Capítulo 2
A voz de Renato ecoava pelo recinto, incansável, alimentando o burburinho geral com suas fofocas intermináveis.

Os outros colegas na sala embarcavam na conversa, rindo e elevando o tom, criando uma atmosfera de alvoroço que, para Adriana, tornava-se insuportável.

Ela mal conseguia distinguir o que António dizia em meio àquele ruído. Sua atenção estava inteiramente sequestrada por uma dor física lancinante, como se seu estômago estivesse sendo torcido por mãos invisíveis. Contudo, por mais aguda que fosse aquela agonia visceral, ela não representava nem um décimo da tortura silenciosa que lhe comprimia o peito.

Era impossível esquecer a data. Dez de outubro. O dia fatídico em que ela enfrentou, sozinha, uma intoxicação alcoólica severa seguida por um aborto espontâneo. Enquanto ela lutava solitária contra a morte, atravessando os portões do inferno numa maca fria, ele estava reatando laços com o grande amor de seu passado.

— Srta. Adriana? — Chamou uma garçonete que passava pelo corredor, a voz trêmula ao encontrar a mulher agachada no chão, com o rosto lívido e coberto de suor frio. — Você está bem? Parece estar sentindo muita dor.

Com a respiração entrecortada, Adriana mal teve forças para erguer a cabeça.

— Por favor... — Sussurrou ela, a voz saindo como um fio. — Chame uma ambulância para mim.

Pouco tempo depois, já deitada na maca da ambulância e lutando contra a vertigem, viu a tela do celular se iluminar. Era António.

Em qualquer outra circunstância, não importava o quão exausta ou doente estivesse, Adriana teria atendido ao primeiro toque. Era um reflexo condicionado de anos de devoção. Mas hoje, a dor era soberana. Doía tanto que ela não tinha espaço para mais nada. Não queria nada e não desejava ouvir ninguém, nem mesmo António.

Adriana permaneceu internada por cinco dias, diagnosticada com uma gastrite severa, resultado direto da falta de repouso após o trauma físico e emocional do mês anterior.

Durante aqueles longos dias de recuperação no hospital, o silêncio de seu celular foi ensurdecedor. António não apareceu. Não houve uma visita, nem sequer uma mensagem de texto perguntando onde ela estava. Talvez, pensou ela com amargura enquanto olhava para o teto branco do quarto, ela sempre tivesse sido insignificante no mundo dele. A única diferença era que, antes, sua própria cegueira apaixonada a impedia de enxergar a realidade.

Na segunda-feira, quando Adriana retornou à sede da Ventura Investimentos, ainda se sentindo frágil, foi imediatamente abordada por Lorena Cunha. A assistente se aproximou com aquele brilho no olhar típico de quem carrega uma novidade bombástica.

— Adriana, você ficou sabendo do bafafá? — Sussurrou Lorena, baixando o tom de voz em tom conspiratório. — Vamos receber uma "paraquedista" aqui na empresa! E é mulher!

— Uma indicação direta? — Indagou Adriana, franzindo a testa com ceticismo. — Isso não faz sentido.

António sempre era rigoroso e metódico em suas contratações. A própria Adriana, apesar da proximidade com ele, começara como estagiária e subira cada degrau com esforço. A Ventura Investimentos se orgulhava de não ter o hábito de colocar pessoas externas em cargos de chefia sem o devido processo.

— É a mais pura verdade! — Garantiu Lorena, arregalando os olhos para dar ênfase. — Vi com meus próprios olhos a carta de nomeação assinada pelo Sr. António. Ela vai assumir como Diretora de Investimentos do Setor Três!

O coração de Adriana falhou uma batida. Aquele cargo era a promessa que António havia feito para ela.

Durante anos, ela dedicara sua vida, sua saúde e sua juventude à Ventura Investimentos, e todos na empresa sabiam de sua competência. Pelas regras de progressão de carreira, ela já deveria ter assumido aquela diretoria há tempos, liderando seus próprios projetos.

Era António quem pedia, quase implorava, para que ela continuasse na secretaria, alegando que não encontrava ninguém à altura para substituí-la ao seu lado. Ele jurava que a vaga do Setor Três estava guardada para ela, esperando apenas a abertura de capital da empresa para formalizar a promoção.

— É mesmo? — Perguntou Adriana, esforçando-se para manter a voz neutra, embora sentisse uma pontada de ansiedade. — E qual é o nome dela?

— Acho que era Luciana... alguma coisa. — Respondeu Lorena, franzindo o nariz enquanto tentava puxar pela memória. — Li muito rápido.

Os dedos de Adriana tremeram involuntariamente e o copo de porcelana escapou de seu controle, estilhaçando-se no chão. A água quente respingou em seus tornozelos, e o barulho quebrando atraiu alguns olhares.

— Meu Deus, Adriana! Você se queimou? — Exclamou Lorena, recuando num sobressalto.

— Não. — Respondeu ela, mecanicamente.

A água não a queimava. No entanto, a dor que sentia por dentro era mais abrasadora do que qualquer ferida física.

— Luciana. — Repetiu Adriana, o nome saindo de seus lábios com um gosto amargo.

— O quê? — Perguntou Lorena, confusa, sem entender a reação da colega.

Adriana respirou fundo, tentando recompor a máscara de profissionalismo que usara por tanto tempo.

— O nome dela é Luciana Lima. A futura diretora de Investimentos do Setor Três.

— Ah, isso! É exatamente esse nome! — Concordou Lorena, estalando os dedos. — Espera, você a conhece?

— Não. Não conheço.

Ela se abaixou para recolher os cacos maiores, usando o movimento para esconder a umidade que ameaçava surgir em seus olhos, e depois foi buscar outro copo de água.

A notícia da contratação "vinda de cima" se espalhou como fogo em palha seca. Ao longo da manhã, vários funcionários cercaram a mesa de Adriana, ávidos por confirmar o boato, tratando-a como a fonte oficial de informações do chefe. A paciência de Adriana, já desgastada pela doença e pela decepção, esgotou-se.

— Se vocês estão tão curiosos, por que não perguntam diretamente ao Sr. António? — Disparou ela, a voz saindo mais ríspida do que pretendia.

O silêncio caiu sobre o escritório da presidência. A tensão durou apenas alguns segundos, quebrada por uma voz feminina, suave e melodiosa, vinda da entrada.

— António, parece que seus funcionários têm um temperamento forte. — Comentou a mulher, com um tom divertido.

Adriana se virou lentamente e sentiu a visão ofuscar. Parados lado a lado, António e a recém-chegada formavam uma imagem de perfeição que feria os olhos. Impecável como sempre, ele lançou um olhar gélido e indiferente sobre Adriana, antes de se voltar para a equipe e fazer as apresentações.

— Pessoal, atenção, por favor. — Disse António, com aquela autoridade natural. — Gostaria de apresentar a Sra. Luciana, a nova diretora do Setor Três. De agora em diante, todos os projetos da área estarão sob responsabilidade dela.

Os funcionários, recuperando-se da surpresa, apressaram-se em cumprimentar a nova chefe. Luciana era o retrato da simpatia. Sorria para todos, distribuindo gentilezas com uma naturalidade encantadora.

— É um prazer conhecer todos vocês. — Disse ela, radiante. — Espero que possamos fazer um ótimo trabalho juntos.

Ela trouxe pequenos presentes de boas-vindas para a equipe, e Adriana notou, com um aperto no peito, que António segurava as sacolas para ela.

Um sorriso de escárnio brotou nos lábios de Adriana. Durante todas as viagens e reuniões que fizeram juntos, era sempre ela quem carregava pastas, amostras e bagagens, correndo atrás dele de salto alto. Ele nunca, jamais, oferecia ajuda. Mas agora, para a mulher dos seus sonhos, ele se transformava num cavalheiro solícito.

A diferença entre ser amada e ser apenas útil nunca estava tão clara.

Luciana se aproximou da mesa de Adriana e estendeu um pacote para ela. Era um descanso de pulso para mouse, com o formato fofo de uma capivara.

— Obrigada. — Disse Adriana, pegando o objeto.

— Nossa! Que coincidência incrível! — Exclamou Luciana, apontando para o mousepad que já estava na mesa de Adriana, idêntico ao que ela acabara de dar. Ela se virou para António, rindo. — António, veja só! Vocês têm exatamente o mesmo gosto.

Em seguida, voltou-se para Adriana com um sorriso constrangido.

— O António me ajudou a escolher esses brindes. Não imaginava que fosse dar de cara com o mesmo modelo. Se você se importar, posso trazer outra coisa depois.

— Não precisa se incomodar, não me importo. — Respondeu Adriana, mantendo a polidez, embora sentisse o estômago revirar.

— Adriana. — Chamou António, com seu tom profissional de sempre. — Leve a Sra. Luciana para conhecer as instalações.

Adriana não tinha motivos para recusar. O manual não escrito da secretária perfeita da Ventura Investimentos ditava que as ordens do presidente eram absolutas.

E Luciana, precisava admitir, era agradável. Falava com todos de forma mansa e educada, e sua beleza era inegável. Uma elegância natural que justificava por que ela ocupava o lugar de inesquecível no coração de António.

Depois de percorrerem os principais departamentos, Luciana pediu para ver sua sala.

— Gostaria de ver onde vou ficar. — Disse ela, animada.

Aquele escritório havia sido finalizado há apenas duas semanas. Adriana supervisionara a obra pessoalmente. A escolha das persianas, a disposição da mesa, a cor das paredes, as plantas ornamentais, tudo era projetado de acordo com o gosto de Adriana. Ela sonhava com o dia em que ocuparia aquela cadeira, assim como sonhara com o dia em que se casaria com António.

Agora, diante da realidade cruel, percebia que havia perdido o amor e a carreira.

— É linda. — Elogiou Luciana, girando no meio da sala. — Gostei muito do estilo, é mais acolhedor do que eu imaginava. E o melhor de tudo, fica bem pertinho do António.

A ansiedade de partilhar a alegria com ele foi tamanha que Luciana nem esperou uma resposta. Saiu apressada em direção à sala da presidência, deixando Adriana para trás. Sozinha naquele escritório que deveria ter sido seu, Adriana se sentiu como uma intrusa em sua própria vida. Olhou ao redor, vendo seus sonhos materializados para outra pessoa, e sentiu como se seu coração estivesse sendo esmagado, dificultando sua respiração.

...

A reunião de meio-dia de segunda-feira era sagrada na Ventura Investimentos. Era o momento em que a empresa alinhava as estratégias da semana, e a pontualidade era exigida com rigor militar. Ninguém ousava chegar atrasado. Adriana estava em seu lugar habitual, com a pauta pronta, observando os ponteiros do relógio.

Todos estavam presentes, exceto Luciana.

Mesmo sendo seu primeiro dia, a nova diretora ousara quebrar a regra de ouro de António. Adriana prendeu a respiração, aguardando a explosão. António detestava atrasos. Ela esperava, no mínimo, uma reprimenda pública ou um comentário sarcástico sobre responsabilidade.

A porta se abriu e Luciana entrou, pedindo desculpas sorridentes.

António ergueu os olhos dos papéis. Para choque de Adriana, o rosto dele permaneceu sereno. Não houve fúria, nem sequer uma advertência.

— Podemos começar. — Disse ele calmamente, virando-se para Adriana. — Distribua os materiais, por favor.

Adriana ficou paralisada por um milésimo de segundo, atordoada. Uma memória antiga invadiu sua mente.

A época em que ainda era estagiária. Certa vez, chegou atrasada à reunião porque estava com febre alta, uma gripe forte que pegou justamente cuidando de António dias antes. Naquela ocasião, ele não tinha piedade. Humilhou Adriana na frente de todos os diretores, citando-a como exemplo de falta de compromisso.

Quando ela tentou argumentar depois, magoada, ele justificou dizendo que a empresa estava no início e que precisava dar o exemplo, usar "mão de ferro" para estabelecer a cultura organizacional. Ela aceitou ser o bode expiatório, acreditando que ele apenas separava o pessoal do profissional.

A cena de hoje, porém, foi como um bofetão estalado em sua face.

A verdade, nua e crua, revelava-se diante dela. António sabia muito bem misturar o pessoal com o profissional. Ele abria exceções, sim. Mas apenas para quem ele realmente amava. E aquela pessoa, definitivamente, não era ela.
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