Ella sentiu o peso do silêncio assim que cruzou os limites da clareira.
A floresta, que momentos antes parecera viva e cúmplice, tornava-se novamente o território da alcateia — rígido, atento, repleto de regras invisíveis. Cada árvore marcada, cada trilha conhecida, lembrava-lhe exatamente quem ela era… e o que se esperava dela.
A filha do alfa.
O título nunca lhe soara como honra. Sempre fora uma responsabilidade pesada demais para ombros que, naquela noite, ainda tremiam por algo que não deveria ter acontecido.
Ela respirou fundo, tentando organizar os pensamentos. O encontro com o lobo solitário não fazia sentido. Não deveria ter passado de um alerta, de um risco evitado. Mas não fora assim. Algo nele havia atravessado suas defesas com facilidade assustadora — o olhar firme, a postura sem submissão, o cheiro que ainda parecia impregnado em sua pele.
Ella apertou os dedos contra o próprio braço, como se pudesse afastar aquela sensação.
— Controle — murmurou para si mesma.
Era isso que sempre lhe fora ensinado.
Ao se aproximar do centro da alcateia, sentiu a presença antes mesmo de vê-lo. Seu pai estava ali. O alfa. Imóvel, atento, como se a própria floresta se moldasse ao redor dele.
— Você se afastou demais esta noite — disse ele, sem virar o rosto.
A voz era calma, mas carregava autoridade suficiente para fazer qualquer lobo baixar a cabeça. Ella manteve o queixo erguido.
— Eu precisava pensar.
O alfa finalmente se virou, os olhos avaliando-a com precisão desconfortável. Ele conhecia cada variação em seu comportamento. Cada respiração fora do ritmo.
— A lua cheia desperta inquietações — respondeu. — Mas você não é como os outros. Precisa ser mais forte.
Ella sentiu o peso daquelas palavras cravar-se em seu peito.
— Eu sei qual é o meu dever — disse, firme.
— Sabe mesmo? — ele questionou, aproximando-se um passo. — Porque em breve você precisará provar isso.
O aviso ficou suspenso entre eles.
— Amanhã receberemos outra alcateia — continuou o alfa. — Precisamos reforçar alianças. O equilíbrio depende disso.
Ella entendeu imediatamente o que ele não dizia. Alianças nunca eram apenas políticas. Envolviam promessas antigas, acordos silenciosos… e escolhas que não lhe pertenciam.
— Estarei pronta — respondeu, mesmo sentindo o coração apertar.
O alfa a observou por mais alguns segundos, então assentiu.
— Vá descansar.
Ella obedeceu, mas cada passo em direção à sua cabana parecia mais pesado que o anterior.
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Sozinha, o quarto lhe pareceu pequeno demais.
Ella sentou-se à beira da cama, passando a mão pelos cabelos, tentando afastar a imagem que insistia em retornar à sua mente. Os olhos de Liam. A forma como ele se movera na clareira, como se não temesse nada — nem mesmo o fato de estar em território inimigo.
Um lobo solitário.
O tipo de perigo que sua alcateia não tolerava.
Ela se levantou e abriu a janela, deixando o ar noturno entrar. A lua ainda estava alta, observando-a como uma testemunha silenciosa. Pela primeira vez, Ella sentiu que o céu não era apenas um símbolo de proteção… mas de desafio.
— Por que agora? — sussurrou.
Tudo em sua vida fora planejado. Seu futuro, traçado antes mesmo que pudesse questioná-lo. Ainda assim, bastara um único encontro para que aquela certeza começasse a rachar.
Ella levou a mão ao peito.
O coração batia rápido demais.
Ela não sabia o nome do que sentira na clareira. Mas sabia que não era algo pequeno. Nem passageiro.
E isso a assustava mais do que qualquer punição de seu pai.
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Do outro lado da floresta, longe das marcas da alcateia, Liam parou sob a copa fechada das árvores.
Ele apoiou a mão em um tronco áspero, fechando os olhos com força. O cheiro dela ainda estava ali. Não deveria estar. Não depois de tanto tempo sobrevivendo sozinho, evitando exatamente esse tipo de ligação.
— Filha do alfa… — murmurou.
Era o pior destino possível.
Liam havia jurado nunca mais se envolver. Nunca mais permitir que a lua o conduzisse a escolhas que cobravam um preço alto demais. E, ainda assim, naquela noite, sentira algo antigo despertar — algo que ele acreditava enterrado junto ao passado.
Ele se endireitou lentamente.
— Isso precisa acabar — disse para si mesmo.
Mas, no fundo, sabia a verdade.
A lua não escolhe sem propósito.
E, quando escolhe, cobra.
Em algum ponto entre dever e desejo, dois caminhos haviam se cruzado. E nenhum dos dois lobos estava preparado para o que viria a seguir.