A lua cheia subiu lenta no céu, como se soubesse exatamente o que despertava quando alcançava o ponto mais alto.
Ella sentiu o chamado antes mesmo de admitir para si mesma. Passara o dia inteiro tentando se ocupar — treinou com a alcateia, ouviu conselhos que já conhecia de cor, respondeu perguntas que nunca eram, de fato, perguntas. Tudo para não pensar. Tudo para não sentir.
Foi inútil.
Quando a noite caiu e a lua começou a brilhar com força incomum, seu lobo interior se agitou, inquieto, insistente. Não era ansiedade. Era reconhecimento. Um puxão invisível que a conduzia para longe das cabanas, longe dos olhos atentos, de volta ao único lugar onde tudo começara.
A clareira.
Ella respirou fundo antes de atravessar os limites do território novamente. Sabia exatamente o risco que corria. Se fosse descoberta ali, sozinha, sob a lua cheia, teria de responder não apenas como filha… mas como promessa da alcateia.
Ainda assim, seus passos não hesitaram.
A floresta parecia diferente naquela noite. Mais viva. Mais alerta. As sombras se moviam com sutileza, e o vento trazia cheiros que faziam seu coração acelerar. Quando ela chegou à clareira, parou no mesmo ponto da noite anterior, sentindo a luz prateada tocar sua pele.
Por um instante, pensou estar sozinha.
Então o sentiu.
O cheiro dele surgiu no ar, firme, inconfundível, fazendo seu corpo reagir antes que a razão pudesse intervir. Ella girou lentamente, os sentidos em alerta, o coração batendo forte demais.
— Eu disse que isso precisava acabar.
A voz de Liam veio das sombras, baixa, controlada. Ele surgiu entre as árvores como se sempre tivesse pertencido àquele lugar — alto, imóvel, os olhos refletindo a lua com intensidade perigosa.
— E eu disse que você precisava ir embora — respondeu Ella, tentando manter a firmeza.
Liam deu um passo à frente, parando a uma distância respeitosa, mas carregada de tensão.
— Então por que você voltou?
A pergunta a atingiu em cheio.
Ella abriu a boca para responder, mas nenhuma mentira parecia suficiente. Ela fechou os punhos, sentindo a própria pulsação ecoar nos ouvidos.
— Eu não vim por você — disse, mesmo sabendo que ele sentiria a falsidade nas palavras.
Um leve sorriso surgiu no canto da boca de Liam. Não era provocação. Era reconhecimento.
— A lua mente melhor do que nós dois — respondeu.
O silêncio se estendeu entre eles, denso, elétrico. Cada segundo parecia carregar mais coisas do que qualquer conversa poderia conter. O vento passou novamente, misturando seus cheiros, fazendo o lobo de Liam se agitar sob a pele.
— Você sabe o que eu sou — disse Ella, quebrando o silêncio. — E sabe o que isso significa.
— Sei — respondeu ele. — Significa que eu deveria estar longe. Muito longe.
— Então vá — ela insistiu.
Liam a encarou por um momento longo demais. Seus olhos desceram por seu rosto, demoraram-se em sua boca, depois voltaram aos seus olhos com intensidade contida.
— Se eu for agora — disse ele —, isso vai nos seguir.
Ella sentiu o arrepio percorrer-lhe a espinha.
— Não existe “nós”.
— Existe — respondeu Liam, com firmeza inesperada. — Desde o momento em que você sentiu meu cheiro e não correu.
A verdade daquela afirmação a fez prender a respiração.
Ella deu um passo para trás, tentando criar distância. Liam não avançou. Ainda assim, a presença dele parecia ocupar todo o espaço ao redor.
— Você não entende — disse ela, a voz mais baixa. — Meu pai já está negociando alianças. Meu futuro não é meu.
— E você aceita isso? — ele perguntou.
A pergunta ecoou como um desafio silencioso.
Ella desviou o olhar por um instante, encarando a lua. Durante toda a vida, nunca questionara em voz alta. Nunca se permitira desejar algo diferente. Até agora.
— Eu aceitei porque nunca tive escolha — respondeu.
Liam se aproximou um passo, o suficiente para que o calor entre eles se tornasse impossível de ignorar.
— E agora?
Ella voltou a encará-lo. Seus olhos refletiam algo novo. Algo perigoso.
— Agora eu não sei mais.
A honestidade entre eles era crua demais para ser ignorada. Liam sentiu o próprio controle vacilar. O instinto gritava para se aproximar, para tocá-la, para marcar o que a lua parecia já ter escolhido.
Ele respirou fundo, lutando contra isso.
— Se continuarmos — disse ele —, não haverá volta.
Ella sentiu o coração bater forte, mas não recuou.
— Talvez eu não queira voltar.
As palavras pairaram no ar, carregadas de significado.
Liam ergueu a mão lentamente, parando a centímetros do rosto dela, como se pedisse permissão sem palavras. Ella não se afastou. Não o deteve.
Quando os dedos dele tocaram sua pele pela primeira vez, o mundo pareceu se contrair. O toque foi leve, quase respeitoso, mas carregado de algo antigo, instintivo. Ella fechou os olhos por um segundo, sentindo o arrepio se espalhar.
— Isso é errado — ela sussurrou.
— Eu sei — ele respondeu, aproximando-se mais.
O beijo não aconteceu. Não ainda. Mas a proximidade era suficiente para incendiar tudo. O cheiro dele a envolvia, firme, protetor. O dela fazia o lobo de Liam rosnar baixo, exigente.
Eles permaneceram assim por longos segundos, presos naquele limite invisível.
Foi Ella quem se afastou primeiro, respirando fundo, os olhos escurecidos pela emoção.
— Não aqui — disse. — Não assim.
Liam assentiu lentamente.
— Então este é apenas um encontro — respondeu. — Sob a lua cheia.
Ella sabia que aquilo era uma mentira confortável. Nada naquele momento era simples. Ainda assim, quando ele recuou um passo, ela sentiu uma estranha mistura de alívio e perda.
— Tome cuidado — disse ela. — Se for visto…
— Eu sei sobreviver — respondeu Liam. — É o que faço.
Ele se virou, caminhando em direção às sombras, mas parou antes de desaparecer.
— Ella.
Ela ergueu o olhar.
— A lua não nos reuniu por acaso.
E então ele se foi.
Sozinha na clareira, Ella levou a mão aos lábios, sentindo o calor que quase fora compartilhado. Sabia, com uma certeza silenciosa, que aquele encontro mudara algo fundamental dentro dela.
A lua cheia brilhava acima, indiferente às regras, às tradições, às consequências.
E, naquele instante, Ella entendeu que não havia mais como fingir.
O proibido já havia começado.