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LIZZY...
O céu está carregado de nuvens escuras, e o som de trovões ecoa pelas montanhas que cercam a Villa. A cidade, geralmente tão calma e tranquila, parece agora uma panela prestes a explodir. Estou em casa, olhando pela janela, quando vejo os carros pretos estacionando na praça. Homens de rostos duros trocam olhares furtivos, como se estivessem esperando algo ou alguém. Eu não sei, mas sinto que algo está errado. E é nessa atmosfera tensa que João está se metendo. Sei que meu irmão, apesar de ter apenas 15 anos, não tem medo de nada. Ele sempre teve essa necessidade de proteger a família, como se fosse o cabeça da casa, mesmo sendo tão jovem. Mas, na maioria das vezes, ele não pensa antes de agir. E posso ver que ele está se metendo em algo que nem ele entende a profundidade. Hoje, ele saiu do trabalho de mecânico mais cedo. Está feliz por ter conseguido seu primeiro emprego e por poder ajudar minha mãe nas despesas da casa. Estou em casa e vejo ele passando pela rua com uma expressão estranha no rosto. Sei que algo está prestes a acontecer. Não demora muito para ele voltar, sem falar nada, mas com os olhos cheios de tensão. É então que ele me conta o que viu. Eu vi os homens descarregando as caixas, Lizzy — ele diz, com a voz baixa e nervosa. — E eu vi o que tinha dentro. Eu congelo. Sei exatamente o que ele quer dizer. Ele não precisa me contar mais nada. Mesmo sendo uma menina de apenas 11 anos, sei que meu irmão está correndo perigo. As caixas não são simples mercadorias. São armas. Armas que não deveriam estar aqui, em Villa da Serra, tão perto da nossa casa. Mas João, com a cabeça quente, não vê o perigo. Ele apenas quer saber o que está acontecendo, como sempre. Só que desta vez, ele se meteu em algo maior do que imagina. Enquanto ele fala, minha mente corre, e uma sensação de medo aperta meu peito. — João, você não pode brincar com isso. Eles vão te achar — digo, quase gritando, mas tentando manter a calma. Ele me olha, com aquele olhar de quem sabe que está fazendo a coisa certa, mas eu sinto que ele não faz ideia do quanto está arriscando. Quero proteger ele. Mas, neste momento, sei que não posso. Ele entra e corre para nossa mãe. — Entra no quarto com a Lizzy, mamãe… Eu andei bisbilhotando demais onde não devia, e agora estamos com problemas! — João fala, fechando a porta do quarto. Ainda consigo ouvir os gritos dele, sua voz rouca de tanto gritar. Quando fecho os olhos, vejo a quantidade de sangue que fica para trás. Ele era só um moleque enxerido, não há necessidade de machucar ele. — João… Meu filho, por Deus, não matem meu filho! — minha mãe grita desesperada. Ele é espancado até a morte, ou pelo menos é isso que pensamos, pois não haveria possibilidade de uma criança sobreviver a tantos chutes e socos. Não tivemos nem mesmo o seu corpo, e até hoje sinto no fundo do meu coração que ele está vivo em algum lugar. VILA DA SERRA 15 ANOS DEPOIS… — Menina, não vá… Eu já perdi seu irmão, só tenho você! — diz minha mãe, aflita. — Podemos sobreviver com o salário que seu pai deixou. — Não, mãe! A senhora precisa cuidar da saúde, fazer todos os exames… As consultas são caras. Eu preciso arrumar um emprego melhor! O que eu ganho, junto com a pensão do meu pai, não dá para cuidar da senhora. — digo, tentando convencê-la. As horas passam. Ela continua inquieta e relutante. Enquanto isso, recebo uma proposta para trabalhar numa grande empresa. O cargo é simples: cuidar do café dos executivos e da limpeza de alguns setores. Mas sei que, com esforço, posso crescer ali dentro. Às 22h30, meu telefone toca. — Oi, amiga, você ainda não me deu resposta! Vai querer a vaga? O salário é bom, você vai conseguir pagar os exames da sua mãe. — diz Sofia, minha amiga de infância que se mudou para a cidade grande aos dezoito anos. Minha mãe nunca gostou da nossa amizade. Muitos comentam que Sofia ganha a vida se prostituindo nas estradas. Eu nunca acreditei, ela sempre me envia fotos do escritório onde trabalha como secretária. — Minha mãe não quer deixar… Ela insiste que não há necessidade. Me dá só mais um dia, vou tentar convencê-la! Sofia concorda e desliga. Saio do meu quarto para ver minha mãe e, para minha surpresa, ela não está nada bem. Quase meia-noite e a ambulância ainda não chega. Peço socorro aos vizinhos, que me ajudam a levá-la até a emergência na entrada do povoado. — Eu sinto muito… — diz a enfermeira, com a voz grave. — Sua mãe sofreu um infarto. Ela está na emergência, mas precisamos que alguém assine o termo de responsabilidade. Nem todos os procedimentos são cobertos. Ela vai ser transferida para a capital e precisará de cirurgia. Fico sem chão. Minha mãe vai ser operada e eu não tenho nem o suficiente para comprar um lanche… Como vou pagar o hospital? O desespero toma conta de mim. Como vou resolver tudo isso sozinha? Quando amanhece no hospital da capital, meu coração se aperta ao vê-la tão debilitada. A cirurgia foi feita, mas ela precisa permanecer internada por alguns dias. — Estou bem, criança… Não precisa chorar. — ela sussurra, com a voz muito fraca. — Mãe… Eu sei que a senhora não quer, mas eu não tenho escolha. Vou aceitar o trabalho na empresa onde a Sofia trabalha. A cirurgia não foi totalmente custeada pelo estado, e ainda tem a internação. Ela fecha os olhos, chateada, e permanece em silêncio. Mando uma mensagem para Sofia, que logo me envia o endereço da empresa. Espero até as enfermeiras e o médico passarem pelo quarto. Assim que me liberam, corro para a empresa. Caminho distraída pelo corredor do hospital, contando as moedas para pagar a passagem de ônibus, quando um homem alto e forte esbarra em mim, me derrubando no chão. — Seu idiota! Será que não tem olhos? Olha o que fez, derrubou todo o meu dinheiro! — grito, recolhendo as moedas. O homem apenas me lança um olhar frio e segue sem dizer uma palavra. — Mal-educado… Com certeza não teve pai nem mãe para lhe ensinar boas maneiras! Retardado! — resmungo, indignada. Sigo para o elevador, ainda furiosa. Quando a porta se abre, um dos homens que acompanhava o tal "riquinho" se aproxima de mim. — Isso é pelo transtorno que meu chefe causou… Aceite! — ele diz, me oferecendo algumas notas de dólares. — Ele… O seu chefe é um imbecil, isso sim! Mande ele enfiar esse dinheiro… — começo a falar, mas sou interrompida pelo arrogante dentro do carro. — Vamos logo… Não perca tempo com essa mulher! Olha para ela, só vive de escândalo! — diz ele, subindo o vidro do carro sem sequer me olhar. Tudo que eu queria naquele momento era uma pedra. Com toda certeza, acertaria o carro dele.






