Capítulo 05

POV. Augusto

Katiane já foi embora.

E eu continuo sentado à minha mesa, esperando Lorenzo aparecer com notícias daquela doida.

Paro de digitar.

Fico pensativo.

Doida mesmo…

Quem ela pensa que é pra me enfrentar daquele jeito?

Nem Poliana jamais fez isso.

E aqueles olhos verdes…

Brilhando de fúria, como se não tivessem medo nenhum de mim.

— Meu Deus, eu enlouqueci, só pode — murmuro, pegando a garrafa de água e virando de uma vez.

Já anoiteceu.

E eu ainda estou aqui.

A porta se abre com pressa.

— Consegui, Augusto!

Ergo o olhar, confuso.

— Conseguiu o quê, exatamente?

— Descobri tudo sobre a mulher que você me pediu.

Me levanto imediatamente.

— Desembucha, Lorenzo.

— Bom… ela vai aceitar a proposta em breve.Tenho certeza.

Franzo o cenho.

— Que proposta? Eu não te pedi isso. Mandei investigar quem ela é.

— Ah, Augusto… eu ofereci o trabalho pra ela. Como sua prima disse: ela é perfeita para o cargo.

Meu sangue ferve.

— Ficou doido? Passou por cima de mim assim?

Ele se senta no sofá, calmo demais para o meu gosto.

— Augusto, ela é a única pessoa que vai aguentar trabalhar com você. Ela não abaixa a cabeça. E você precisa de alguém assim.

— E por que eu iria querer alguém que me enfrenta? Tá maluco?

— Porque eu não aguento mais trabalhar dobrado. Faço meu serviço e o da secretária. Ninguém fica aqui.

O silêncio pesa.

Por esse lado… ele está certo.

Sento ao lado dele.

— Tem mais uma coisa — Lorenzo continua. — Ela precisa muito desse emprego. Ela e a irmã sustentam o pai, que está doente. A irmã é estilista, mas não conseguiu se firmar… trabalha ajudando em um ateliê.

— Lorenzo, eu não sou dono de empresa de caridade. Menos.

Ele se levanta de repente.

— Cansei. Ou você contrata a Sol, ou eu me demito. Não vou continuar aqui feito um doido, carregando tudo sozinho.

Fico de pé também.

— Está me ameaçando, Lorenzo?

Ele me encara, firme.

— Augusto, até isso essa garota despertou nesse escritório. Eu cansei de te tratar como um coitado. Você não é. Só é insolente demais pra perceber.

Arregalo os olhos.

Incrédulo.

Ele não diz mais nada.

Sai da sala, deixando o peso das palavras no ar.

Acho que o Lorenzo enlouqueceu também.

Mais tarde…

Entro em casa e jogo as chaves sobre a mesa de centro.

Vou direto para o quarto.

Tiro a camisa e encaro meu reflexo no espelho.

— Sol… — murmuro. — Esse é o seu nome, olhos verdes.

Ativo a Alexa.

— Mirrors, Justin Timberlake.

A música começa a tocar enquanto ligo o chuveiro.

Deixo a água cair sobre o meu corpo e fecho os olhos.

Um flash.

Ela no cemitério.

Assustada.

Depois, na empresa.

Desafiadora.

— Essa garota é maluca… muito maluca.

Seguro o sorriso que insiste em surgir.

Ela está me fazendo sorrir.

Mesmo que em segredo.

....

Dia seguinte…

O sol invade a janela do meu quarto.

Desperto lentamente — e algo está errado.

Meu celular não despertou.

Pulo da cama assustada, procurando por ele, e é quando percebo que a cama da Ana já está arrumada.

— Como assim você não me chamou, Ana? — falo sozinha, ainda atordoada.

Começo a revirar o guarda-roupa enlouquecidamente, puxando roupas sem pensar.

Uma batida leve na porta me interrompe.

Dona Geralda entra sorrindo.

— Querida, fiz um café fresquinho!

— Estou atrasadíssima, Dona Geralda!

— Atrasada pra onde? — ela pergunta com calma. — A Ana disse que você ficaria em casa hoje.

É quando a ficha cai.

Sento na cama e solto uma gargalhada curta, quase incrédula.

Respiro fundo.

— É verdade… perdi o emprego ontem. Esqueci disso. — balanço a cabeça — Sou oficialmente uma desempregada, Dona Geralda.

Ela ri e se senta ao meu lado.

— E não vai aceitar a proposta de trabalhar com o bonitão?

— Ainda não decidi… — digo, puxando a calça jeans — Ontem descobri que ele é um magnata. Riquíssimo.

— Ah… — ela sorri de canto — Tá explicado então, minha filha. Deve se sentir superior a todo mundo.

Paro por um segundo.

Olho pra ela.

Algo dentro de mim desperta.

— Acabou de me convencer, Dona Geralda. — digo, determinada — Vou ensinar aquele homem como se trata um ser humano. E, de quebra, ainda ganho um salário.

Ela levanta o polegar em aprovação e sai do quarto sorrindo.

Visto minha blusa de lã branca, calço o tênis e me encaro no espelho.

— Senhor magnata… hoje você vai me conhecer como eu realmente sou. — aponto pra mim mesma — Não vou trabalhar de salto pra você, não. Vai ser do meu jeito… ou não vai ser.

Saio do quarto, pego a bolsa na sala.

Lá dentro, o cartão do Lorenzo.

Tento ligar.

Nada.

— Ótimo… — murmuro — Então vai ser pessoalmente.

— Boa sorte, minha menina! — grita Dona Geralda da cozinha.

Saio de casa e caminho até o ponto de ônibus.

Olho para o céu por um instante.

— Mãezinha… — sussurro — Preciso de sorte hoje. Por favor.

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