Sete Anos de Graça, Um Adeus Sem Volta
Sete Anos de Graça, Um Adeus Sem Volta
Por: Norte
Capítulo 1
Diziam que todo homem carregava no peito, escondida nas profundezas da memória, a lembrança de um grande amor inalcançável, aquela paixão de juventude que nunca se concretizou.

Adriana Ribeiro sempre acreditou que António Sousa fosse a exceção à regra, afinal, a história deles também começou na juventude e perdurava há anos com uma devoção que parecia inabalável.

Infelizmente, o mundo parecia ser um palco cruel onde o passado nunca morria, e António, ao que tudo indicava, não estava imune a esse clichê.

Adriana se entregou a ele aos 18 anos e permaneceu ao seu lado por sete longos anos. Foram mais de dois mil dias e noites de companheirismo, intimidade e cumplicidade, mas nem toda aquela dedicação foi capaz de superar o impacto de um simples olhar trocado pelo homem em sua adolescência.

Chegava a ser risível, de uma ironia amarga. Ela dedicou quase uma década de sua vida a ele, mas falhou miseravelmente em enxergar a verdadeira natureza do coração daquele homem. Quão profundo seria esse sentimento, a ponto de fazê-lo guardar outra mulher em segredo por tanto tempo?

O devaneio de Adriana foi bruscamente interrompido pela impaciência de António. Percebendo a falta de foco da parceira, ele franziu o cenho. Com a respiração pesada, ele a alertou para não se distrair.

António sempre era intenso e vigoroso na cama, e naquela noite não era diferente. No calor do momento, um movimento brusco de seu braço acabou esbarrando na mesa de cabeceira, derrubando uma pequena caixa de veludo preto.

Ágil, ele conseguiu segurar o objeto antes que atingisse Adriana. Talvez por nunca ter visto aquele item ali antes, uma rara curiosidade o invadiu.

— O que é isto? — Perguntou ele, segurando a caixa com firmeza.

Ocultando o turbilhão que lhe oprimia o peito, Adriana arrancou o estojo da mão dele com aparente indiferença e o atirou para o lado. Em seguida, enlaçou o pescoço de António, colando os lábios em seu pomo de adão e sussurrou, provocante:

— Vai mesmo se distrair numa hora dessas? Ou será que já se cansou de mim?

A provocação surtiu o efeito desejado. Incapaz de resistir à sedução dela, António esqueceu a caixa num instante e voltou a se concentrar no corpo da mulher. Enquanto ele se perdia na loucura do prazer, Adriana virou o rosto para o lado, encarando a caixa de veludo preto abandonada no chão. Seus olhos marejaram, brilhando na penumbra do quarto.

"António, você jamais saberá o que há dentro dessa caixa", pensou ela, com o coração apertado.

...

Tudo começara um mês antes, quando a Ventura Investimentos abriu seu capital com sucesso na bolsa. Os amigos do círculo íntimo de António organizaram uma celebração privada, e Adriana compareceu deslumbrante, decidida a transformar aquela noite no marco definitivo de suas vidas. Ela iria pedir António em casamento.

Sabia que, tradicionalmente, aquele deveria ser o papel do homem. No entanto, o amor de Adriana por António era tão avassalador que ela estava disposta a deixar de lado o orgulho e a etiqueta social para tomar a iniciativa. Ninguém imaginava que ela aguardava sete anos por aquele momento.

António era um homem obcecado pelo trabalho. Por ele, Adriana mudava a rota de sua própria vida, escolhendo cursar Finanças, uma área que detestava, apenas para ser útil. Após a formatura, recusou ofertas de multinacionais no exterior para entrar na Ventura Investimentos como uma funcionária de baixo escalão, galgando degraus com suor e lágrimas até se tornar a secretária executiva e braço direito dele.

Apenas Adriana conhecia o peso daquelas escolhas. Nos momentos em que a paixão falava mais alto, a pergunta "Você vai se casar comigo?" quase escapava de seus lábios, mas ela sempre se continha.

A voz de sua mãe ecoava em sua mente como um mantra doloroso: "Presentes e amor não se pedem. O que é dado por vontade própria é privilégio, o que se pede é esmola."

Além disso, António nunca foi homem de demonstrar sentimentos com palavras, e o fato de não haver outra mulher em sua vida durante todos aqueles anos parecia, aos olhos dela, a prova silenciosa de sua fidelidade.

O casamento parecia o desfecho natural. Para garantir esse futuro, Adriana agiu como um soldado na linha de frente da Ventura Investimentos, enfrentando crises e exaustão sem jamais reclamar. Perdeu a conta de quantas vezes foi parar no hospital por excesso de trabalho ou álcool em jantares de negócios. Na pior das vezes, uma intoxicação alcoólica severa somada a um aborto espontâneo quase a levou à morte na mesa de cirurgia.

Sua melhor amiga, Teresa Marques, indignada ao vê-la convalescente, questionou na época:

— Você quase morreu, Adriana! Vale a pena se destruir desse jeito por um homem? Olha o estado em que você ficou... se arrepende?

Pálida, mas decidida, Adriana balançou a cabeça.

— Vale a pena. Sim, vale.

Num misto de admiração e pena, Teresa a apelidou de "Guerreira do Amor".

— Espero que você não perca essa batalha. — Disse a amiga, suspirando.

— O António não vai me deixar perder. — Garantiu Adriana, com uma certeza que agora parecia ingênua.

Aquela convicção a sustentou até o dia em que António tocou o sino no Porto Maravia, oficializando a abertura de capital.

Ninguém soube, mas naquele dia de triunfo, Adriana se trancou no banheiro e chorou copiosamente, descarregando anos de tensão. Depois, enxugou as lágrimas e começou a planejar a surpresa do pedido. Como António estaria ocupado com a expansão da empresa e as celebrações, ela decidiu que facilitaria as coisas para ele, assumindo a responsabilidade pelo próximo passo do relacionamento.

Agora, parada diante da porta da sala privada onde ocorria a festa, Adriana sentia o estômago revirar. Apesar de todo o preparo psicológico, suas mãos tremiam incontrolavelmente. Ela respirou fundo, tentando acalmar as batidas do coração para que a voz não falhasse na hora de recitar os votos que decorara com tanto carinho.

Lá dentro, a festa estava animada. Entre risos e o tilintar de copos, uma voz se sobressaiu, clara o suficiente para atravessar a porta:

— Ei, António, você ainda tem contato com a Luciana?

— Luciana? — Outra voz interveio, surpresa. — Aquela paixão antiga do António? Por que perguntar dela agora?

— Ouvi dizer que ela está voltando.

— Sério? Então o António vai ter a chance de reatar com o grande amor da vida dele?

A mão de Adriana, que estava prestes a girar a maçaneta, congelou no ar. O sangue pareceu drenar de seu rosto.

— Falando sério, o pai da Luciana está com muito prestígio político ultimamente. — Comentou Renato Nogueira, amigo de infância de António, com seu tom pragmático habitual. — Se o António se casar com ela, seria uma união perfeita. Ajuda a Ventura Investimentos, agrada as famílias e eles ainda fazem um par bonito. Amor e negócios, o pacote completo.

Renato sempre se gabava de conhecer António melhor do que ninguém, o que dava às suas palavras um peso aterrorizante.

António tinha um grande amor? O coração de Adriana se contraiu violentamente, uma dor física e aguda.

— Mas e a Adriana? Como fica nessa história? — Alguém perguntou, hesitante. — Ela está com o António há tanto tempo... querendo ou não, ela ajudou muito a empresa.

Renato soltou uma risada de escárnio.

— Ah, isso é fácil. Dá um bom dinheiro para ela e pronto, vida que segue.

— E se ele gostar mesmo dela? — Insistiu a voz.

— Se gostar tanto assim, casa com a Luciana e mantém a Adriana por perto. Qual o problema?

A lógica era brutal. A esposa oficial em casa para as aparências, e a amante disponível para o prazer.

Do lado de fora, as unhas de Adriana se cravavam na palma da mão com tanta força que a dor física já não era sentida. Ela precisava, desesperadamente, ouvir a resposta de António. Queria que ele explodisse, que defendesse a honra dela, que gritasse para todos que a única mulher que amava e com quem se casaria era Adriana Ribeiro.

O silêncio se estendeu por alguns segundos torturantes até que a voz grave de António soou, desprovida de qualquer indignação:

— Desde quando vocês viraram um bando de fofoqueiros?

Nenhuma negação. Nenhuma defesa. Apenas uma evasiva que soava, aos ouvidos de Adriana, como uma confirmação tácita.

— Ah, qual é! Dia de festa pede assunto polêmico, senão eu durmo no sofá. — Retrucou Renato, animado, tentando agitar o ambiente. — Vamos fazer um jogo. Cada um conta a coisa mais louca ou arriscada que já fez. Um momento verdade.

Conhecido por sua vida amorosa caótica e por trocar de namorada como quem troca de camisa, Renato adorava aquele tipo de exposição.

— Eu começo! — Gritou um dos rapazes. — Sexo no carro.

— Grande coisa, isso é básico. — Zombou Renato.

— Em um trem em movimento. — Completou o outro, arrancando assobios e aplausos de "aí sim!" e "esse tem coragem!".

Empolgado, Renato se virou para o amigo que parecia entediado no canto do sofá.

— E você, António? Qual foi a sua maior loucura?

Houve uma pausa. António pareceu refletir por alguns instantes antes de responder com uma calma desconcertante:

— Fui o amante. Por amor.

A confissão caiu como uma bomba no recinto. O caos se instalou num instante. António Sousa, o herdeiro intocável da família Souza em Riviera, o homem que poderia ter qualquer mulher aos seus pés, rebaixou-se a ser o amante? Aquilo só podia ser obra de um amor avassalador.

Renato reagiu com uma euforia tão estridente que a porta vibrou, ferindo os tímpanos de Adriana.

— É a Luciana, não é? Eu sabia! Você ainda é louco por ela! — Berrou Renato, triunfante. — Na época, você gostava da Luciana, mas ela namorava o Bernardo, então você aceitou ser o amante só para ficar com ela! António, você é um verdadeiro guerreiro do amor, um romântico incurável!

As risadas e os aplausos lá dentro soaram para Adriana como baldes de água gelada, encharcando sua alma e congelando seus ossos. Uma náusea violenta subiu por sua garganta, obrigando-a a se agachar lentamente no corredor para não desmaiar.

O mundo girava, e a voz de Renato continuava a perfurar sua sanidade:

— António, fala a verdade, papo reto agora. No dia dez de outubro, você encontrou a Luciana, não encontrou?

— Como você sabe disso? — A voz de António soou cautelosa.

— Ela postou no Instagram! Escreveu uma legenda brega sobre "o reencontro ser a coisa mais romântica do mundo". Juntei dois mais dois! E aí? Rolou alguma coisa naquela noite? Mataram a saudade? Foi aquele fogo de palha ou incêndio total?
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