ao descer para o café da manhã, ela encontrou Enzo na varanda. Ele estava com o celular na mão, o rosto tenso e os dedos digitando com uma rapidez que denunciava ansiedade. Sophie o observou por um momento da porta, achando que ele estava apenas sobrecarregado com as exigências do avô e os negócios da família. Ela não fazia ideia de que, do outro lado daquela tela, havia uma paixão secreta que o consumia.

​— Bom dia, Enzo — ela disse, aproximando-se com um sorriso doce, tentando dissipar a névoa de preocupação que parecia envolvê-lo.

​— Bom dia, Soph — ele respondeu, bloqueando a tela do celular quase instantaneamente e guardando-o no bolso do paletó. — Dormiu bem?

​— Sim. Estava pensando... você lembra daquela trilha que fazíamos atrás da antiga casa de campo? Daquela vez que ficamos presos na chuva e você prometeu que sempre cuidaria de mim?

​Enzo relaxou os ombros, um brilho de nostalgia genuína cruzando seus olhos claros. O peso das obrigações pareceu diminuir por um momento diante da lembrança da pureza que eles compartilhavam.

​— Lembro-me perfeitamente. Você estava morrendo de medo dos trovões e eu tive que fingir que era muito mais corajoso do que realmente era para não te assustar mais.

​Sophie sentou-se bem perto dele, invadindo seu espaço pessoal de forma sutil, mas deliberada. Ela começou a falar sobre memórias compartilhadas, sobre as piadas internas que só os dois entendiam. Ela usava sua voz mais suave, tocando o braço dele ocasionalmente, sentindo a familiaridade do toque. Ela viu a guarda de Enzo baixar; ele começou a rir, a olhar para ela com um carinho que fez o coração de Sophie disparar de esperança.

​— Você mudou tanto, Soph... mas, ao mesmo tempo, continua sendo aquela minha menina — ele comentou, a voz ficando mais baixa, quase um sussurro.

​Sophie viu a oportunidade. Ela não esperou que ele agisse. Ela queria provar a si mesma — e talvez a Henrique, que ela sentia estar observando de algum lugar — que Enzo era dela. Ela inclinou-se, encurtando a distância, e tocou o rosto dele com a ponta dos dedos, forçando-o a focar inteiramente nela.

​— Eu nunca deixei de ser aquela menina para você, Enzo. E nunca deixei de sentir o que sentia naquela trilha.

​Ela o beijou. Foi um beijo carregado de toda a saudade que ela guardara por oito anos. Ela usou a doçura que ele conhecia, mas adicionou a maturidade da mulher que se tornara. Enzo, pego de surpresa, não recuou. Pelo contrário, ele retribuiu com uma intensidade que surpreendeu a própria Sophie. Suas mãos subiram para a cintura dela, apertando-a contra si por alguns segundos que pareceram eternos.

​Quando se afastaram, Enzo parecia em choque. Suas pupilas estavam dilatadas e sua respiração estava errática. Sophie sorriu, acreditando ter vencido uma batalha, mas logo notou uma sombra de conflito profundo cruzar o rosto dele. Enzo parecia subitamente pálido, como se tivesse cometido um erro terrível. Sophie estranhou a reação, atribuindo-a à surpresa ou ao medo do avô, sem desconfiar que ele estava se sentindo um traidor em relação à mulher que realmente amava.

​— Soph... eu... — ele começou, passando a mão pelo cabelo, visivelmente mexido e confuso. — Eu preciso ir. O meu avô está me esperando no escritório para revisarmos os últimos detalhes do contrato de noivado.

​Ele saiu quase em fuga, deixando Sophie com o coração acelerado e uma pontada de incerteza. Ele ficara mexido, disso ela não tinha dúvida, mas havia algo naqueles olhos claros que ela não conseguia decifrar.

​Decidida a manter a sensação de que estava no caminho certo, Sophie passou o restante da manhã evitando os lugares onde Henrique costumava estar. Ela não queria que a presença dele, ou aquele seu olhar de aço que parecia despir sua alma, estragasse a conexão que acabara de restabelecer com Enzo. Refugiou-se na estufa da mansão, ajudando a organizar os arranjos para a festa, mantendo-se oculta entre as folhagens sempre que ouvia passos pesados nos corredores.

​Por volta do meio-dia, ela decidiu voltar para o quarto para se trocar. Caminhava apressada pela galeria de arte, quando a porta lateral se abriu.

​Sophie parou bruscamente. Henrique estava saindo, sem o paletó, com as mangas da camisa branca dobradas, revelando os antebraços fortes. A visão dele era uma agressão aos seus sentidos.

​— Fugindo, Sophie? — a pergunta veio carregada de uma ironia cortante.

​— Tenho muitas coisas para organizar, Henrique. Com licença — ela disse, tentando passar por ele com o queixo erguido, protegida pela memória do beijo de Enzo.

​Mas Henrique bloqueou o caminho. Ele deu um passo à frente, forçando-a a recuar contra a parede de mármore. O cheiro dele — madeira e whisky — a atingiu, ameaçando desestabilizar toda a sua confiança.

​— Vi que o café da manhã foi... nostálgico — Henrique comentou, a voz baixa, observando-a com aqueles olhos de aço polido que pareciam ler cada batimento de seu coração. — Um beijo no jardim para tentar selar o passado?

​Sophie sentiu o rosto queimar. Henrique vira.

​— O Enzo e eu temos uma história que você não entende, Henrique. Ele me beijou. Ele sentiu o que aconteceu ali. O que nós temos é real, e eu vou fazê-lo perceber isso todos os dias.

​Henrique soltou uma risada curta, um som sombrio. Ele apoiou a mão na parede, prendendo-a em seu campo de força.

​— Ele ficou mexido, Sophie? — Henrique aproximou o rosto do dela, a respiração quente roçando seus lábios. Ele não a tocou, mas a tensão sexual era insuportável. — O Enzo ficou confuso porque ele é um rapaz que vive de lembranças. Mas ele não ficou assim... — Henrique baixou o tom de voz, tornando-o quase um sussurro pecaminoso. — Ele não te faz tremer as mãos só de estar por perto. Ele não faz o seu coração querer sair do peito só com um olhar.

​— Me deixe passar, Henrique. Eu amo o Enzo. Eu vou fazê-lo olhar para mim da forma que ele olhava antes.

​— Você pode tentar acordar o que você acha que ainda existe no coração dele usando memórias de infância, Sophie — sussurrou Henrique, a voz vibrando contra a boca dela, a poucos milímetros de um beijo que ele se recusava a dar. — Mas enquanto você tenta convencê-lo com esses beijos doces, é o meu nome que você vai querer gritar quando o desejo se tornar insuportável.

​Ele se afastou subitamente, dando espaço para ela passar. Sophie correu para o seu quarto e trancou a porta. O beijo de Enzo fora um sucesso em sua cabeça, mas as palavras de Henrique eram como veneno. Ela queria acreditar que Enzo se apaixonaria novamente, que ela era a única em sua vida. Mas, enquanto olhava para o espelho, Sophie percebeu que estava lutando contra sombras que ainda não conseguia ver, enquanto era caçada por um homem que via exatamente tudo o que ela tentava esconder.

​A festa de noivado estava chegando, e a consciência pesada de Sophie era um fardo que ela tentava ignorar, sem saber que o verdadeiro segredo de Enzo seria o golpe que ela menos esperava.

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