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CAPÍTULO 3 — O ENCONTRO SOB A LUA CHEIA

A lua cheia subiu lenta no céu, como se soubesse exatamente o que despertava quando alcançava o ponto mais alto.

Ella sentiu o chamado antes mesmo de admitir para si mesma. Passara o dia inteiro tentando se ocupar — treinou com a alcateia, ouviu conselhos que já conhecia de cor, respondeu perguntas que nunca eram, de fato, perguntas. Tudo para não pensar. Tudo para não sentir.

Foi inútil.

Quando a noite caiu e a lua começou a brilhar com força incomum, seu lobo interior se agitou, inquieto, insistente. Não era ansiedade. Era reconhecimento. Um puxão invisível que a conduzia para longe das cabanas, longe dos olhos atentos, de volta ao único lugar onde tudo começara.

A clareira.

Ella respirou fundo antes de atravessar os limites do território novamente. Sabia exatamente o risco que corria. Se fosse descoberta ali, sozinha, sob a lua cheia, teria de responder não apenas como filha… mas como promessa da alcateia.

Ainda assim, seus passos não hesitaram.

A floresta parecia diferente naquela noite. Mais viva. Mais alerta. As sombras se moviam com sutileza, e o vento trazia cheiros que faziam seu coração acelerar. Quando ela chegou à clareira, parou no mesmo ponto da noite anterior, sentindo a luz prateada tocar sua pele.

Por um instante, pensou estar sozinha.

Então o sentiu.

O cheiro dele surgiu no ar, firme, inconfundível, fazendo seu corpo reagir antes que a razão pudesse intervir. Ella girou lentamente, os sentidos em alerta, o coração batendo forte demais.

— Eu disse que isso precisava acabar.

A voz de Liam veio das sombras, baixa, controlada. Ele surgiu entre as árvores como se sempre tivesse pertencido àquele lugar — alto, imóvel, os olhos refletindo a lua com intensidade perigosa.

— E eu disse que você precisava ir embora — respondeu Ella, tentando manter a firmeza.

Liam deu um passo à frente, parando a uma distância respeitosa, mas carregada de tensão.

— Então por que você voltou?

A pergunta a atingiu em cheio.

Ella abriu a boca para responder, mas nenhuma mentira parecia suficiente. Ela fechou os punhos, sentindo a própria pulsação ecoar nos ouvidos.

— Eu não vim por você — disse, mesmo sabendo que ele sentiria a falsidade nas palavras.

Um leve sorriso surgiu no canto da boca de Liam. Não era provocação. Era reconhecimento.

— A lua mente melhor do que nós dois — respondeu.

O silêncio se estendeu entre eles, denso, elétrico. Cada segundo parecia carregar mais coisas do que qualquer conversa poderia conter. O vento passou novamente, misturando seus cheiros, fazendo o lobo de Liam se agitar sob a pele.

— Você sabe o que eu sou — disse Ella, quebrando o silêncio. — E sabe o que isso significa.

— Sei — respondeu ele. — Significa que eu deveria estar longe. Muito longe.

— Então vá — ela insistiu.

Liam a encarou por um momento longo demais. Seus olhos desceram por seu rosto, demoraram-se em sua boca, depois voltaram aos seus olhos com intensidade contida.

— Se eu for agora — disse ele —, isso vai nos seguir.

Ella sentiu o arrepio percorrer-lhe a espinha.

— Não existe “nós”.

— Existe — respondeu Liam, com firmeza inesperada. — Desde o momento em que você sentiu meu cheiro e não correu.

A verdade daquela afirmação a fez prender a respiração.

Ella deu um passo para trás, tentando criar distância. Liam não avançou. Ainda assim, a presença dele parecia ocupar todo o espaço ao redor.

— Você não entende — disse ela, a voz mais baixa. — Meu pai já está negociando alianças. Meu futuro não é meu.

— E você aceita isso? — ele perguntou.

A pergunta ecoou como um desafio silencioso.

Ella desviou o olhar por um instante, encarando a lua. Durante toda a vida, nunca questionara em voz alta. Nunca se permitira desejar algo diferente. Até agora.

— Eu aceitei porque nunca tive escolha — respondeu.

Liam se aproximou um passo, o suficiente para que o calor entre eles se tornasse impossível de ignorar.

— E agora?

Ella voltou a encará-lo. Seus olhos refletiam algo novo. Algo perigoso.

— Agora eu não sei mais.

A honestidade entre eles era crua demais para ser ignorada. Liam sentiu o próprio controle vacilar. O instinto gritava para se aproximar, para tocá-la, para marcar o que a lua parecia já ter escolhido.

Ele respirou fundo, lutando contra isso.

— Se continuarmos — disse ele —, não haverá volta.

Ella sentiu o coração bater forte, mas não recuou.

— Talvez eu não queira voltar.

As palavras pairaram no ar, carregadas de significado.

Liam ergueu a mão lentamente, parando a centímetros do rosto dela, como se pedisse permissão sem palavras. Ella não se afastou. Não o deteve.

Quando os dedos dele tocaram sua pele pela primeira vez, o mundo pareceu se contrair. O toque foi leve, quase respeitoso, mas carregado de algo antigo, instintivo. Ella fechou os olhos por um segundo, sentindo o arrepio se espalhar.

— Isso é errado — ela sussurrou.

— Eu sei — ele respondeu, aproximando-se mais.

O beijo não aconteceu. Não ainda. Mas a proximidade era suficiente para incendiar tudo. O cheiro dele a envolvia, firme, protetor. O dela fazia o lobo de Liam rosnar baixo, exigente.

Eles permaneceram assim por longos segundos, presos naquele limite invisível.

Foi Ella quem se afastou primeiro, respirando fundo, os olhos escurecidos pela emoção.

— Não aqui — disse. — Não assim.

Liam assentiu lentamente.

— Então este é apenas um encontro — respondeu. — Sob a lua cheia.

Ella sabia que aquilo era uma mentira confortável. Nada naquele momento era simples. Ainda assim, quando ele recuou um passo, ela sentiu uma estranha mistura de alívio e perda.

— Tome cuidado — disse ela. — Se for visto…

— Eu sei sobreviver — respondeu Liam. — É o que faço.

Ele se virou, caminhando em direção às sombras, mas parou antes de desaparecer.

— Ella.

Ela ergueu o olhar.

— A lua não nos reuniu por acaso.

E então ele se foi.

Sozinha na clareira, Ella levou a mão aos lábios, sentindo o calor que quase fora compartilhado. Sabia, com uma certeza silenciosa, que aquele encontro mudara algo fundamental dentro dela.

A lua cheia brilhava acima, indiferente às regras, às tradições, às consequências.

E, naquele instante, Ella entendeu que não havia mais como fingir.

O proibido já havia começado.

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