Capítulo 2: Reflexos de Aço

A manhã em Alphaville nasceu com um sol pálido, filtrado pela neblina que subia dos lagos artificiais do condomínio. Sophie mal conseguira pregar os olhos. Cada vez que tentava descansar, a sensação da palma de Henrique contra a sua voltava com uma força avassaladora, provocando aquele calor líquido que a deixara inquieta até o amanhecer. Para o compromisso no cartório, ela escolheu um vestido envelope de seda off-white. O tecido era fluido, abraçando suas curvas com uma delicadeza perigosa, e o decote em "V" revelava apenas o suficiente para ser elegante, mas o suficiente para que ela se sentisse vulnerável sob certos olhares.

​Quando Sophie surgiu no topo da imensa escadaria de mármore, Enzo já a esperava no hall lá embaixo. Ele estava impecável em seu terno cinza-claro, mas ao ouvir o som dos saltos dela contra o degrau, ele finalmente desviou os olhos do celular. Um sorriso genuíno iluminou seu rosto de "bom moço".

​— Nossa, Soph... — Enzo exclamou, acompanhando-a com o olhar enquanto ela descia. — Você está realmente linda. Esse vestido ficou perfeito em você.

​O elogio foi doce, carregado de uma admiração estética quase como se ele estivesse elogiando uma obra de arte em um museu. Ele não deu um passo à frente para recebê-la com um beijo apaixonado; apenas esperou que ela terminasse de descer para lhe dar um tapinha amigável no braço.

​— Pronta? — ele perguntou, voltando a guardar o celular no bolso. — O cartório nos espera para a habilitação do casamento. Meu avô já ligou duas vezes cobrando a confirmação da entrada nos papéis.

​— Bom dia, Enzo. Estou pronta — Sophie respondeu, tentando forçar uma normalidade que não sentia.

​Nesse momento, a porta do escritório se abriu com um clique seco. Henrique Dumont surgiu sob o umbral, e a atmosfera do hall pareceu mudar instantaneamente, tornando-se mais densa. Ele vestia um terno azul-marinho de corte inglês, mas dispensara a gravata, deixando o colarinho aberto. O cabelo grisalho nas têmporas e a barba curta e bem aparada davam a ele um ar de autoridade absoluta.

​Henrique parou. Seus olhos de aço polido não apenas a viram; eles a percorreram com uma lentidão deliberada, começando pelos pés, subindo pela fenda do vestido que se abria levemente, detendo-se na curva do quadril e parando nos mamilos que, mais uma vez, teimavam em marcar o tecido fino sob o ar-condicionado central. Sophie sentiu como se ele estivesse removendo cada camada de seda apenas com a visão.

​Ele não fez nenhum elogio verbal. Ele apenas girou a chave do SUV de luxo nos dedos, o metal batendo contra a palma da mão em um ritmo hipnótico.

​— Vamos — a voz de Henrique ecoou no hall, um comando que não admitia réplicas.

​Eles caminharam em silêncio em direção à garagem interna. O som dos passos de Henrique era firme e decidido, enquanto Enzo ia ao lado de Sophie, já tendo sacado o celular novamente para conferir uma última notificação. Ao chegarem na garagem, que abrigava uma frota de carros reluzentes, Henrique caminhou direto para o lado do motorista do SUV blindado. Ele assumiu o volante, sua postura exalando um controle absoluto sobre o ambiente.

​Enzo, num gesto automático de cortesia, abriu a porta traseira para Sophie e sentou-se ao lado dela. No entanto, assim que as portas se fecharam com aquele som abafado de vedação perfeita e o motor potente rugiu baixo, Enzo voltou instantaneamente para o seu mundo digital.

​— Preciso resolver uns detalhes com o pessoal do fundo, Soph. O vovô está sendo irredutível com uma cláusula sobre a herança antecipada — Enzo justificou, já mergulhado em mensagens. Ele encostou-se no banco, o corpo voltado ligeiramente para a janela, deixando um vácuo de atenção entre ele e a noiva.

​Sophie assentiu, sentindo-se um acessório descartável. Ela olhou para a frente e, no mesmo instante, seus olhos encontraram o espelho retrovisor central. Henrique estava olhando diretamente para ela.

​Não era um olhar casual. Através do reflexo, os olhos cinza-metálicos de Henrique brilhavam com uma malícia silenciosa e uma compreensão profunda. Ele via tudo: via como o próprio filho a ignorava para tratar de negócios (ou falar com outra pessoa) e via a frustração latente no rosto dela.

​O trajeto por Alphaville transcorria em um silêncio quebrado apenas pela voz ríspida de Enzo, que agora começara a gravar áudios de voz. A cada curva que Henrique fazia, seus olhos no retrovisor voltavam a buscar os de Sophie. Ela tentou desviar, mas o magnetismo daquele metal escovado nos olhos dele a prendia. Em um dado momento, Sophie cruzou as pernas, e o movimento fez o vestido de seda deslizar, revelando a parte superior de suas coxas.

​No retrovisor, ela viu os olhos de Henrique escurecerem e as pupilas dilatarem. Ele não desviou. Ele sustentou o olhar enquanto levava a mão que estava no câmbio para trás, passando-a por entre os bancos dianteiros.

​Enzo continuava falando ao telefone, gesticulando com a mão livre, mergulhado em uma discussão sobre prazos e dividendos. Ele não percebeu quando a mão de Henrique alcançou o joelho de Sophie.

​O choque térmico foi instantâneo. A palma de Henrique era grande, firme e terrivelmente quente. Ele não disse uma palavra, mantendo a atenção na estrada à frente, mas sua mão começou a subir lentamente pela coxa dela. Sophie sentiu a respiração travar nos pulmões. O polegar de Henrique começou a desenhar círculos pequenos e rítmicos na pele sensível por baixo da seda, subindo milímetro por milímetro em direção ao topo de suas pernas.

​O calor que ela sentira na noite anterior voltou com uma força triplicada. Era uma sensação proibida e visceral: estar sendo tocada daquela forma pelo pai do seu noivo, enquanto o próprio noivo estava a centímetros de distância, ignorando-a por completo. Sophie fechou as pernas por instinto, tentando conter o estremecimento, mas a mão de Henrique era uma força da natureza; ele pressionou a palma contra a carne macia de sua coxa, impedindo-a de se fechar totalmente, forçando-a a aceitar a invasão.

​— Está tudo bem aí atrás? — Henrique perguntou. Sua voz saiu profunda, estável, perfeitamente normal, o que tornava a situação ainda mais pecaminosa.

​— Sim, pai. Só esse advogado que é um imbecil — Enzo respondeu, sem sequer olhar para o lado, irritado com a ligação.

​Henrique deu um sorriso quase imperceptível que apenas Sophie viu pelo retrovisor. Seus dedos subiram um pouco mais, roçando a lateral da calcinha de renda de Sophie. Ela soltou um suspiro trêmulo, que disfarçou como um ajuste no banco, enquanto seu corpo reagia violentamente. Ela estava ficando úmida, a pulsação entre suas pernas tornando-se um eco do batimento acelerado de seu coração. Henrique estava apenas começando a mostrar a ela que, enquanto Enzo jogava com papéis e fundos de garantia, ele jogava com realidades muito mais carnais.

​Quando chegaram ao cartório, Henrique retirou a mão segundos antes de Enzo guardar o celular e abrir a porta.

​O cartório de Alphaville era um ambiente sóbrio, com ar-condicionado no máximo e o som constante de carimbos e teclados. Enquanto aguardavam a chamada para a mesa de habilitação, Enzo continuava inquieto, conferindo o relógio a cada minuto.

​— Soph, assina aqui por favor. É a autorização para a verificação de bens — ele disse, empurrando uma pasta em sua direção enquanto falava ao telefone com alguém. — Sim, eu já estou aqui! — exclamou ele para a pessoa do outro lado, afastando-se alguns passos para ter mais privacidade.

​Sophie pegou a caneta, sentindo-se um fantasma naquela relação. Henrique se aproximou, parando logo atrás dela. Ela podia sentir o calor emanando do corpo dele, o cheiro de madeira e whisky que parecia ter se tornado um gatilho para seu desejo.

​— Você assina tudo o que ele te pede sem ler, Sophie? — a voz de Henrique surgiu rente ao seu ouvido, um sussurro carregado de uma autoridade que a fazia querer obedecer.

​— Eu confio no Enzo — ela murmurou, sentindo os pelos da nuca se arrepiarem com o hálito dele.

​— Confiança é uma virtude perigosa nesta família — Henrique disse. Ele estendeu a mão para pegar o papel da mesa para conferir, mas, ao fazê-lo, seu braço roçou deliberadamente contra o seio de Sophie. Foi um contato firme, lento, que fez o mamilo dela reagir instantaneamente sob a seda. — Especialmente quando o homem que deveria te proteger está ocupado demais olhando para uma tela.

​Ele se inclinou sobre ela para assinar como testemunha. A proximidade era torturante. Sophie podia sentir a pressão do corpo de Henrique contra o seu, o terno dele roçando em sua pele. Quando ele terminou de assinar, ele não se afastou imediatamente. Ele virou o rosto, os olhos cinza-metálicos queimando os dela a poucos centímetros de distância. Ele não cobrou nada, não pediu nada, mas o olhar dizia que ele sabia exatamente o quão excitada ela estava.

​— Agora você é, oficialmente, a futura esposa dele — Henrique disse, e por um segundo, a máscara de discrição caiu, revelando uma posse crua. — Vamos almoçar. Eu conheço um lugar onde a privacidade é... respeitada.

​O almoço foi em um restaurante com vista para o skyline, frequentado pela elite. Enzo, agora mais relaxado por ter resolvido as pendências, agia com a habitual doçura. Ele segurava a mão de Sophie sobre a mesa de vez em quando, fazendo planos para o jantar de noivado.

​— O vovô quer que seja na semana que vem. O que você acha, Soph?

​— O que você decidir está bom, Enzo — ela respondeu, mas sua atenção estava totalmente voltada para Henrique, sentado à frente deles.

​Henrique estava em silêncio, observando a mão de Enzo sobre a de Sophie. O desdém no olhar dele era evidente. Quando o garçom trouxe o vinho, Henrique fez questão de servir Sophie. No processo, seus dedos envolveram os dela na base da taça, uma pressão quente que durou mais do que o necessário.

​Sob a toalha de linho branco, Henrique foi mais longe. Ele encontrou o pé de Sophie com o seu, subindo a perna do calçado dele pela panturrilha dela. Sophie estremeceu, tentando manter o foco na conversa de Enzo sobre a lista de convidados.

​— Você está gostando do vinho, Sophie? — Henrique perguntou, a voz aveludada, enquanto seus olhos prateados a desafiavam.

​— Sim... é muito bom — ela respondeu, sentindo o calor subir novamente entre suas pernas.

​Enzo se levantou por um momento para cumprimentar um conhecido em outra mesa. Sophie ficou a sós com Henrique por menos de um minuto, mas foi o suficiente. Henrique não disse nada sobre o casamento ou sobre Enzo. Ele apenas inclinou-se para frente, a mão mergulhando por baixo da mesa com uma velocidade predatória. Ele encontrou a coxa de Sophie e subiu sem hesitação, seus dedos pressionando com força o centro da intimidade dela por cima da seda fina.

​Sophie arqueou as costas, abafando um gemido com um gole de vinho. O prazer foi um choque elétrico, agudo e imediato. Henrique não parou; ele continuou a pressão, observando as pupilas dela se dilatarem e sua respiração se tornar curta. Ele não perguntou se ela queria; ele simplesmente tomou o que o filho ignorava.

​Ele retirou a mão exatamente quando Enzo começou a voltar para a mesa. Henrique recostou-se na cadeira, pegando sua taça de vinho com uma calma que beirava o sadismo. Sophie estava em frangalhos, o corpo tremendo.

​— Está tudo bem, Soph? — Enzo perguntou, sentando-se. — Você está um pouco vermelha. Deve ser o sol dessa varanda.

​— É... o sol — ela conseguiu dizer, sem conseguir olhar para Henrique.

​— Precisamos proteger a pele da Sophie — Henrique comentou, o brilho prateado em seus olhos prometendo que ele pretendia fazer muito mais do que protegê-la. — Ela é sensível demais para ser exposta sem cuidado.

​Quando voltaram para a mansão, Sophie correu para o seu quarto. Ela precisava de um banho, precisava pensar. Mas, ao passar pelo corredor, ela viu Henrique parado à porta do próprio escritório. Ele não disse nada, apenas a observou passar, um olhar de quem sabia que, por trás de cada papel assinado, era ele quem estava realmente no comando.

​Sophie fechou a porta do quarto e encostou-se nela, o coração ainda martelando. Ela viera para salvar Enzo, mas estava começando a perceber que Henrique era quem iria consumi-la — e ela estava desesperada para que o incêndio continuasse.

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