Mundo de ficçãoIniciar sessãoEstava no meu escritório e o ar ali dentro estava como sempre pesado, cheiro de couro, charuto e poder. Mas naquele dia, como nos últimos dias, a minha mente não estava nos negócios e sim em Alessandra.
Nenhuma mulher tinha feito aquilo comigo. Nenhuma mulher tinha tido a coragem de entrar na minha vida, me dar o melhor prazer que eu já senti, e simplesmente desaparecer de madrugada, sem deixar rastro, sem telefone, sem endereço. Eu, Dante Romano. O Capo. O homem que todos temem, que todos obedecem, que possui tudo e todos onde quer que eu vá. E ela me tratou com indiferença. E isso não doeu só no meu orgulho, mexeu com algo muito mais fundo, algo perigoso e possessivo que existia dentro de mim. A porta se abriu sem bater , apenas os meus homens de confiança tinham esse direito , e Salvador entrou. Ele era um dos mais antigos, leal como um cão de guarda, discreto, eficaz. Nas mãos, segurava um envelope pardo, grosso, fechado com lacre. Ele parou em frente à minha mesa, o rosto sério, sem expressão. — Aí está tudo que consegui encontrar sobre a senhorita, patrão disse ele, estendendo o envelope devagar. Tudo o que existe nos registros, tudo o que precisamos saber. Eu não escondi o meu desespero, a necessidade urgente que eu sentia de saber quem ela era, onde ela estava, como encontrá-la. Arranquei o envelope da mão dele com força e rasguei o papel grosso com as unhas, abrindo de qualquer jeito, querendo ver, querendo saber, querendo finalmente ter o controle de novo. Dentro havia folhas impressas, fotos, dados. Li tudo depressa, os olhos correndo pelas linhas: nome completo, idade, estado civil, endereço residencial... e então parei numa linha específica, e um sorriso lento, cruel e completamente sádico abriu caminho nos meus lábios. Ela trabalhava em uma das minhas filiais, esteve o tempo todo bem aqui, debaixo do meu nariz trabalhando para mim, sem nem fazer ideia. E nos registros dela, não havia nada sobre o noivo, nada sobre família, apenas que ela estava sozinha agora, recomeçando. O destino parecia estar, finalmente, cem por cento a meu favor. Ela achou que podia fugir? Que podia ir embora e eu nunca mais iria saber dela? Que piada. Ela pertencia a mim desde o momento em que olhou nos meus olhos naquela boate. Salvador observava o meu rosto, esperando uma ordem. — Te ajuda, patrão? perguntou ele, baixo. Eu ergui os olhos, brilhantes, cheios de uma satisfação que eu não conseguia explicar, e fechei os papéis com um baque seco sobre a mesa. — E você não imagina o quanto, Salvador. Você não imagina o quanto. Peguei o telefone fixo sobre a mesa, disquei o número direto do gerente da filial Sul , era um homem que tremia só de ouvir a minha voz. Ele atendeu na terceira batida, apressado. — Senhor Dante! Que honra, o que posso fazer por o senhor? a voz dele saiu ansiosa, respeitosa. Eu sorri para o vazio, sentindo o gosto do poder na boca. — Tenho aqui na minha frente os dados de uma funcionária sua .comecei, devagar, ditando cada palavra com autoridade. — Alessandra. Secretária administrativa. — Ah, sim! Uma das nossas melhores funcionárias, muito competente, dedicada... — ele começou a elogiar, assustado. — Exatamente por isso. interrompi, cortando o seu falatório. "Estou precisando de alguém com o perfil dela aqui, no escritório central. Quero que faça o seguinte: promoção imediata. Novo cargo: Secretária Pessoal da Diretoria. Novo salário: o triplo do que ela ganha aí. Benefícios completos. — Sim, senhor! Tudo feito, ainda hoje mesmo providenciaremos tudo! Ela iria aceitar, claro. Era uma promoção dos sonhos, uma chance de ouro para quem estava recomeçando a vida, precisando de estabilidade. Ela ia chegar aqui achando que tinha sido sorte, achando que o seu esforço tinha valido a pena, achando que estava conquistando o seu lugar. Mal sabia ela que estava apenas caindo na armadilha que eu mesmo tinha preparado com todo o cuidado. A mulher que fugiu de madrugada, que me deixou sozinho, que achou que tinha escapado... agora seria obrigada a estar ao meu lado todos os dias. Ver o meu rosto, ouvir a minha voz, obedecer às minhas ordens, estar a um passo de mim o tempo todo. Deixei o envelope de lado, recostuei-me na cadeira e entrelacei os dedos em frente ao rosto, com um sorriso que poderia causar medo em qualquer um que o visse. Agora ela não me escapa... Ela correu uma vez. Mas da próxima vez que eu a tiver nos meus braços, não vai existir porta, nem madrugada, nem lugar nenhum no mundo onde ela possa ir para se esconder de mim. Ela é minha. E eu farei questão de lembrá-la disso todos os dias , todas as noites . Não sabia quanto tempo duraria essa minha obsessão por ela, até porque isso nunca me tinha acontecido. Nunca ninguém mexeu com a minha cabeça desse jeito, nunca ninguém fez com que o poder, o dinheiro e o medo que eu causo em todo mundo parecessem tão pequenos e sem importância perto da necessidade de tê-la. Chegava a sentir uma raiva estranha, um ciúme que eu não sabia explicar, inveja do seu ex traidor , por ter-la conhecido primeiro, por ter sido sua primeira ilusão amorosa, por ter colhido seu primeiro beijo, seu primeiro toque, por ter tido o privilégio de marcar a vida dela antes que eu pudesse chegar e reivindicar o que já deveria ser meu desde sempre. O ódio que eu sentia por esse desconhecido que tinha o mesmo nome do meu irmão, Lucas , era tão grande, que por um momento eu desejei poder voltar no tempo, chegar antes dele , e ser eu o único homem a existir na vida dela. Ele teve tudo isso, e mesmo assim foi idiota o suficiente para machucá-la, para traí-la, para jogar fora o tesouro que tinha nas mãos. Mas agora eu a reivindicaria e exterminaria tudo e todos que se colocassem no meu caminho.






