Capítulo 3
Ao terminar de distribuir os relatórios na sala de reuniões, Adriana se virou e deparou com uma surpresa desagradável. Luciana já estava acomodada, e justamente na cadeira que Adriana ocupava há anos, ao lado da cabeceira. Ela estancou, atônita, e abriu a boca para protestar suavemente, mas a voz grave de António a cortou antes que pudesse emitir qualquer som:

— A partir de hoje, você senta ali.

Luciana ofereceu um sorriso tímido, quase apologético, e se justificou com uma suavidade ensaiada:

— Desculpe, Adriana. Como acabei de chegar, tenho muitas dúvidas e preciso da orientação constante do António. Ficar mais perto facilita o aprendizado.

Com a ordem dada pelo chefe, o que restava a ela dizer? Em silêncio, Adriana recolheu seus pertences e, abraçada ao laptop como se fosse um escudo, caminhou até o canto mais afastado da mesa.

Um silêncio pesado caiu sobre a reunião. Ninguém ousava respirar alto, mas Adriana podia sentir os olhares dos colegas queimando em suas costas. Era uma compaixão muda e sufocante que a feria mais do que qualquer insulto direto, fazendo-a se sentir deslocada em seu próprio ambiente de trabalho.

A reunião seguia arrastada e tensa. Na metade da pauta, António interrompeu a apresentação para questionar o andamento de um projeto específico.

— Por que isso ainda não saiu do papel? Quem é o responsável por essa estagnação? — Disparou ele, com aquele tom ríspido que todos conheciam bem como o prenúncio de uma explosão.

O escritório mergulhou num silêncio, tenso como uma corda prestes a arrebentar. Sentindo a pressão esmagadora do ambiente, Adriana se levantou devagar, no fundo da sala.

— Sou a responsável, senhor.

Os olhos de António fuzilaram-na, gélidos e impacientes.

— Exijo uma explicação. Agora.

— Peço desculpas, estive doente nos últimos dias e isso acabou atrasando o cronograma... — Começou ela, com a voz um pouco fraca devido ao mal-estar.

António não a deixou terminar.

— Isso não é justificativa! — Trovejou ele, batendo a mão na mesa para enfatizar. — Já deixei claro, problemas pessoais não podem interferir no desempenho profissional. Essa é a regra e não abro exceções!

Adriana engoliu em seco, sufocando a vontade de se defender diante da injustiça. Baixou a cabeça e murmurou, resignada:

— Vou recuperar o tempo perdido imediatamente.

Só então a expressão de António relaxou minimamente, satisfeito com a submissão pública dela.

Antes de encerrar a reunião, António fez um anúncio que pegou a todos de surpresa. Haveria uma festa de boas-vindas para Luciana naquela noite no Clube Oásis, e a presença de todos era requisitada.

O Clube Oásis era o estabelecimento mais exclusivo e caro de toda a Riviera, conhecido pelo luxo extravagante. Aquele gesto grandioso deixava evidente o quanto António valorizava a nova funcionária, fazendo com que os colegas trocassem olhares significativos e passassem a encarar Luciana com renovado respeito.

Até mesmo Lorena, sempre tão ingênua e alheia às políticas do escritório, percebeu a tensão no ar. Enquanto ajudava Adriana a organizar a sala de reuniões após a saída dos outros, ela sussurrou, preocupada:

— Adriana, você está bem? Mesmo?

Lorena era uma das poucas que desconfiava da existência de algo mais entre Adriana e o chefe. Tentando manter a compostura, Adriana respondeu num tom neutro:

— Estou, sim, não se preocupe.

— Não parece... Você está muito pálida. — Insistiu a colega, franzindo a testa ao analisar o rosto da amiga.

Adriana tocou a própria face, sentindo a pele fria e úmida.

— Dá para notar tanto assim?

— Muito. Parece que vai desmaiar a qualquer momento. — Confirmou Lorena, enfática.

— É o estômago. Você sabe, aquele meu problema crônico voltou a atacar. — Mentiu Adriana, desviando o assunto para não revelar a dor emocional.

— E você vai à festa hoje à noite?

Adriana hesitou por um instante antes de balançar a cabeça negativamente.

— Acho que não. Por favor, avise o Sr. António por mim.

António convidava a empresa inteira para celebrar a chegada de Luciana, uma pessoa a mais ou a menos não faria a menor diferença. Talvez, no meio da celebração, ele nem sequer lembrasse que ela existia. A sua presença ou ausência era irrelevante.

— Fez bem. — Concordou Lorena, aliviada. — Vá para casa e descanse. Sua saúde é mais importante do que qualquer festa.

Se até Lorena notava seu estado deplorável, como podia António, com quem ela dividia tanta intimidade e segredos, não perceber nada? Antigamente, ela se enganava dizendo a si mesma que ele era apenas focado demais na carreira para notar detalhes. Agora, diante da frieza dele, aquela desculpa já não colava mais. Era impossível continuar se iludindo.

Como se respondesse aos seus pensamentos sombrios, seu estômago se contraiu num espasmo doloroso. Com muito trabalho pendente, ela engoliu um antiespasmódico forte e se forçou a continuar até o fim do expediente. A duras penas, Adriana chegou a casa e desabou na cama, exausta, sem forças sequer para tirar os sapatos. Sentia o corpo e a alma drenados.

Encolhida em posição fetal, esperou que o remédio fizesse efeito. O sono estava começando a aliviar seu sofrimento quando o toque estridente do celular a despertou, rasgando o silêncio do quarto.

Era o toque personalizado de António.

Aquele som, que antes fazia seu coração disparar de alegria e expectativa, agora soava como uma tortura psicológica. Adriana deixou tocar, imóvel, esperando que ele desistisse. Sabia que a paciência de António era curta e ele raramente insistia.

Contrariando seus hábitos, porém, o telefone tocou uma segunda vez. Ignorar novamente seria declarar guerra. Com um suspiro pesado, ela atendeu.

— Sr. António? Algum problema? — Perguntou ela, com uma frieza distante que não lhe era natural.

Houve uma pausa do outro lado, como se ele conferisse o número, estranhando o tom dela.

— Onde você está? — Indagou ele, ríspido.

— Não estou me sentindo bem, então fui direto para casa. Divirtam-se.

Ela estava prestes a encerrar a chamada quando ouviu a voz de Luciana ao fundo, doce e insidiosa, atravessando a linha:

— A Adriana não vem? Ah, António... Será que ela não gosta de mim? Será que não sou bem-vinda?

Imediatamente, a voz de António voltou ao primeiro plano, gélida e cortante:

— Adriana, pare de fazer cena. Todo mundo está aqui, menos você. Quer bancar a especial para se destacar?

— Eu... — Tentou ela, atordoada pela acusação.

— Te dou 20 minutos. — Sentenciou ele, implacável. — Se não aparecer, não precisa se dar ao trabalho de voltar à empresa amanhã.

O telefone ficou mudo. Ele desligara na cara dela.

Adriana segurou o aparelho junto ao peito, sentindo uma vontade histérica de rir. Apenas por faltar a uma festa de boas-vindas, ele ameaçava demiti-la? Depois de anos de dedicação, de suor, de destruir o próprio estômago bebendo com clientes para fechar os contratos dele... Era isso que ela valia? Nada? Todo o seu sacrifício e a gastrite severa que ganhara em nome da empresa não significavam absolutamente nada para aquele homem.

...

Quando Adriana chegou ao Clube Oásis, o ambiente no camarote privado já estava eletrizante, com música alta e risadas. Renato, um dos colegas mais animados e já alterado pela bebida, incitava aos gritos:

— Beija! Beija! Vamos, António, brinde cruzado com a Luciana!

— Parem com isso, não sejam infantis. — Disse António, mas seu tom era indulgente e carinhoso, sem traço da frieza que usara ao telefone minutos antes.

— Qual é, António? Vai amarelar? Estamos aqui para curtir! Todo mundo já bebeu, só falta o casal da noite! — Provocou Renato, rindo.

Antes que ele respondesse, Luciana ergueu sua taça e, com um sorriso desafiador e encantador, convidou abertamente:

— É só uma brincadeira, António. Colabore, não me deixe passar vergonha na frente da equipe.

Sob os olhares expectantes de todos, António pegou seu copo de uísque. No exato momento em que Luciana entrelaçou o braço no dele para o brinde íntimo, os olhos de António encontraram os de Adriana, parada à porta como um fantasma.

O olhar durou apenas um segundo. Ele desviou o rosto com total indiferença e ergueu o copo, selando o momento com a outra mulher.

Renato sacou o celular para registrar a cena e mandar no grupo dos amigos, mas na empolgação acabou esbarrando em Luciana.

— Cuidado!

O desequilíbrio jogou Luciana para a frente, e António, por instinto protetor, amparou-a. Os dois acabaram num abraço apertado, corpos colados, arrancando assobios e aplausos da sala. Do ângulo de Adriana, pareciam um par de namorados apaixonados posando para uma foto.

Estranhamente, seu coração não doeu. Talvez estivesse anestesiada pela humilhação contínua. Em compensação, seu estômago se revoltou, uma náusea violenta subindo pela garganta, misturando-se à dor física aguda.

O clima de euforia foi interrompido por um grito de surpresa. Era Lorena, que finalmente notara a figura estática na entrada.

— Adriana! O que faz aqui? — Exclamou ela, aproximando-se rapidamente. — Você não estava doente? Deveria estar na cama repousando!

A preocupação genuína dela soou dissonante na atmosfera de festa. Luciana, ainda confortavelmente aninhada nos braços de António, ergueu o rosto e sorriu radiante:

— Adriana, que bom que veio! Entre, só faltava você para a festa ficar completa.

— Desculpem o atraso, tive um imprevisto. — Disse Adriana, adentrando o recinto com uma calma que não sentia, tentando esconder a tremedeira das mãos.

Renato pareceu murchar um pouco, sentindo que a brincadeira havia ido longe demais ao ver a palidez da colega, e abriu a boca para aliviar o clima. Mas António foi mais rápido. Com o rosto impenetrável e voz de comando, ele decretou:

— Quem chega atrasado deve pagar a prenda para mostrar sinceridade. Três doses, agora.

Ao ouvir a sentença, o estômago de Adriana se contorceu num espasmo brutal, como se facas revirassem suas entranhas. Beber naquelas condições não era apenas um castigo injusto. Era perigoso. Ele sabia disso, ou pelo menos deveria saber.
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