Mundo ficciónIniciar sesiónPOV. Augusto
Katiane já foi embora. E eu continuo sentado à minha mesa, esperando Lorenzo aparecer com notícias daquela doida. Paro de digitar. Fico pensativo. Doida mesmo… Quem ela pensa que é pra me enfrentar daquele jeito? Nem Poliana jamais fez isso. E aqueles olhos verdes… Brilhando de fúria, como se não tivessem medo nenhum de mim. — Meu Deus, eu enlouqueci, só pode — murmuro, pegando a garrafa de água e virando de uma vez. Já anoiteceu. E eu ainda estou aqui. A porta se abre com pressa. — Consegui, Augusto! Ergo o olhar, confuso. — Conseguiu o quê, exatamente? — Descobri tudo sobre a mulher que você me pediu. Me levanto imediatamente. — Desembucha, Lorenzo. — Bom… ela vai aceitar a proposta em breve.Tenho certeza. Franzo o cenho. — Que proposta? Eu não te pedi isso. Mandei investigar quem ela é. — Ah, Augusto… eu ofereci o trabalho pra ela. Como sua prima disse: ela é perfeita para o cargo. Meu sangue ferve. — Ficou doido? Passou por cima de mim assim? Ele se senta no sofá, calmo demais para o meu gosto. — Augusto, ela é a única pessoa que vai aguentar trabalhar com você. Ela não abaixa a cabeça. E você precisa de alguém assim. — E por que eu iria querer alguém que me enfrenta? Tá maluco? — Porque eu não aguento mais trabalhar dobrado. Faço meu serviço e o da secretária. Ninguém fica aqui. O silêncio pesa. Por esse lado… ele está certo. Sento ao lado dele. — Tem mais uma coisa — Lorenzo continua. — Ela precisa muito desse emprego. Ela e a irmã sustentam o pai, que está doente. A irmã é estilista, mas não conseguiu se firmar… trabalha ajudando em um ateliê. — Lorenzo, eu não sou dono de empresa de caridade. Menos. Ele se levanta de repente. — Cansei. Ou você contrata a Sol, ou eu me demito. Não vou continuar aqui feito um doido, carregando tudo sozinho. Fico de pé também. — Está me ameaçando, Lorenzo? Ele me encara, firme. — Augusto, até isso essa garota despertou nesse escritório. Eu cansei de te tratar como um coitado. Você não é. Só é insolente demais pra perceber. Arregalo os olhos. Incrédulo. Ele não diz mais nada. Sai da sala, deixando o peso das palavras no ar. Acho que o Lorenzo enlouqueceu também. Mais tarde… Entro em casa e jogo as chaves sobre a mesa de centro. Vou direto para o quarto. Tiro a camisa e encaro meu reflexo no espelho. — Sol… — murmuro. — Esse é o seu nome, olhos verdes. Ativo a Alexa. — Mirrors, Justin Timberlake. A música começa a tocar enquanto ligo o chuveiro. Deixo a água cair sobre o meu corpo e fecho os olhos. Um flash. Ela no cemitério. Assustada. Depois, na empresa. Desafiadora. — Essa garota é maluca… muito maluca. Seguro o sorriso que insiste em surgir. Ela está me fazendo sorrir. Mesmo que em segredo. .... Dia seguinte… O sol invade a janela do meu quarto. Desperto lentamente — e algo está errado. Meu celular não despertou. Pulo da cama assustada, procurando por ele, e é quando percebo que a cama da Ana já está arrumada. — Como assim você não me chamou, Ana? — falo sozinha, ainda atordoada. Começo a revirar o guarda-roupa enlouquecidamente, puxando roupas sem pensar. Uma batida leve na porta me interrompe. Dona Geralda entra sorrindo. — Querida, fiz um café fresquinho! — Estou atrasadíssima, Dona Geralda! — Atrasada pra onde? — ela pergunta com calma. — A Ana disse que você ficaria em casa hoje. É quando a ficha cai. Sento na cama e solto uma gargalhada curta, quase incrédula. Respiro fundo. — É verdade… perdi o emprego ontem. Esqueci disso. — balanço a cabeça — Sou oficialmente uma desempregada, Dona Geralda. Ela ri e se senta ao meu lado. — E não vai aceitar a proposta de trabalhar com o bonitão? — Ainda não decidi… — digo, puxando a calça jeans — Ontem descobri que ele é um magnata. Riquíssimo. — Ah… — ela sorri de canto — Tá explicado então, minha filha. Deve se sentir superior a todo mundo. Paro por um segundo. Olho pra ela. Algo dentro de mim desperta. — Acabou de me convencer, Dona Geralda. — digo, determinada — Vou ensinar aquele homem como se trata um ser humano. E, de quebra, ainda ganho um salário. Ela levanta o polegar em aprovação e sai do quarto sorrindo. Visto minha blusa de lã branca, calço o tênis e me encaro no espelho. — Senhor magnata… hoje você vai me conhecer como eu realmente sou. — aponto pra mim mesma — Não vou trabalhar de salto pra você, não. Vai ser do meu jeito… ou não vai ser. Saio do quarto, pego a bolsa na sala. Lá dentro, o cartão do Lorenzo. Tento ligar. Nada. — Ótimo… — murmuro — Então vai ser pessoalmente. — Boa sorte, minha menina! — grita Dona Geralda da cozinha. Saio de casa e caminho até o ponto de ônibus. Olho para o céu por um instante. — Mãezinha… — sussurro — Preciso de sorte hoje. Por favor.






