A lua cheia não perguntava se eles estavam prontos — ela apenas revelava tudo aquilo que deveria permanecer proibido.
Liam sentia isso antes mesmo de vê-la surgir entre as copas das árvores. Havia algo diferente no ar naquela noite, uma pressão invisível contra o peito, como se a floresta estivesse prendendo a respiração. Ele caminhava sozinho, como sempre fizera, os passos silenciosos sobre a terra úmida, o corpo atento, os sentidos em alerta constante.
Ser um lobo solitário significava sobreviver sem promessas.
Sem raízes.
Sem vínculos.
E Liam havia aprendido isso da forma mais cruel.
A floresta à sua frente não lhe pertencia. Ele sabia. O cheiro da alcateia estava por toda parte — marcas nos troncos, trilhas invisíveis aos humanos, mas gritantes para um lobo. Ainda assim, atravessara o limite. Não por desafio. Nem por descuido. Algo o chamara. Um impulso antigo, quase instintivo, que ele não soubera ignorar.
O vento mudou de direção.
E foi então que ele sentiu.
O aroma era diferente de tudo que já conhecera. Não vinha carregado de agressividade, nem de domínio. Era suave, mas firme. Forte, mas delicado. Um cheiro que fazia seu lobo interno se agitar, inquieto, como se reconhecesse algo que sua mente ainda se recusava a aceitar.
Liam parou.
Seu corpo reagiu antes que pudesse pensar. Os músculos se tensionaram, o coração acelerou, e uma sensação estranha percorreu sua espinha. Não era ameaça. Era… curiosidade. Desejo. Algo perigosamente próximo da fome.
— Isso não é possível — murmurou para si mesmo, a voz baixa, rouca.
Ele sabia o que aquele tipo de reação significava. E sabia, sobretudo, que não deveria estar acontecendo ali. Não naquele território. Não sob aquela lua.
Ainda assim, seguiu.
Do outro lado da clareira, entre sombras prateadas e folhas agitadas pelo vento, Ella respirava fundo, tentando silenciar os próprios pensamentos. A noite sempre fora seu refúgio. Ali, longe dos olhares da alcateia, longe do peso do nome que carregava, ela podia ser apenas… ela.
A filha do alfa.
O título ecoava em sua mente como uma prisão invisível. Desde que se entendia por gente, seu destino fora traçado com palavras como dever, tradição e futuro. Um futuro que nunca lhe perguntara o que desejava.
Ella caminhou até o centro da clareira, sentindo a luz da lua tocar sua pele como um sussurro. Aquela noite parecia diferente. O ar estava carregado, elétrico, como se algo estivesse prestes a acontecer. Seu lobo interior se movia inquieto, atento, alerta.
Ela parou abruptamente.
O cheiro chegou primeiro.
Estranho.
Novo.
Perigoso.
Ella girou o corpo lentamente, os olhos atentos percorrendo as sombras. Seu coração começou a bater mais rápido, não de medo, mas de reconhecimento. Um reconhecimento que não fazia sentido algum.
— Quem está aí? — perguntou, a voz firme apesar da tensão.
Do outro lado da clareira, Liam a viu.
E tudo parou.
A lua parecia mais brilhante. O mundo, silencioso demais. Ella estava ali, banhada pela luz prateada, os cabelos levemente agitados pelo vento, os olhos atentos, profundos. Ela não parecia frágil. Havia força em sua postura. Autoridade. Algo que fazia qualquer lobo baixar a cabeça… e, ainda assim, desejar se aproximar.
O cheiro dela o envolveu por completo.
— Merda… — ele sussurrou, quase sem ar.
Ela era da alcateia. Não apenas isso. Ele sentia. O poder que emanava dela não vinha apenas do sangue lupino, mas da posição que ocupava. Aquilo tornava tudo ainda mais errado.
Ella o viu então.
Um vulto surgindo entre as árvores, alto, imponente, com olhos que refletiam a luz da lua de um jeito inquietante. Ele não usava marcas da alcateia. Não havia submissão em sua postura. Nem desafio aberto. Apenas presença.
— Você não deveria estar aqui — ela disse, mantendo o queixo erguido.
A voz dela atravessou Liam como um golpe suave, porém certeiro. Ele deu um passo à frente, consciente do risco que corria. Cada metro que os separava parecia carregado de tensão, como uma corda prestes a se romper.
— Eu sei — respondeu. — Mas não vim para causar problemas.
Ella estreitou os olhos, avaliando-o. Seu lobo interno rosnava baixo, não em ataque, mas em alerta. Ainda assim, algo dentro dela se recusava a mandá-lo embora. Algo que não deveria existir.
— Este é território da minha alcateia — disse ela. — Meu pai não tolera intrusos.
“Seu pai.”
Liam entendeu imediatamente.
— Então você é… — ele começou, mas parou.
— A filha do alfa — completou ela, com um misto de orgulho e cansaço. — E você é um lobo solitário imprudente.
Um canto do lábio dele se ergueu, quase um sorriso. Um sorriso contido, perigoso.
— Liam — disse. — É assim que me chamam. Quando ainda se importam em chamar.
O nome ecoou na mente de Ella de uma forma estranha. Familiar demais. Como se a lua o tivesse sussurrado antes.
O silêncio entre eles cresceu. Denso. Cheio de coisas não ditas. O vento passou novamente, misturando seus cheiros, entrelaçando algo que jamais deveria ser unido.
Ella sentiu o arrepio percorrer sua pele.
— Você precisa ir — disse, mas sua voz falhou no final.
Liam percebeu. E foi isso que tornou tudo ainda mais perigoso.
— Eu vou — respondeu. — Mas… — Ele hesitou, como se lutasse contra algo dentro de si. — Tome cuidado esta noite. Nem todo lobo que cruza esse território tem boas intenções.
Ela o observou por um instante longo demais. Depois assentiu, em silêncio.
Liam deu meia-volta, forçando o próprio corpo a obedecer. Cada passo para longe dela era um esforço consciente, quase doloroso. Ainda assim, quando alcançou a sombra das árvores, parou por um segundo.
— Ella — chamou, sem saber como sabia seu nome.
Ela prendeu a respiração.
— A lua não erra — disse ele, antes de desaparecer na escuridão.
Sozinha novamente, Ella levou a mão ao peito, sentindo o coração bater forte demais. Algo havia mudado naquela noite. Ela sabia. A lua sabia.
E, em algum lugar entre a floresta e o destino, um amor proibido acabara de despertar.