No hospital, a enfermeira limpava e desinfetava o ferimento dela com cuidado.
— Senhorita, a queimadura é um pouco séria. Você precisa cuidar direitinho, caso contrário vai deixar cicatriz.
Cristiane assentiu. As camadas e mais camadas de gaze que envolviam seu corpo eram tão brancas que chegavam a doer nos olhos.
De repente, uma lembrança lhe veio à mente. Naquele ano em que trabalhava lavando pratos em um restaurante, ela cortara o dedo por acidente. Vinícius chorara de tanta preocupação, segurando o dedo dela contra o peito enquanto o acariciava com ternura.
E agora… Ela não passava de uma estranha para ele.
Sim. Quando assinara o acordo de divórcio, ela e Vinícius já não tinham mais qualquer vínculo.
O celular vibrou. Uma mensagem de Vinícius.
[Como está o ferimento? Não consigo sair daqui agora. Se precisar de algo, fale com a secretária.]
Cristiane digitou apenas duas palavras:
[Não precisa.]
Sem pensar mais, guardou o celular. Deixou o hospital e voltou para casa.
Ao chegar no quarto, deitou-se. O cansaço físico e emocional era tão profundo que, em poucos minutos, adormeceu profundamente.
No meio do sono, sentiu o colchão afundar ao seu lado. Logo depois, um corpo quente se deitou sobre o dela. Os movimentos do homem eram rudes, apressados, e roçavam exatamente onde ela estava ferida, fazendo a dor explodir.
— Dói!
Cristiane afastou as mãos que avançavam sobre seu corpo. Era… Vinícius.
Ela nem lembrava mais há quanto tempo ele não voltava para casa. Provavelmente desde a noite em que ele pediu o primeiro divórcio e ela saltou do terraço. Vinícius, com os olhos vermelhos, a levara ao hospital naquela noite. Mas, a partir dali, parecia que um abismo se abrira entre os dois. E, como se tivesse tomado uma decisão irrevogável, ele deixara claro: enquanto ela não concordasse com o divórcio, ele não voltaria.
Cristiane ficava sentada em casa, esperando por ele dia após dia. Depois passou a ir até a empresa para encontrá-lo. Mais tarde, chegou a contratar detetives particulares para ter notícias suas.
Mas agora… Agora ela não precisava mais dele.
A mão do homem hesitou por um instante, como se a reação dela o tivesse surpreendido. Em seguida, ele se virou e se sentou ao lado dela.
— Desculpa. Fui apressado demais, esqueci que você estava machucada. Eu só queria que você entendesse que, independentemente do que aconteça entre mim e a Jaqueline, você é a única esposa que eu reconheço no meu coração.
"Esposa? Uma esposa sem casamento, sem reconhecimento, sem sequer um registro oficial."
Cristiane soltou uma risada curta, amarga, irônica. Uma esposa assim… Ela já não desejava ser.
Vinícius, percebendo o silêncio dela, achou que era por causa do que acontecera mais cedo. Inclinou-se e beijou suavemente sua testa.
— Cris, eu sei que você guarda mágoa. Mas precisamos pensar no panorama maior. Descanse e cuide do ferimento. Hoje vou dormir no escritório.
No meio da madrugada, a dor latejante da queimadura a fez acordar. Ela foi até a sala procurar um analgésico. Ao passar pela porta do escritório, ouviu a voz baixa de Vinícius lá dentro. A voz dele era grave:
— Sim, já consegui o acordo de divórcio hoje. Amanhã posso informar ao conselho sobre meu estado civil.
Do outro lado da ligação, alguém riu com deboche:
— Cristiane realmente aceitou se divorciar de você? Inacreditável. Como conseguiu convencê-la?
— Acho que ela finalmente entendeu. Ela sempre foi muito compreensiva comigo. — Vinícius suspirou.
— E agora… Você realmente pretende se casar com a Jaqueline?
Vinícius ficou em silêncio por um longo tempo antes de responder:
— No começo, quando me aproximei da Jaqueline, é claro que eu queria me conectar à família Souza. Mas, depois… Cada dia ao lado dela foi leve, confortável. Ela sempre entende o que eu penso. Às vezes, basta um olhar e ela já sabe. Diferente da Cristiane. Sempre que vejo o rosto dela, lembro do quanto eu era insignificante naquela época… Pobre a ponto de depender de uma mulher para sobreviver. Aquela fase foi o maior pesadelo da minha vida.
Do lado de fora da porta, o corpo de Cristiane tremia descontroladamente. As lágrimas desciam sem aviso, queimando suas bochechas.
Então era aquilo. Os dias que ela tanto valorizou… Os anos em que ela se sacrificou por ele… Para ele, nada mais eram que um pesadelo insuportável.
Então ela era o quê, exatamente?
A voz de Vinícius continuou:
— Quando a empresa abrir capital, pretendo pedir a Jaque em casamento.
Há poucos minutos, ele dissera que ela era a única esposa no coração dele. E agora… Faria um pedido de casamento a outra mulher.
Cristiane chorava. Chorava tanto que acabou rindo, um riso vazio, estilhaçado. A queimadura ainda doía, podia sentir a pele latejar… Mas aquela dor física não valia nem um por cento do que ardia em seu peito.
Basta. Ela não queria mais nada. Só queria ir embora dali o mais rápido possível.
No dia seguinte, Cristiane foi ao shopping escolher um presente para dar à tia quando se encontrassem. Entrou em uma boutique e se encantou com um lenço de seda. Estava prestes a chamar a vendedora quando ouviu um tumulto do lado de fora.
— Pessoal, por favor, precisamos que todos se retirem agora. A loja está reservada pelo Sr. Vinícius. Obrigado pela compreensão.
Alguns seguranças enormes vieram abrindo espaço. Pelo vão entre eles, Cristiane viu a silhueta de Vinícius e Jaqueline. Em pouco tempo, a loja foi esvaziada. Mas ela, escondida no canto ao fundo, passou despercebida pelos seguranças.